90 anos: E nasceu o Cruzeiro forte

Ainda em comemoração aos 90 anos do Cruzeiro, a seguir o artigo sobre a história do Cruzeiro na ótica da mesma revista Placar até 1979. Para quem ainda não conhece, se divirta! Para quem já conhece, sempre há algo novo e nunca é demais relembrar a nossa história.

Já estou separando os textos para lhes contar a história do Niginho, o “Menino Metralha”; e Abelardo, o original “Flecha Azul”.

E nasceu o Cruzeiro forte

Aos 22 anos, Belo Horizonte era uma cidade que buscava meios de reunir suas colônias através de clubes. Os passeios dominicais sob as árvores da Avenida Afonso Pena não satisfaziam. Os portugueses tinham seus grupos e se reuniam no Lusitano Athletic Club. Os estudantes universitários, gente fina da sociedade, faziam parte do América Futebol Clube, o melhor time de futebol da capital. O povo, gente que se misturava sem preconceitos ou crenças, ricos e pobres, vibrava com o Atlético Mineiro.

Os italianos eram os únicos estrangeiros que se misturavam – e não gostavam. Parte deles – e eram muitos – pertencia a um clube de estrutura frágil e que inspirava pouca amizade de seus membros. Era o Yale Athletic Club, que tinha sua sede esportiva no Barro Preto e fazia suas reuniões noturnas na fábrica de calçados Ranieri & Filhos, na rua Caetés. Ali eram tratados os assuntos de futebol e tomadas as providências rotineiras. E o grupo mais assíduo já estava aborrecido com a pouca expressão do Yale, que não tinha uma filosofia própria. Esse grupo era formado por imigrantes italianos e seus filhos.

Uma grave crise, finalmente, abalou o Yale. Sócios e atletas em grande número se demitiram. Os italianos decidiram seguir o caminho o caminho aberto pelo Palestra Paulista, que em 1914 foi fundado para reunir, exclusivamente, a colônia italiana de São Paulo. A idéia de se fundar o clube dos italianos em Belo Horizonte foi liderada pelo grupo que mantinha constante aquelas reuniões na fábrica de calçados: Nulo Savini, Júlio Lazzarotti, Domingos Spagnulo, Amleto Magnavacca, Sílvio Pirani, Arduino Pirani, Henriqueto Pirani e João Ranieri – o dono da fábrica.

Eles preparam tudo e marcaram um encontro da colônia para o dia 20 de dezembro de 1920, na sede da Società Italiana Dante Alighieri – no prédio onde já foi a Assembléia Legislativa e, atualmente, á a Câmara Municipal. Compareceram 92 pessoas, que discutiram todos os detalhes e marcaram nova reunião para o dia 2 de janeiro de 1921.

Palestra nos anos 30: o primeiro à direita é Orlando Fantôni, o quarto é Niginho

No dia 2 de janeiro decidiram todos os detalhes importantes para a criação do novo clube e, finalmente, estava fundada a Società Sportiva Palestra Italia, com a seguinte diretoria: Aurelio Noce, presidente; Giuseppe Perona, vice-presidente; Bruno Piancastelli, secretário; Aristótelis Lodi, tesoureiro; João Ranieri, Domingos Spagnulo e Antônio Pace, comissão de esportes. Foi tomada uma decisão que muito limitou o crescimento e simpatia do clube: somente eram aceitos no quadro social ou esportivo os italianos natos ou seus descendentes diretos.

Definitivamente extinto, o Yale cedeu todos os seus atletas – italianos, claro – ao Palestra. Outros jogadores da mesma origem que jogavam no Atlético Mineiro, Guarani, Ipanema e América transferiram-se para o Barro Preto: estava, assim, formado o quadro de futebol do Palestra Itália. Restava tratar da sua filiação à Liga Mineira de Desportos Terrestres (LMDT). Na época já havia a primeira e a segunda divisão. Os clubes menores, que viviam sem estrutura formada, pertenciam à segunda. O Palestra queria entrar, de cara, para a primeira divisão.

Por imposição da LMDT, o novo clube teve de submeter-se a um exame de admissão: enfrentar o último colocado da primeira divisão e o campeão da segunda. Se perdesse uma partida seria reprovado. Primeiro, o Palestra enfrentou o mais forte, o Ipanema, último classificado da primeira divisão. Venceu brilhantemente por 2 a 1. Depois, provocou delírio entre os italianos ao derrotar o Palmeiras, campeão da segunda, por 3 a 2.

Niginho, (aqui, ao lado de Domingos da Guia) era de driblar toda a defesa contrária

Nulo, Henriqueto e Polenta; Grande, Galo e Quinino; Pederzolli, Parisi, Nani, Atílio e Armandinho. Com este time o Palestra iniciou sua campanha oficial na LMDT, derrotando o Atlético Mineiro por 2 a 0 e o Morro Velho – time dos ingleses da mina de ouro de Nova Lima – por 2 a 0. Depois perdeu para o Morro Velho, em Belo Horizonte, por 2 a 1 e 1 a 0. Logo após, o governo estadual desapropriou o terreno herdado do Yale e o Palestra comprou o quarteirão ao lado, que pertencia à Prefeitura, por 50 mil réis, para construir o seu estádio. Teve de indenizar com 12 mil réis um plantador de couve que cultivava uma imensa hosrta no local. Construído o campo, o Palestra convidou para um jogo o Flamengo, do Rio, com quem empatou em 3 a 3. Na preliminar o América derrotou o Atlético por 2 a 0, jogando com time reserva.

Em 1926, a diretoria resolveu suspender a antipática cláusula estatuária que só permitia a filiação ao Palestra de sócios ou atletas italianos. O clube tomou, então, um grande impulso. Resultado: foi tricampeão da LMDT, revelando um dos maiores craques de Minas em todos os tempos – Niginho, o grande ídolo que logo seria levado para o Lázio, da Itália. O nome do clube deixou de ser escrito em italiano. Passou a ser Sociedade Esportiva Palestra Itália. Entretanto, o início da Guerra Mundial forçou, em 1941, nova modificação no nome do Palestra, que passou a ser Mineiro.

No ano seguinte, o Brasil cortou relações que mantinha com os países do eixo – Alemanha, Itália e Japão. Por determinação do governo federal, o Palestra trocou seu nome novamente.

Sem consultar o Conselho, arbitrariamente, o presidente Enes Ciro Poni decidiu rebatizar o clube com o nome Ypiranga. A idéia foi rejeitada e, semanas depois, em Assembléia Geral, decidiu-se que o clube passaria a se chamar Cruzeiro Esporte Clube.

Daí para a frente,, fortificou-se um novo clube em Belo Horizonte. Não era mais, simplesmente, o clube dos italianos. Era uma sociedade eclética, que logo implantou os esportes amadores e foi construindo o patrimônio do clube. As cores novas – azul e branco (o vermelho e o verde foram eliminados) – já eram vistas em bandeiras e flâmulas que se espalhavam pelo Barro Preto, um bairro que crescia e adotava o Cruzeiro como seu símbolo.

Em 1945 foi novamente tricampeão de futebol, enquanto que, nos outros esportes, o Cruzeiro brilhava. Foi se formando a tradição até que, com o terceiro tricampeonato, levantado em 1960, o clube entrou definitivamente para a fantástica história do esporte brasileiro. Um novo e dinâmico torcedor, que soltava rojões e agitava bandeira em treinos, foi eleito presidente: o italiano Felício Brandi. A partir do dia da sua posse, Brandi começou a reconstruir o Cruzeiro com o seu espírito corajoso. Primeiro, um frande time de futebol. Depois, o resto. E assim fez.

O grande time (Raul, Pedro Paulo, William, Procópio e Neco; Piazza e Dirceu Lopes; Natal, Evaldo, Tostão e Hilton Oliveira) começou ganhando a Taça Brasil de 1966 e, aí, o clube já era dono de um invejável patrimônio. […]

 

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2 respostas em “90 anos: E nasceu o Cruzeiro forte

  1. Orgulhemo-nos do nosso atual e eterno Cruzeiro E.C., o único clube de Minas Gerais a trazer glórias e conquistas de real valor para o futebol do Estado. Que a mídia facciosa e despeitada de BH não lhes dê o devido reconhecimento, isso é sobejamente conhecido. Mas nós, cruzeirenses, e todos os que não se deixam dominar por uma paixão cega e obtusa, temos plena consciência do abismo que separa o nosso clube do seu rival de dimensão apenas doméstica, embora queridinho dessa nossa insignificante imprensa esportiva. Dito isso, não nos esqueçamos, e sempre nos orgulhemos, das nossas origens, que representam o surgimento do verdadeiro clube do povo de MG. Sim, porque fundado — em vez de abastados filhos da elite política e financeira da jovem capital — por membros da laboriosa colônia de imigrantes, trabalhadores e pequenos comerciantes, que para cá vieram com a missão de construir a nova capital do Estado. Gente que, logo, abriu suas portas para os demais segmentos da população trabalhadora da cidade, num ato pioneiro que transformaria o clube, 90 anos depois, no mais querido e de maior torcida em todos os rincões do Estado. Salve o Palestra e salve o Cruzeiro Esporte Clube!

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