90 anos: As primeiras estrelas do manto celeste


Vamos falar aqui sobre excelentes figuras. Quatro homens que souberam honrar a camisa que vestiram. Um deles vestiu a camisa tricolor (branco, vermelho e verde) do ex-Palestra Itália de Minas Gerais: era Niginho, que jogou durante cinco anos pelo Lázio de Roma e, na sua volta para o Brasil, ajudou seu clube do coração a ser campeão pela última vez com o velho uniforme e o velho nome. Outros três honraram a camisa azul: Abelardo, Tostão e Dirceu.

Leonídio Fantôni não era um nome conhecido em Belo Horizonte. Mas Niginho… Niginho era um gênio e todos os torcedores na sua época tinham uma jogada dele para contar. Leonídio Fantôni, o Niginho, membro de uma família onde quase todos os homens viveram e vivem pelo futebol (Ninão, Nininho, Orlando, Fernando, Benito, etc.), começou jogando no Palestra, a convite do seu irmão Ninão, foi para o Lázio, da Itália, em 1930. Ficou lá até 1935.

Durante sua permanência na Itália, Niginho foi um ídolo em Roma, talvez mais do que era em Belo Horizonte, que deixou com 20 anos apenas. Identificava-se com o povo de seu país, mas não aceitou o chamado de Mussolini para a guerra na Abissínia. Lutou contra a exigência do ditador e, quando o primo Nininho morreu – em conseqüência de uma grave contusão sofrida no jogo Lázio x Torino – resolveu deixar a Itália.

Segundo o cronista e escritor Plínio Barreto em seu livro “Futebol no Embalo da Nostalgia”, Niginho provocou verdadeiro delírio entre os torcedores pela sua volta ao Palestra. Desde que foi para a Itália, ninguém deixou de acompanhar sua carreira e torcia pela sua volta. Quando novamente vestiu a camisa verde e vermelha do Palestra, o Clube começou a reerguer-se, pois, desde que Niginho viajara para a Itália, não foi possível ganhar mais nenhum título. Em 40, novamente, o Palestra foi campeão – último antes da troca de nome.

Niginho era um jogador de invejável categoria, centro-avante artilheiro, tipo oportunista, que não deixava o goleiro picar a bola no chão sem tentar mandá-la para as redes. Segundo Plínio Barreto, Niginho decidiu uma partida entre Mineiros e Cariocas, em Álvaro Chaves, no Rio, assim: “Estava 3 a 3 e ele pegou uma bola na sua intermediária e saiu driblando. Passou por um, veio o segundo, o terceiro, foi embalando, chegou na área, passou por outro, deixou o goleiro caído e só parou quando esbarrou nas redes”. Assim era Niginho, o “Menino Metralha”.

Quando o rapaz Abelardo Dutra Meirelles entrava em campo, parecia que ia para alguma festa. Chuteiras engraxadinhas, cadarço com pontas aparadas, calção com vinco, bem passado, camisa sem dobras e o cabelo amparado na mais fina brilhantina. “Olha, a camisa dele é mais azul”, diziam as meninas, que o adoravam.

Abelardo não era só elegante e boa pinta. Na sua primeira partida pelo Cruzeiro, em 1947, ganhou o amor de sua torcida com o novo estilo de jogar futebol, uma nova maneira de marcar gols: de estilo, de placa, bonitos e frios. Abelardo era veloz, franzino e hábil. Sua colocação em campo era perfeita, ele sabia exatamente onde a bola ia cair. E, se ele subisse para uma cabeçada, quase sempre era gol. Era o “Flecha Azul”.

Dizem que, de tanto ler notícias sobre Heleno de Freitas, acompanhar pelos jornais e revistas da época a vida do grande ídolo botafoguense, Abelardo acabou assimilando seu estilo de jogar. É lógico que era uma simples coincidência, mas quem sofria com isso era o Atlético, pois Abelardo melhorava sempre.

Certa vez, após um clássico entre os dois rivais, no Estádio Antônio Carlos (campo do Atlético), Abelardo teve de ser escondido pelos próprios jogadores atleticanos, em seu vestiário, para evitar que a torcida linchasse à saída do estádio. Abelardo havia decidido mais um Atlético x Cruzeiro. Sua fama já ia longe. Seu conselheiro e técnico foi Niginho – que só parou de jogar quando Niginho apareceu e mostrou que a camisa de Niginho tinha um herdeiro competente.

Apesar de craque, Abelardo tinha um gênio difícil e as coisas que não agradavam ele não fazia. Se discordava de alguma coisa, era briga. Quando o Cruzeiro vendeu seu passe ao Palmeiras, em 1950, por 150 contos, ele logo conquistou o Parque Antarctica, mas brigou em seguida. Foi emprestado para o Santos, mas isso acabou favorecendo sua decisão de voltar a Belo Horizonte e ao Cruzeiro. Encerrou sua carreira em 1959, como campeão mineiro.

Eduardo Gonçalves Andrade era tão pequenininho quando começou a jogar futebol entre gente grande, a marcar gols e fazer jogadas incríveis, que logo ganhou o apelido de “Tostão”. Fora de casa, ninguém mais o chamava de Eduardo. “Olha lá o ‘Tostão’ com a bola. Veja o que ele vai fazer…”. Onde quer que aparecesse o menino chamava a atenção. Crescendo, foi levado para jogar futebol de salão no Cruzeiro, de onde foi para o juvenil do América.

Em 1963, ao projetar para o Cruzeiro um grande time, compatível com o novo estádio que estava sendo construído em Belo Horizonte – o Mineirão –, o presidente Felício Brandi usou toda a sua sabedoria de dirigente para levar Tostão para o Cruzeiro. Conseguiu e o entregou ao técnico Mário Celso de Abreu. Logo, logo, Tostão tornou-se titular. E começou a surgir um dos maiores jogadores do futebol brasileiro em todos os tempos.

Amadurecendo, Tostão foi conquistando seu público, deixando os adversários admirados, levando o Cruzeiro a históricas vitórias. Na inauguração do Mineirão, ele já era o comandante da equipe que conquistou o novo estádio e que exportou a fama de um novo estádio e que exportou a fama de um novo futebol que estava nascendo, o de Minas. Tornou-se o primeiro jogador de clube mineiro a disputar uma Copa do Mundo pela Seleção Brasileira – em 66, na Inglaterra. Depois, nunca mais deixou de ser convocado. A partir de 68, foi titular absoluto, ao lado de Pelé.

Formou com Dirceu Lopes uma das maiores alas de atacantes do futebol brasileiro, atraindo milionárias propostas de mais de dez clubes do país e do exterior. Sério, calado, inteligente, interessado pela cultura científica, preocupado com a sua formação intelectual, caseiro, amante da vida em família, Tostão não chegou a ser popular como Dirceu, mas conquistou todos os torcedores do futebol brasileiro com seus gols sensacionais – pelo Cruzeiro e pela Seleção – e seu talento genial de um dos mais completos craques do futebol brasileiro.

Viveu um intenso drama em 1969, quando a retina de seu olho esquerdo descolou-se e ele teve de ser operado nos Estados Unidos. Muitos – inclusive o novo técnico da seleção, Zagalo, e o médico Lídio Toledo – não acreditavam na sua recuperação para o futebol. O tratamento foi eficiente e, um ano depois, comandou o ataque do Brasil que conquistou o tricampeonato mundial no México.

Em 1972, quando Iustrich foi contratado para técnico, começou o desligamento de Tostão no Cruzeiro. Afinal, ao encerrar-se uma discussão de quase 30 dias seguidos, o presidente Felício Brandi concordou em vender seu passe ao Vasco da Gama pelo preço recorde (até aquela época) de Cr$ 2,5 milhões. Um ano mais tarde, ao ser novamente examinado nos Estados Unidos, descobriu-se que sua retina estava fragilmente adaptada e a continuidade da sua função como jogador poderia precipitar sua deformação, com risco para sua vista.

Aos 27 anos, ao lado de sua mulher em Houston, no Texas, Tostão decidiu parar de jogar futebol. Frustrando os vascaínos, encerrando uma das carreiras que mais alegrias deu à torcida cruzeirense. Em 1979 ele se formou em medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais.

Depois de tantos anos sem ter um verdadeiro ídolo, sem ver o time chegar a gloriosas conquistas, finalmente surgiu o suvessor de Abelardo “Flecha Azul” no Barro Preto. Dirceu Lopes Mendes, de Pedro Leopoldo, que gostava de brincar com a garotada, que não sabia dizer um “não”, que nunca deixava de sorrir ou de dar uma resposta elegante. Um comportamento tão elevado quanto o futebol que, nos gramados da cidade, ele começou a exibir em 1964, recém-saído do time juvenil campeão.

Dirceu Lopes transformou-se logo no grande ídolo cruzeirense. Um gênio, ainda que chegasse a dividir com outros jogadores as glórias de um talentoso e genial futebol, ele alcançou uma posição que só Niginho e Abelardo atingiram: a identificação com o povo. Ainda que fosse um pouco tímido, sempre teve a coragem de enfrentar as situações impróprias, de atender a todos, de viver abertamente. Consciente de suas obrigações profissionais, nunca teve de ouvir críticas ou broncas. Foi o modelo ideal do jogador.

Formou com Tostão e Piazza o trio mais eficiente que o Cruzeiro já teve no meio-campo, em todos os tempos. Sua visão de gol, sua rapidez e os dribles curtos e surpreendentes deram centenas de vitórias e vários títulos para o Cruzeiro. No time profissional, foi nove vezes campeão mineiro, campeão da Taça Brasil e campeão da Taça Libertadores da América. De 1967 a 1973 fez parte da Seleção Brasileira, convocado todas as vezes que se armava a equipe. Dispensado na véspera da Copa de 1970, deixou de realizar seu grande sonho: ir a um Mundial.

Titular absoluto de todas as seleções mineiras, eleito 12 vezes o melhor meia-armador de Minas Gerais, três vezes escolhido como o melhor da posição no campeonato brasileiro (“Bola de Prata” da Placar), Dirceu Lopes teve de construir uma vitrine na sala de sua casa para que coubessem todos os troféus de sua carreira.

Em 1975 sofreu uma grave contusão no calcanhar, rompendo o tendão de Aquiles, que obrigou Dirceu Lopes a parar por mais de 13 meses. Voltou, aos 30 anos, jogou mais um ano e, ao reformar seu contrato, ganhou passe livre. Jogou ainda no Fluminense e no Uberlândia, encerrando em outubro de 1978 a sua brilhante carreira para dedicar-se exclusivamente a sua família e a sua fábrica de camisas em Pedro Leopoldo.

Time campeão da Libertadores da América de 1976

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2 respostas em “90 anos: As primeiras estrelas do manto celeste

  1. Sensacionais as histórias dos ídolos passados e eternos!
    E não é que lendo a história do “Flecha Azul” achei que tava lendo sobre o Kléber? hahahaha
    Claro, guardadas todas as proporções!
    Goleador, gênio difícil, brigão, galã, Cruzeiro, Palmeiras, Cruzeiro…hahahahaha
    É, naquele tempo já tinha jogador polêmico!
    Muito legal!

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