O futebol mudou ou fui eu que não mudei? (Por @lilianfmoreira)

Quando meu pai fazia estágio comigo para ser pai de um menino que só chegou anos depois (e já nasceu com cinco estrelas no peito) e me incutia pelo mundo do futebol, ele se preocupava em me explicar regras fundamentais tais como:

(i) futebol se joga com 11 jogadores em cada equipe; (ii)  dentro de quatro linhas; (iii) gol é quando a bola entra na meta do time adversário; (iv) pênalti é infração marcada pelo adversário dentro da pequena área; (v) os técnicos são os responsáveis por armar as equipes e definir seus esquemas táticos, fazer alterações, ressuscitar a equipe e até mesmo perder o jogo; (vi) impedimento é algo muito complexo para uma garotinha de 6 anos aprender, mas aos 7 anos de idade ela já consegue dominar a regra; (vii) o juiz e os bandeirinhas devem ser meros coadjuvantes da partida e nunca devem aparecer mais que os jogadores, nem interferir em seu resultado. Estranho! Será que meu pai se enganou nessa última lição ou é o mundo que está de ponta cabeça passados menos de vinte anos desde a minha iniciação no mundo do futebol?

Nesse meio tempo, o meu amor e entusiasmo pelo maior de Minas só fez aumentar numa progressão geométrica: vestir o manto celeste é natural, ver nossos guerreiros jogarem é trivial, me arrepiar com cada gol e jogada espetacular é o mesmo que sentir o cegar do brilho intenso da nossa constelação. Defender nossas cores numa resenha com adversários sem argumentos já nem é mais questão de honra: é diversão. O que mudou nesse tempo todo é que outrora se o árbitro errava, era porque o lance era maculado por um jogador que lhe encobria a visão ou pelo seu mau posicionamento em campo, pela rapidez das jogadas de atletas muito velozes, por campos extremamente ruins, por auxiliares despreparados, por seu péssimo preparo físico. Sim meus amigos, eu fiz parte do tempo em que se podia atribuir grande parte dos erros às falhas humanas e ainda era possível acreditar em pessoas escrupulosas no futebol. Tempo este em que o melhor time jogaria o futebol no campo, realizaria as melhores jogadas ou mesmo aproveitaria as falhas do adversário e marcaria gols e venceria a partida: simples assim! Não havia o famoso “tapetão!”. Não era necessário recorrer à Justiça Desportiva para conseguir o reparo de um dano, porque o dano não existia de fato. Sou do tempo, e nem sou uma anciã, em que raramente um jogador se exaltava a ponto de mandar um árbitro para a casa da mãe Joana, e como resultado recebia um efeito suspensivo de quatro partidas. Por outro lado, eu nem ouvia falar de um juiz que confiscara 2 pontos (na verdade a gula dele era por três!) e sai ileso no final da fatura. Não sou do tempo da censura, mas é incrível como o Estatuto do Torcedor foi criado no momento certo. Um país que fantasia a solução da fome e do desemprego com bolsas e não se preocupa com seus tributos, se preocupa sobremaneira em regimentar as palavras que saem da boca de quem vai a um estádio torcer porque o “mundo estará de olho estará em nós em 2014”. Até parece que só brasileiro pronuncia palavras de baixo calão. Quanta falta do que fazer! Reprimendas à base da ameaças. Coisas do Brasil!

Não, eu não sou do tempo que se mata bola na pequena área com o braço e não se marca pênalti; que a bola não sai e o gol é anulado; que falta fora da grande área é pênalti…  Perguntei aos mais entendidos se as regras mudaram e me disseram que não. A interpretação delas ainda continua objetiva. Só posso acreditar que esse ano o Campeonato Brasileiro terá dois Campeões: um Real e um Moral: a CBF jamais dirá que sim, mas o resto do Brasil, inclusive a imprensa está estudando o caso. O Campeão Moral ainda irá disputar o restante das rodadas jogando o futebol em campo, disputando ponto a ponto, rodada a rodada, obedecendo todas as regras que nós conhecemos e aprendemos com os nos estimularam a gostar de futebol (valeu pai!). O Campeão Moral não irá ganhar nada, nem taça, nem faixas, somente o reconhecimento por jogar futebol na raça, na garra, encher nossos olhos, nos deixar com o corpo arrepiado, o coração em disparada, e as quartas-feiras e Domingos salvos do tédio. O Cruzeiro está no páreo nessa disputa e segue firme mostrando aos adversários como se joga futebol. Por outro lado, o Campeão Real me parece já ter sido escolhido e está sendo escoltado por juízes e dirigentes. A entrega da taça para este é questão de tempo.

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3 respostas em “O futebol mudou ou fui eu que não mudei? (Por @lilianfmoreira)

  1. Eu ainda acredito que com todas as adversidades impostas pela arbitragem, o Maior de Minas ainda irá chegar lá.
    Vamos Cruzeiro, eles têm apitos e cartões, mas nós temos raça, temos guerreiros e temos Montillo.

  2. Duro mesmo é ver que o futebol mudou e você mudou também. Já sinto-me nostálgico, não torço mais com a mesma vontade e tenho menos interesse e disposição para acompanhar este ou aquele jogo.

    Bem que minha vó dizia: tudo que é demais, faz mal!

    Abraços

  3. Infelizmente muda. Futebol muda. Política muda. E a impressa muda. E sabe o pior?! Eles estão conectados!! É triste!!
    Mas gostei muito do seu texto!!Parabéns. Escreve muito bem. Quem dera eu com este dom!!

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