Digamos que eu seja verde

Passei o dia de ontem um pouco reclusa. Me abalou bastante o que aconteceu com o Tinga.. Nem lembro mais do jogo, dos gols e fui dormir tarde porque eu só soube chorar.

Não importa a minha cor pra escrever essa coluna. Imaginemos que minha cor seja verde, não me importo. O que não tira meu direito de me sentir abalada.

A educação que meus pais me deram não permite que eu fale nem “filha da puta” no trânsito, (apesar que é inevitável – mas nunca a ponto do cara ouvir). Desde pequena aprendi o que era respeito. Pode ser homossexual, homem, menino, mulher, idoso, azul, amarelo, japonês… todo mundo nasce sem dente e vira pó no final. Assim aprendi.

“Quando acabou o jogo, meu filho começou a chorar muito e hoje (quinta) já não quis ir à escola. Eu estou preparado porque minha vida foi de provações desde o início, mas minha família não está”

Tinga

Ver um estádio inteiro cantando daquela forma foi assustador. Como tanta gente não pensou no que aquilo representava? No filho daquele homem que via seu pai ser humilhado por ter nascido negro? Em tantas outras pessoas que se sentia na pele e era rebaixado por aquele canto?

E a mãe que enterrou seu filho porque ele decidiu gostar de meninos? O pai que carregou o caixão do seu filho que vestia a camisa do adversário?

Não é xingar de “seu merda”, não é chamar de “filho da puta”. Isso é ridículo também e falta de respeito, mas discutimos aqui como é definir uma pessoa a partir da sua aparência ou da sua opção como condicional da sua racionalidade.

Não digo que orgulho de ter tipo A ou tipo B na minha família, mas orgulho por ter a minha família, seja ela gay, atleticana, corintiana, cruzeirense, verde ou vermelha, já que acima de tudo é minha família.

Não foi apenas a torcida peruano que foi racista, não foi somente a torcida do Cruzeiro que chamou alguém de “bicha”. Nem precisa chegar na esquina pra perceber onde mais se vê “marias, frangas, bambis, viados e pretos”.

A repercussão não é exagerada perto das outras que acontecem todos os dias, a repercussão das outras que também deveria assustar tanto quanto essa.

Não quero pedir respeito a nenhum humano porque é assim ou assado, mas desejo e espero respeito apenas por ser humano em qualquer meio que seja.

“A vida vai continuar. Já aconteceu isso outras vezes, talvez não tenha tido a mesma repercussão. Acho que talvez chegou o momento de aproveitar que todos se manifestaram, de todas as classes, de todas as áreas, e tentar fazer uma melhoria nem que seja cada um dentro de sua casa, dentro do seu convívio”

“E não esperar ninguém. É cada um mudar dentro da sua casa, do seu convívio, dentro da educação de quem tem filho, irmão, parente. Se a gente começar a se educar em casa, consequentemente a gente vai estar educado fora”

Tinga

Que não apenas Deus te ouça, querido Tinga.

Luciana Bois

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