Torcida x Torcer – Os últimos 10 anos da torcida do Cruzeiro.

Esse ano muito tem me assustado o comportamento da torcida celeste. Temos mais sócios do que nunca, é verdade… mas está incrivelmente chato ser torcedor de arquibancada.

Vamos à análise cronológica dos fatos dos últimos 10 anos:

Cruzeiro x Santos de 2003 - R$ 5,00 para estudantes.

Cruzeiro x Santos de 2003 – R$ 5,00 para estudantes.

2003 – Vivendo em um mundo real: Por um time incrivelmente bom, ficamos acomodados com títulos e mais exigentes do que já éramos. Todos os anos posteriores já exigiam uma nova tríplice coroa como se fosse a coisa mais fácil do mundo. 2003 já faz 10 anos. Não ganhamos mais nada de importante, mas vivemos como grandes campeões. Tá, nossa história deixa. Mas sim, vivemos num salto alto como se fosse fácil conquistar isso todo ano e depois vem a reclamação do “por que esse time não deu certo?” e começa a ladainha.

2004Torcida2004 – Surge a geração Orkut: Debates acalorados e campanhas se formavam na rede social. Pouco mais tarde aparecia em peso os “cornetas”.

Cruzeiro x Fluminense de 2006 - Já apagou atrás, mas pelo pouco que se vê, foi R$ 5,00 para estudantes a arquibancada superior.

Cruzeiro x Fluminense de 2006 – Já apagou atrás, mas pelo pouco que se vê, foi R$ 5,00 para estudantes a arquibancada superior.

2006 – A teoria do apoio incondicional surge: Dia 26/04/2006 foi marcante pra torcida. Cruzeiro x Fluminense pela Copa do Brasil. Cruzeiro já vinha há anos como freguês do Fluminense e começou perdendo aquele jogo. E então surge a música “Vamos, Vamos Cruzeiro” e o Mineirão inteiro canta sem parar, inclusive no intervalo, aquela música que encantou a todos. Só quem estava lá – fui uma das sortudas – sabe da tamanha emoção. O time perdeu no final, mas a torcida saiu mais cheia de si do que nunca. E com certa razão… foi realmente sensacional. Daí veio o crescimento da TFC.

Cruzeiro x Corinthians de 2007 - R$ 7,50 Estudante - Portão 6

Cruzeiro x Corinthians de 2007 – R$ 7,50 Estudante – Portão 6

2007 – A divisão de “ideologia da torcida”: O ano começou com a proibição da cerveja já pro Campeonato Mineiro…

No jogo Cruzeiro x Corinthians dia 20/05/2007, o Cruzeiro perdia por 1×0 quando foi pro intervalo e uma parte da torcida vaiava, e outra impedia de vaiar. E então no intervalo aconteceu a coisa mais bizarra que já presenciei na minha vida: uns caras da Máfia Azul foram até a TFC para pegar os instrumentos deles. Sabe por quê? Porque “eles cantavam algo diferente da máfia azul e o pessoal, ao invés de acompanhar a CMA, apoiava a TFC”.  Sim, entre aspas porque essas palavras não são minhas, mas da discussão que ouvi. Eu ESTAVA lá e eles discutiram exatamente atrás de onde eu me sentei, até cuspe voou em mim da “conversa” dos dois. Ouvi a “conversa” todinha, todinha entre a Máfia e a TFC. Eu, meu pai, meu irmão, meu amigo… todos estão de prova da bizarrice que foi aquilo.

Desde então, a torcida se dividiu: a Máfia e sua teoria de “tudo” pelo Cruzeiro e a TFC com seu apoio incondicional. Ideologias extremas que fizeram com que muitos da torcida DESRESPEITASSEM os outros por não pensarem da mesma maneira que eles, tanto a Máfia quanto a TFC, sim senhores! Optei pela terceira alternativa: ser torcedora da 7A.

Se eu quiser xingar, eu xingo. Se quiser aplaudir, aplaudo. Se quiser ir, eu vou. Se quiser pagar, eu pago. Se quiser cantar, eu canto. Se quiser sentar, eu sento. Se não quiser, também faço nada.

Mas continuando a cronologia:

Cruzeiro x Boca Juniors 2008 - R$ 12,50 meia entrada portão 7A.

Cruzeiro x Boca Juniors 2008 – R$ 12,50 meia entrada portão 7A.

2008 – Cruzeiro volta a Libertadores: Eis que surge a Libertadores e uma hiperinflação nos preços do ingresso e a correria atrás deles. O publico no Mineirão mudava… aparecia gente com melhor poder aquisitivo (rica mesmo) e que ia por curiosidade de ver o Boca jogar. Até os torcedores do time rival. Verdade e carência deles. Também em 2008 começou a “era AB” dividindo a torcida em “anti-AB” x “mestre AB”.

Cruzeiro x São Paulo pela LA de 2009 - Não consegui ingresso nos outros setores... esse foi o valor pago pela cadeira especial R$ 70,00.

Cruzeiro x São Paulo pela LA de 2009 – Não consegui ingresso nos outros setores… esse foi o valor pago pela cadeira especial R$ 70,00.

2009 – Aiai…: Ápice do sócio do futebol (e muitos caloteiros)… Cruzeiro perde muitos sócios e muitos torcedores ficaram “desiludidos” (Já mandei estes catarem coquinho?) e somem. A torcida não era mais a mesma…

Cruzeiro x Goiás em 2010 - 1º Jogo na Arena do Jacaré - R$ 40,00 inteira.

Cruzeiro x Goiás em 2010 – 1º Jogo na Arena do Jacaré – R$ 40,00 inteira.

2010 – Fecha o Mineirão e abre o Twitter: Mudamos pra lonjura de Sete Lagoas, estádio acanhado pra 18 mil pessoas. Ia quem era guerreiro e mesmo assim fomos vice-campeões brasileiros.

2011 – Odeio este ano: mais uma desilusão e quase um desastre.

2012 – Volta pra Belo Horizonte: De volta pra BH, vamos ao Independência. Leve aumento do preço dos ingressos, mas casa quase sempre cheia e torcida empolgada. Dos 19 jogos que faríamos em casa, abaixa pra 13 pela suspensão em 6 jogos. Jogo contra o Santos (péssimo e que felizmente não fui) foi outro motivo da birrinha: torcida que aplaudiu Neymar x torcida que não aplaudiu Neymar. Sem contar no Marcelo Moreno… E os dois jogos saímos derrotados.

Sócio2013 – Volta do Mineirão: O Cruzeiro começa o ano com a reformulação no seu programa de sócio do futebol. Aumenta exageradamente os preços do ingresso em relação ao Independência pela fidelização da torcida.

Concluindo: O Mineirão voltou diferente… Tropeiro diferente, cadeiras numeradas, campo reduzido, estacionamento alterado, preço exagerado e o tal de assistir jogo sentado… Verdade que se ganhou em qualidade e em segurança, mas acabou excluindo muitos outros torcedores que nada tinham com isso. Muitas organizadas sumiram e vivem protestando, esquecendo até de torcer ou indo contra o próprio patrimônio. O torcedor mudou e a estrutura do futebol também. Mas compramos o ingresso sabendo dessas alterações. Claro que podemos lutar por uma melhora nas condições para o torcedor, mas se vamos a um jogo, não podemos esquecer de SER TORCEDOR, mesmo que tenha apenas 5 mil em campo.

Mas odeio cartilhas do “verdadeiro ou falso” torcedor.

Nós mudamos, o futebol mudou, mas o significado de “torcer” não pode mudar. Ainda podemos falar palavrões, chorar de alegria (ou tristeza), abraçar o outro na hora do gol, fazer música em homenagem à mãe do juiz, fazer “uhhhhh” em lances perigosos, levantar pra ver uma jogada melhor, apoiar e dar “puxões de orelha”… E se você se incomoda tanto com as regras novas vai deixar de torcer por causa disso? Eu pulo, xingo, grito, canto… Mesmo que ninguém ao meu lado faça o mesmo ou faça diferente. Será que por estar sentada, não podemos cantar? Perdemos a força pra pular na hora do gol? Só porque o camarada teve que sentar longe, não tem como torcer pelo time em campo? Vou ao campo pra ver o Cruzeiro. Se uma música acaba por ninguém acompanhar, daqui a pouco começa outra que pode dar certo. Já o jogo, não tem como reiniciar.

Eu quero que tenha torcida no campo, não avaliadores de comportamento alheio ou do tropeiro que comemos ou do lugar que sentamos. Não quero “antis” ou os “a favor”, quero torcedor.

Nota*: Para efeitos de comparação, o salário mínimo em 2003 era R$ 240,00 quando o menor valor do ingresso era R$ 5,00, em 2013 estamos com o valor de R$ 678,00 do salário mínimo e com o menor valor sendo R$ 30,00 do ingresso, 6x maior. E tudo aqui é o meu ponto de vista. =D

Luciana Bois

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6 respostas em “Torcida x Torcer – Os últimos 10 anos da torcida do Cruzeiro.

  1. Muito bom! Concordo com vc que o ethos do torcedor cruzeirense mudou muito. importante não aceitar qualquer coisa, mas discernimento e postura são necessárias antes de ficar apenas criticando.

  2. Sensacional, belissímo texto, com uma cronologia perfeita e uma narrativa coerente dos fatos. A verdade é que a torcida precisa se encontrar, enquanto outras pelo Brasil se dedicam intensamente ao clube, deixando pra tráz ideologias de facções, pelos lados azuis das Gerais não temos ainda uma identidade.

    A TFC, do outro lado do campo, perdeu sua força e essência e a Mafia Azul anda mais vazia do que nunca. Se queremos um time forte, precisamos jogar juntos, a torcida precisa se encontrar e definir seus rumos e para isso a diretoria precisa ajudar.

    Somos um time formado por operários italianos que ergueram a capital mineira e que pra cá também trouxeram as indústrias. A nossa história se originou num bairro que era marginalizado pela elite belorizontina e onde foi formada a primeira favela da capital. O Cruzeiro é um time que vem e que possui a maior parte de sua torcida das camadas menos favorecidas.

    É portanto, necessário que a diretoria se atente a esses fatos históricos e “devolva” o time a sua torcida. Sócio é lindo pra quem tem planejamento e condições para pagar e o problema não é tão simples assim. Ingresso barato é inclusão social, é valorização de quem construiu e quem constrói a história desse clube.

  3. Tomei coragem pra enfrentar o teclado hoje. Vamos lá!

    Falto relembrar a final da Copa do Brasil, em 2000. Se bem que você era muito nova, eu então… Mas vejamos. Como citado no texto, essa mudança radical da forma de torcer do cruzeirense mudou depois de 2003. A torcida estava entorpecida com aquele time, aquele encanto, aquele futebol de outro planeta. Não só nós torcedores cruzeirenses, o país todo ficou de queixo caído. Só que mais surpreendente que o time de 2003 foi o time 2004. Foi um time no mínimo desprezível; a badalação, o status de melhor time do Brasil, a euforia por causa do favoritismo naquela Libertadores, a contratação do Rivaldo, a manutenção de Alex até o fim do primeiro semestre, tudo isso foi transformando o entusiasmo em indignação. Um time apático e sem rumo no campeonato rural, os jogadores não tinham perna, não tinham gás, não tinha vontade, estavam numa ressaca visível e decepcionante. Tudo culminou no que todos já sabem e começava a partir de então um dos capítulos mais amargos da história do Cruzeiro: O time tentava esquecer aquela ressaca de 2004 com uma reformulação quase que total do time, mantendo praticamente apenas a diretoria; essa reformulação, no entanto, esbarrou no belo futebol do Ipatinga em 2005, decepcionando novamente a torcida. Poucos sabem, mas aquele vice campeonato e a falta de outros títulos no restante da temporada resultaram no fim de uma série de 15 anos consecutivos sendo campeão ao menos UMA VEZ por ano. Se conquistássemos aquele rural de 2005, em 2006 com mais um título igualaríamos a marca mundial do Real Madrid, 17 anos seguidos sendo campeão.
    Muitos em 2005 comemoraram a queda do atleticomg pra segunda; mas pra mim, de nada valia o que acontecia com eles, o que me importava é que o Cruzeiro perdia uma grande oportunidade de ser reconhecido mundialmente como UM GRANDE CAMPEÃO, mesmo sem teer ganhado um campeonato mundial sequer. Aquilo doeu demais.
    Imagino que tudo isso tenha feito com que a torcida do Cruzeiro, outrora considerada a mais educada do Brasil, torcida exemplar que orgulhava a muitos, se tornasse uma torcida comum – em função da descrença de alguns torcedores de grife. A partir daí a torcida começa a ficar dividida. INFELIZMENTE!
    O resto a Luciana já descreveu muito bem no seu texto.

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