Obrigada, #Cruzeiro91anos

É um amor que não tem como descrever, é uma paixão que só entende quem sente, é a felicidade de um instante que faz abrir um sorriso pelo resto do dia.

Lembra daquele jogo? Daquele gol? Eu lembro. É aquele, que a lembrança não é apenas uma imagem, mas um sentimento.

Sabe aquele grito que eu dei durante o gol naquele jogo? É o que tenho vontade de gritar quando me lembro daquele segundo de lance. Não se diz respeito apenas a uma história de uma instituição que você aprende a respeitar, mas sobre a história daquele sentimento que ele um dia nos deu.

A maioria dos cruzeirenses já decorou a ladainha dos nossos títulos das “duas Libertadores, quatro Copas do Brasil, dois Brasileiros, duas Supercopas”, mas não é somente para demonstrar a nossa grandiosidade comparado à tantos outros por ai, mas por orgulho pelo que esses números nos proporcionou de alegria.

Mas a paixão é inexplicável. É daquela que faz você acreditar até no último segundo, aquela que mesmo num dia nublado não tem vergonha de sair de azul e branco pra contrariar o céu e saber que sobre uma tempestade ainda há um firmamento azul, aquela paixão que transforma simples torcedores em guerreiros debaixo de sol, de chuva, pegando estrada e indo contra matemáticos.

Eu, com a camisa celeste, me sinto a pessoa mais poderosa e respeitada do mundo, pronta pra enfrentar muitas batalhas, que mesmo algumas perdidas, não esquece que tudo é sempre uma guerra. Ser cruzeirense vai além do céu, além do coração, não apenas de alma, vai de um algo inexplicável que nem a ciência humana consegue explicar. Não é a minha vida, essa depende de muitos fatores mundanos, mas vai além dela.

Amigos, namorados, colegas, trabalhos vão, vem, conhecemos e reconhecemos. Mas clube do coração não. Falam que “é só um time”, “é só um clube”, “eles ganham pra isso e você torcendo/sofrendo ai a toa”, mas vai dizer isso pra um coração?! A razão até pode entender, mas o coração não entende porque não é questão de entender, mas de sentir.

Meu amor não pode ser descrito por palavras porque não consigo organizar um sentimento em meio a letras. Mas sei que é algo que me traz a certeza que nunca te abandonarei, por mais que apareçam pernas-de-pau, ladrões, placares desfavoráveis, uma parte de uma torcida imbecil que é capaz de brigar entre eles ou até desistir fácil demais. Eu nunca te abandonarei.

Amo-te muito Cruzeiro e agradeço por cada segundo de felicidade que me presenteou. Parabéns pelos 91 anos. Cruzeiro Sempre!

Complexos

Já que tem muito tempo que nem atualizo o Squadra Azzurra, quis passar por aqui pra deixar uma nota sobre um livro que estou lendo do Marcos Guterman (ed. Contexto), chamado “O futebol explica o Brasil”.

Como diz o título, o esporte explica sim o país e nos apresenta a profissionalização e o amor que existe no esporte. Em vários momentos enquadrei diversas situações do Cruzeiro na trajetória da Seleção Brasileira enquanto lia e gostaria de compartilhar um pouco sobre o “complexo de vira-latas” e algo que nunca podemos desprezar a esperança, ainda que seja um pouco iludida.

Após o Maracanazzo em 1950, o brasileiro ficou receoso com o futebol de sua Seleção. Na Copa seguinte de 54, havia resquícios e medo do que havia acontecido em 50 e acabou sendo vergonhosa a participação da Seleção Brasileira naquele ano, sendo eliminada pela Hungria nas quartas de final

Para 58, o Brasil apostaria em um garoto de 17 anos cujo apelido intrigante era Pelé. Apesar de ser uma trio admirável do garoto com Vavá e Garrincha, a confiança do brasileiro ainda era pouca, já que, como diria José Lins do Rego em 1950 “O brasileiro é um adorador de vitórias, o homem que não admite fracasso”, a população ainda não queria confiar naquela Seleção, receosa de uma nova desilusão.

A crônica a seguir explica de onde vem a expressão “Complexo de Vira-Latas”, escrita por Nelson Rodrigues em 1958

Hoje vou fazer do escrete o meu numeroso personagem da semana. Os jogadores já partiram e o Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética. Nas esquinas, nos botecos, por toda parte, há quem esbraveje: – “O Brasil não vai nem se classificar!”. E, aqui,eu pergunto: – não será esta atitude negativa o disfarce de um otimismo inconfesso e envergonhado?

Eis a verdade, amigos: – desde 50 que o nosso futebol tem pudor de acreditar em si mesmo. A derrota frente aos uruguaios, na última batalha, ainda faz sofrer, na cara e na alma, qualquer brasileiro. Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente nada, pode curar. Dizem que tudo passa, mas eu vos digo: menos a dor-de-cotovelo que nos ficou dos 2 x 1. E custa crer que um escore tão pequeno possa causar uma dor tão grande. O tempo em vão sobre a derrota. Dir-se-ia que foi ontem, e não há oito anos, que, aos berros, Obdulio arrancou, de nós, o título. Eu disse “arrancou” como poderia dizer: – “extraiu” de nós o título como se fosse um dente.

E, hoje, se negamos o escrete de 58, não tenhamos dúvidas: é ainda a frustração de 50 que funciona. Gostaríamos talvez de acreditar na seleção. Mas o que nos trava é o seguinte: o pânico de uma nova e irremediável desilusão. E guardamos, para nós mesmos, qualquer esperança. Só imagino uma coisa: – se o Brasil vence na Suécia, e volta campeão do mundo! Ah, a fé que escondemos, a fé que negamos, rebentaria todas as comportas e 60 milhões de brasileiros iam acabar no hospício.

Mas vejamos: o escrete brasileiro tem, realmente, possibilidades concretas? Eu poderia responder, simplesmente, “não”. Mas eis a verdade: eu acredito no brasileiro, e pior do que isso: sou de um patriotismo inatual e agressivo, digno de um granadeiro bigodudo. Tenho visto jogadores de outros países, inclusive os ex-fabulosos húngaros, que apanharam, aqui, do aspirante-enxertado Flamengo. Pois bem: não vi ninguém que se comparasse aos nossos. Fala-se num Puskas. Eu contra-argumento com um Ademir, um Didi, um Leônidas, um Jair, um Zizinho.

A pura, a santa verdade é a seguinte: qualquer jogador brasileiro, quando se desamarra de suas inibições e se põe em estado de graça, é algo de único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção. Em suma: temos dons em excesso. E só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas qualidades. Quero aludir ao que eu poderia chamar de “complexo de vira-latas”. Estou a imaginar o espanto do leitor: “O que vem a ser isso?”. Eu explico.

Por “complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos “os maiores” é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Porque, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo. Na já citada vergonha de 50, éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a vantagem do empate. Pois bem: – e perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: – porque Obdulio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos.

Eu vos digo: o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender, lá na Suécia. Uma vez que se convença disso, ponham-no para correr em campo e ele precisará de dez para segurar, como o chinês da anedota. Insisto: para o escrete, ser ou não ser vira-latas, eis a questão.”

Acho que a primeira pessoa que tinha que tirar lição disso sou eu. =P

90 anos: Mistura de sentimentos – 2003 por Alex

Continuando a série dos 90 anos do Cruzeiro, e por hoje ser – 02/01/2011 – um dia tão especial, vamos falar da página heróica mais recente que ainda esta na nossa memória e que muitos ainda lembram capítulo a capítulo: o ano de 2003. O time comandado por Luxemburgo conquistou os admiradores do mundo e os maiores títulos nacionais em uma temporada.

Mas aqui será retratado de uma forma diferente… nosso próprio craque e camisa 10 daquela esquadra aceitou nos contar do sentimento de ser campeão – não apenas como jogador, mas se tornando torcedor do Cruzeiro Esporte Clube, mandando também os parabéns por esse aniversário. (Luciana)

Mistura de sentimentos

Quando recebi o terceiro cartão amarelo diante do Paraná Clube em Curitiba, me deu um sentimento profundo de tristeza. Vi naquele lance que não participaria teoricamente da partida decisiva. Tinha absoluta certeza que não passaria da partida do Paysandu, e realmente não passou.

Capa do caderno de Esportes do EM no dia 30/11/2003

Tive uma semana totalmente diferente!!! Fui incumbido pelo Vanderlei de arrumar tudo para festa que foi realizada após a partida no Ouro Minas. Sentava na sala da Dimara Oliveira e começávamos os contatos. Quando ia ao treino só ficava mais conversando, juntamente com o Cris e o Ari para diminuir um pouco a ansiedade do grupo que tinha absoluta certeza do título, mas queria que fosse na próxima partida.

No domingo tive um dia de torcedor, não acordei na concentração, acordei em casa com minha mulher super ansiosa pelo jogo, e com vizinhos doidos para gritar “é campeão”!!!

Sai de casa por volta das 11 horas da manha, passei no hotel, peguei as famílias do mestre Luxemburgo e do meu grande parceiro Aristizabal. Almoçamos no Xapuri, muito próximo a Toca da Raposa. Não era jogador nesse dia, era mais um cruzeirense no meio de milhares.

Tinha um misto de frustração e ansiedade. Frustrado por não poder jogar e ansioso para, como um bom cruzeirense, soltar o grito de campeão.

Chegando na Toca, vi um grupo de jogadores totalmente compenetrados na partida. Desejei boa sorte a eles e me juntei aos familiares que seguiram em um ônibus atrás do ônibus do time.

Abandonei temporariamente o Mineirão e fixei pensamentos no Serra Dourada. Deu certo!!!! O Goiás ganhava fácil no centro-oeste brasileiro.

Quando o Mota fez o segundo gol, desci carregando comigo todos os familiares que encontrava e levei-os comigo para dentro do gramado do Mineirão. Entrando no campo fui abraçar o Luxemburgo e ele me disse “sai daqui, ainda não acabou”, respondi: “ja era mestre, somos campeões”. Olhei para minha esposa e ela me disse, “você merece, o sacrifício por esse título foi enorme, não se segure, comemore”. Quando ela terminou a frase, sai em disparada para o torcedor, estava mais do que misturado meu sentimento.Auremar de Castro / EM

Eu atleta-torcedor, ou torcedor-jogador, não sei ate hoje.

Nasci coxa-branca, com orgulho, não escondo de ninguem.

Tive alegrias enormes no Palmeiras.

Mas nessa tarde, naquela corrida vibrante com o torcedor, nasceu um cruzeirense.

Fui infeliz na primeira passagem, cheguei sob uma desconfiança grande em 2002, mas sempre fui respeitado e o torcedor cruzeirense me deu essa oportunidade de me tornar um pouquinho um deles.

Obrigado ao Luxemburgo pela insistência em me contratar, obrigado a diretoria por aceitar essa insistência do Luxa e muitíssimo obrigado ao torcedor cruzeirense pelo carinho.

Obrigado aquele grupo de trabalho fantástico que tivemos.

Parabéns Cruzeiro por mais um ano de vida.

Um dos grandes clubes do futebol mundial que merece todos os aplausos.

Abraços a todos os cruzeirenses.

Alex

90 anos: Na hora H, valeu a molecagem

Continuando os posts comemorativos pelos 90 anos do Cruzeiro Esporte Clube, venho apresentar-lhes mais uma página heróica imortal, a decisão da Libertadores da América de 1976. Onde o caçula Joãozinho entra pra história devido à malandragem e a boa pontaria.

Mais uma vez, é de um artigo tirado da revista Placar de 1976 e fotos assinadas por Célio Apolinário. Boa leitura!

(Confira aqui os outros posts sobre os 90 anos do Cruzeiro)

Na hora H, valeu a molecagem

Era a decisão da Libertadores contra o temível River Plate. Para vencê-la, o Cruzeiro precisou de categoria, garra e malandragem.

Cruzeir: Raul, Nelinho, Morais, darci Menezes, Vanderlei, Piazza, Zé Carlos, Eduardo, Palhinha, Ronaldo e Joãozinho; River: Landaburu, Comelles, Artico, Lonardi, Urquiza, Sabella, Merlo, Alonso, González, Luque e Más.

Aqui estão eles, em Santiago. Frios, alegres, falantes, preocupados com umas comprinhas. E é um dia muito importante para o Cruzeiro – o da decisão da Taça Libertadores da América. Aqui estão os experientes, os garotos. E o comando de Zezé Moreira. Raul, Piazza, Nelinho, Zé Carlos, Vanderlei, Palhinha, Jairzinho, Joãozinho… Jairzinho está completando seis meses de clube. Sua contratação teve um objetivo: dar a malícia, a maldade até, que faltava ao Cruzeiro para ganhar a Libertadores. E Jair, neste dia importante para o Cruzeiro, está de fora. Expulso no jogo anterior, em Buenos Aires, juntamente com Perfumo, ele cumpre a suspensão automática. Mas não perdeu a confiança.

“Vamos ganhar deles. Vamos ganhar porque somos melhores. E, aqui em Santiago, não precisamos jogar mais que jogamos lá em Buenos Aires.”

Em Belo Horizonte, no primeiro jogo, o Cruzeiro goleou: 4 a 1. No segundo, em Buenos Aires, dois erros, dois erros do juiz deram a vitória ao River: 2 a 1. A decisão, em campo neutro, é no Chile, no Estádio Nacional de Santiago. A torcida tende mais para os brasileiros – é um modo de opor-se à excessiva gritaria, ao excesso de autoconfiança dos quase 10 mil argentinos que invadiram a cidade. Envolveram-se em bandeiras argentinas ou do River, espalham-se pelas ruas, espantam o frio com sucessivos tragos de vinho. E cantam incansáveis:

Ou marcavam Nelinho ou aguentavam a bomba.

“Vamos, vamos, Argentina
Vamos, vamos a ganar
Esta barra quilombera
No te deja,
No te deja de alentar”

Os poucos cruzeirenses que conseguiram chegar a Santiago rodam pelas ruas, metem-se a conhecer a cidade, reconhecíveis apenas pelas roupas coloridas. À noite, vão para o estádio, mas poucos levam bandeiras.

Começa o jogo, descobre-se a ajuda da torcida chilena, os cruzeirenses se multiplicam. Logo, vão sofrer, vão descobrir que Jairzinho faz muita falta ao ataque.

“Não tem nada, não. O Palha vai dar um jeito nesses caras.”

É Jairzinho quem fala, colocado ao alambrado. Em seu rosto, se pode ler cada jogada, cada tentativa, cada drama de Palhinha em sua luta contra um beque de quase dois metros de altura, que o derruba em cada disputa de bola. A solução se começar a deslocar-se para as pontas, na tentativa de abrir espaços para Zé Carlos e Ronaldo, que estão vindo de trás.

O River, com uma defesa nervosa, joga no contra-ataque. Mas encontra um Cruzeiro firme, cada jogador guarda sua posição – bem do jeito que Zezé Moreira quer. Então, vai ser questão de tempo, de espera pela chance. Ela vai aparecer, ninguém tem dúvida.

Joãozinho estava infernal: deixou seu marcador sentado e fez um gol de moleque

Os argentinos vêem mais uma vez que o perigo se chama Joãozinho, que faz o que quer com Comelles, e ainda atrai mais um ou dois marcadores. E a torcida chilena, que há muito não via um ponta tão bom de bola, tão rápido, tão esperto, vai gostando do jogo, está percebendo que, pelo caminho da simpatia, está, ao mesmo tempo, apoiando o melhor time, um time cuja categoria até o River aprendera a respeitar.

Mas é só categoria? Nada disso. Agora- e isso o River ainda não conhecia – está valendo tudo: quando não é na classe, é na raça.

Vai sair o primeiro gol. Um gol que é bem brasileiro, que é bem argentino. Eduardo mostra a Urquiza o que é um rabo-de-vaca – e cruza para Palhinha que espera na marca de pênalti. No puro reflexo, Urquiza corta o cruzamento com a mão, dentro da área.

Pênalti – e entra o estilo portenho. Aos gritos, Merlo e Oscar Más reclamam. Transfiguram-se, fazem o ar da honestidade ofendida, dão peitadas no juiz. Mas não tem nada. Nelinho já vai ajeitando a bola, já corre para ela e manda a sua bomba, no canto direito.

Cruzeiro 1 a 0, aos 24 do primeiro tempo. Agora, se o River for a sério em busca do empate, deixará mais livres o endiabrado Joãozinho, o oportunista Palhinha, o raçudo Ronaldo.

Palhinha é outro jogador. Neste jogo, ele se completa, chega à perfeição. A raça, a presença de sempre – mas uma novidade: a paciência, a espera. Passa por Lonardi, o grandalhão, e é derrubado. O joelho está vermelho das pancadas, o uniforme sujo de tantas quedas. Mas não perde a cabeça, como já aconteceu tantas vezes, em tantas decisões.

Mas não é só Palhinha. É o Cruzeiro inteiro que dá uma lição de como jogar uma decisão.

A alegria de Joãozinho, Raul e todo mundo.

Com 1 a 0 e um ambiente cada vez mais tenso, começa o segundo tempo. Tudo como antes. No meio, o revezamento, as constantes deslocações de Eduardo, as avançadas de Zé Carlos. Na área do River, Palhinha, sozinho, lutando com os gigantes Lonardi e Ártico. E o River desesperado, buscando o empate. E não há dúvida: se os argentinos chegarem a marcar, vai começar o grande festival da catimba.

Seu Zezé, no banco, é a personificação de um contraste: o corpo imóvel, as rugas imobilizando aquela máscara de sofrida paciência, mas os olhos vivos, inquietos. Ele havia dado, menos que uma ordem, um conselho a Ronaldo (“Não se prenda tanto à ponta, tente chegar um pouquinho mais para o meio”). Agora, em silêncio, ele vê que Ronaldo, ele vê que Ronaldo se chega mais a Palhinha – e, aos 10 minutos, avança pela meia-esquerda, tira Comelles da posição e, ao chegar perto da área, marcando por Ártico e combatido pelas costas por Merlo, rola para Eduardo, que se infiltra pela direita.

O chute sai certeiro, forte, de primeira. Landaburu voa para a direita, mas a bola passa longe de seu alcance, fica balançando a rede lá no alto. E o time todo do Cruzeiro se junta num abraço, festejando o desespero argentino.

Parece que o River está liquidado. Mas não. A correria, a gana, a busca do gol não cessa. O Cruzeiro acalmasse, o River vem com raiva. E é com raiva que Luque entra pela área, tentando limpar a barra no peito. À sua frente, Morais – e Luque é derrubado. Pênalti, aos 13 do segundo. O baixinho Oscar Pinino Más, pouco fôlego, bastante classe, notável malícia, coloca a bola, mandando Raul para um canto e chutando em outro. Marca e corre para buscar a bola, com pressa, na gana. Mas é logo substituído. Sai desgostoso, os companheiros dão toda a impressão de abatimento.

Mas essa impressão dura pouco. Lá está, novamente, o ataque do River, forçando, confrontando sua fúria com a calma, que começa a ser enervante, do Cruzeiro. Do lado brasileiro, é fora do campo que as coisas começam a se modificar. Do alambrado, vêm os gritos de Jairzinho:

“Vamos, gente. Pau neles!”

Piazza, Zezé e Palhinha no vestiário

Do banco, vêm os gritos de um Zezé que se transforma, que agora não aconselha, ordena:

“Cuidado com as pontas.”

O Cruzeiro começa a desconfiar do juiz chileno. Alberto Martínez chama a atenção dos brasileiros, com vigor, e não fala nada com os argentinos. A cada falta, se percebe a diferença. E aos 17 ele marca mais uma, na ponta direita, a uns 10 metros da área. Ao mesmo tempo, mostra cartão amarelo a Darci Menezes. E, enquanto faz a anotação em seu caderninho, Comelles cobra forte para a área, a defesa do Cruzeiro está parada, Urquiza, o outro lateral, entra e manda para a rede.

É o empate. De nada adiantam as reclamações de Piazza, de Raul, dos outros – o juiz não havia autorizado a cobrança.

“Cuidado com as pontas.” Seu Zezé, ainda uma vez, tinha razão. E o gol que confirma sua intuição vai ficar como um nó na garganta de todos os brasileiros que estavam no estádio.

No River, desperta a alegria. No Cruzeiro, se adensa o drama. No meio, come a guerra. Briga-se pela bola, o Cruzeiro, esquecido do toque e da classe, sobe, assume a raiva. A bola só vai sobrar para um argentino depois que um argentino ficar caído. Ninguém quer deixar para depois, para a prorrogação. Quem pega a bola, tenta jogar de primeira. A cada apito do juiz, um berro de Zezé – e o Cruzeiro novamente crescendo, novamente dominando.

Nelinho, por duas vezes, tenta – e quase consegue -, de fora da área, surpreender Landaburu. Aos 39, cobra para fora uma falta de Merlo em Ronaldo.

Fim de todos os receios, de todos os motivos de tensão. O jogo acabou e o Cruzeiro é o novo campeão da Libertadores da América. Na distante Santiago do Chile, os jogadores se ajoelham e comemoram a grande conquista.

Mas é aos 42 que virá a sequência de lances capaz de resumir uma partida, de marcar uma diferença, de consagrar um estilo, de fazer da vitória do Cruzeiro uma vitória brasileira.

Batido, sem ninguém na cobertura, Ártico chuta Palhinha por trás. Alberto Martínez apita, anota o nome do argentino – enquanto Nelinho ajeita. É a última chance, o esforço definitivo. Lonardi comanda a barreira, olhando para Landaburu – e nenhum dos argentinos vê quando o moleque Joãozinho, passando à frente de Nelinho, entra na corrida e chuta para as redes.

Os argentinos nem se mexeram, o time todo do Cruzeiro começou a correr atrás de seu ponta, vendo que Martínez já apontava o meio do campo.

Era o gol salvador, o gol da molecagem, “o gol da irresponsabilidade”, como dizia Zezé Moreira.

Sujos, bêbados de alegria, os jogadores se abraçam à Taça Libertadores. No vestiário, Ronaldo, expulso no último minuto de jogo, grita com Jair:

“Ganhamos. Eu sou pé quente.”

Todo ferido, Palhinha desabafava:

“Valeu a pena agüentar aquele grandão me sarrafando o tempo todo”.

Joãozinho, segurando a camisa 5 de Merlo, explica o seu gol:

“Eu vi que o goleiro estava fora da jogada. Se o juiz não mandou cobrar a falta no gol do River, não ia eu esperar que ele mandasse cobrar a nossa. Achei que ninguém esperava que eu cobrasse. E não esperava mesmo.”

E então, na malandragem final, na categoria bem brasileira, finalmente o Cruzeiro ganhou o tão sonhado título: campeão da Taça Libertadores da América. Uma festa só, que Belo Horizonte comemorou até o sol nascer. Uma festa que, além do Santos de Pelé, só o Cruzeiro conseguiu fazer no País do Futebol.

 

90 anos: As primeiras estrelas do manto celeste


Vamos falar aqui sobre excelentes figuras. Quatro homens que souberam honrar a camisa que vestiram. Um deles vestiu a camisa tricolor (branco, vermelho e verde) do ex-Palestra Itália de Minas Gerais: era Niginho, que jogou durante cinco anos pelo Lázio de Roma e, na sua volta para o Brasil, ajudou seu clube do coração a ser campeão pela última vez com o velho uniforme e o velho nome. Outros três honraram a camisa azul: Abelardo, Tostão e Dirceu.

Leonídio Fantôni não era um nome conhecido em Belo Horizonte. Mas Niginho… Niginho era um gênio e todos os torcedores na sua época tinham uma jogada dele para contar. Leonídio Fantôni, o Niginho, membro de uma família onde quase todos os homens viveram e vivem pelo futebol (Ninão, Nininho, Orlando, Fernando, Benito, etc.), começou jogando no Palestra, a convite do seu irmão Ninão, foi para o Lázio, da Itália, em 1930. Ficou lá até 1935.

Durante sua permanência na Itália, Niginho foi um ídolo em Roma, talvez mais do que era em Belo Horizonte, que deixou com 20 anos apenas. Identificava-se com o povo de seu país, mas não aceitou o chamado de Mussolini para a guerra na Abissínia. Lutou contra a exigência do ditador e, quando o primo Nininho morreu – em conseqüência de uma grave contusão sofrida no jogo Lázio x Torino – resolveu deixar a Itália.

Segundo o cronista e escritor Plínio Barreto em seu livro “Futebol no Embalo da Nostalgia”, Niginho provocou verdadeiro delírio entre os torcedores pela sua volta ao Palestra. Desde que foi para a Itália, ninguém deixou de acompanhar sua carreira e torcia pela sua volta. Quando novamente vestiu a camisa verde e vermelha do Palestra, o Clube começou a reerguer-se, pois, desde que Niginho viajara para a Itália, não foi possível ganhar mais nenhum título. Em 40, novamente, o Palestra foi campeão – último antes da troca de nome.

Niginho era um jogador de invejável categoria, centro-avante artilheiro, tipo oportunista, que não deixava o goleiro picar a bola no chão sem tentar mandá-la para as redes. Segundo Plínio Barreto, Niginho decidiu uma partida entre Mineiros e Cariocas, em Álvaro Chaves, no Rio, assim: “Estava 3 a 3 e ele pegou uma bola na sua intermediária e saiu driblando. Passou por um, veio o segundo, o terceiro, foi embalando, chegou na área, passou por outro, deixou o goleiro caído e só parou quando esbarrou nas redes”. Assim era Niginho, o “Menino Metralha”.

Quando o rapaz Abelardo Dutra Meirelles entrava em campo, parecia que ia para alguma festa. Chuteiras engraxadinhas, cadarço com pontas aparadas, calção com vinco, bem passado, camisa sem dobras e o cabelo amparado na mais fina brilhantina. “Olha, a camisa dele é mais azul”, diziam as meninas, que o adoravam.

Abelardo não era só elegante e boa pinta. Na sua primeira partida pelo Cruzeiro, em 1947, ganhou o amor de sua torcida com o novo estilo de jogar futebol, uma nova maneira de marcar gols: de estilo, de placa, bonitos e frios. Abelardo era veloz, franzino e hábil. Sua colocação em campo era perfeita, ele sabia exatamente onde a bola ia cair. E, se ele subisse para uma cabeçada, quase sempre era gol. Era o “Flecha Azul”.

Dizem que, de tanto ler notícias sobre Heleno de Freitas, acompanhar pelos jornais e revistas da época a vida do grande ídolo botafoguense, Abelardo acabou assimilando seu estilo de jogar. É lógico que era uma simples coincidência, mas quem sofria com isso era o Atlético, pois Abelardo melhorava sempre.

Certa vez, após um clássico entre os dois rivais, no Estádio Antônio Carlos (campo do Atlético), Abelardo teve de ser escondido pelos próprios jogadores atleticanos, em seu vestiário, para evitar que a torcida linchasse à saída do estádio. Abelardo havia decidido mais um Atlético x Cruzeiro. Sua fama já ia longe. Seu conselheiro e técnico foi Niginho – que só parou de jogar quando Niginho apareceu e mostrou que a camisa de Niginho tinha um herdeiro competente.

Apesar de craque, Abelardo tinha um gênio difícil e as coisas que não agradavam ele não fazia. Se discordava de alguma coisa, era briga. Quando o Cruzeiro vendeu seu passe ao Palmeiras, em 1950, por 150 contos, ele logo conquistou o Parque Antarctica, mas brigou em seguida. Foi emprestado para o Santos, mas isso acabou favorecendo sua decisão de voltar a Belo Horizonte e ao Cruzeiro. Encerrou sua carreira em 1959, como campeão mineiro.

Eduardo Gonçalves Andrade era tão pequenininho quando começou a jogar futebol entre gente grande, a marcar gols e fazer jogadas incríveis, que logo ganhou o apelido de “Tostão”. Fora de casa, ninguém mais o chamava de Eduardo. “Olha lá o ‘Tostão’ com a bola. Veja o que ele vai fazer…”. Onde quer que aparecesse o menino chamava a atenção. Crescendo, foi levado para jogar futebol de salão no Cruzeiro, de onde foi para o juvenil do América.

Em 1963, ao projetar para o Cruzeiro um grande time, compatível com o novo estádio que estava sendo construído em Belo Horizonte – o Mineirão –, o presidente Felício Brandi usou toda a sua sabedoria de dirigente para levar Tostão para o Cruzeiro. Conseguiu e o entregou ao técnico Mário Celso de Abreu. Logo, logo, Tostão tornou-se titular. E começou a surgir um dos maiores jogadores do futebol brasileiro em todos os tempos.

Amadurecendo, Tostão foi conquistando seu público, deixando os adversários admirados, levando o Cruzeiro a históricas vitórias. Na inauguração do Mineirão, ele já era o comandante da equipe que conquistou o novo estádio e que exportou a fama de um novo estádio e que exportou a fama de um novo futebol que estava nascendo, o de Minas. Tornou-se o primeiro jogador de clube mineiro a disputar uma Copa do Mundo pela Seleção Brasileira – em 66, na Inglaterra. Depois, nunca mais deixou de ser convocado. A partir de 68, foi titular absoluto, ao lado de Pelé.

Formou com Dirceu Lopes uma das maiores alas de atacantes do futebol brasileiro, atraindo milionárias propostas de mais de dez clubes do país e do exterior. Sério, calado, inteligente, interessado pela cultura científica, preocupado com a sua formação intelectual, caseiro, amante da vida em família, Tostão não chegou a ser popular como Dirceu, mas conquistou todos os torcedores do futebol brasileiro com seus gols sensacionais – pelo Cruzeiro e pela Seleção – e seu talento genial de um dos mais completos craques do futebol brasileiro.

Viveu um intenso drama em 1969, quando a retina de seu olho esquerdo descolou-se e ele teve de ser operado nos Estados Unidos. Muitos – inclusive o novo técnico da seleção, Zagalo, e o médico Lídio Toledo – não acreditavam na sua recuperação para o futebol. O tratamento foi eficiente e, um ano depois, comandou o ataque do Brasil que conquistou o tricampeonato mundial no México.

Em 1972, quando Iustrich foi contratado para técnico, começou o desligamento de Tostão no Cruzeiro. Afinal, ao encerrar-se uma discussão de quase 30 dias seguidos, o presidente Felício Brandi concordou em vender seu passe ao Vasco da Gama pelo preço recorde (até aquela época) de Cr$ 2,5 milhões. Um ano mais tarde, ao ser novamente examinado nos Estados Unidos, descobriu-se que sua retina estava fragilmente adaptada e a continuidade da sua função como jogador poderia precipitar sua deformação, com risco para sua vista.

Aos 27 anos, ao lado de sua mulher em Houston, no Texas, Tostão decidiu parar de jogar futebol. Frustrando os vascaínos, encerrando uma das carreiras que mais alegrias deu à torcida cruzeirense. Em 1979 ele se formou em medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais.

Depois de tantos anos sem ter um verdadeiro ídolo, sem ver o time chegar a gloriosas conquistas, finalmente surgiu o suvessor de Abelardo “Flecha Azul” no Barro Preto. Dirceu Lopes Mendes, de Pedro Leopoldo, que gostava de brincar com a garotada, que não sabia dizer um “não”, que nunca deixava de sorrir ou de dar uma resposta elegante. Um comportamento tão elevado quanto o futebol que, nos gramados da cidade, ele começou a exibir em 1964, recém-saído do time juvenil campeão.

Dirceu Lopes transformou-se logo no grande ídolo cruzeirense. Um gênio, ainda que chegasse a dividir com outros jogadores as glórias de um talentoso e genial futebol, ele alcançou uma posição que só Niginho e Abelardo atingiram: a identificação com o povo. Ainda que fosse um pouco tímido, sempre teve a coragem de enfrentar as situações impróprias, de atender a todos, de viver abertamente. Consciente de suas obrigações profissionais, nunca teve de ouvir críticas ou broncas. Foi o modelo ideal do jogador.

Formou com Tostão e Piazza o trio mais eficiente que o Cruzeiro já teve no meio-campo, em todos os tempos. Sua visão de gol, sua rapidez e os dribles curtos e surpreendentes deram centenas de vitórias e vários títulos para o Cruzeiro. No time profissional, foi nove vezes campeão mineiro, campeão da Taça Brasil e campeão da Taça Libertadores da América. De 1967 a 1973 fez parte da Seleção Brasileira, convocado todas as vezes que se armava a equipe. Dispensado na véspera da Copa de 1970, deixou de realizar seu grande sonho: ir a um Mundial.

Titular absoluto de todas as seleções mineiras, eleito 12 vezes o melhor meia-armador de Minas Gerais, três vezes escolhido como o melhor da posição no campeonato brasileiro (“Bola de Prata” da Placar), Dirceu Lopes teve de construir uma vitrine na sala de sua casa para que coubessem todos os troféus de sua carreira.

Em 1975 sofreu uma grave contusão no calcanhar, rompendo o tendão de Aquiles, que obrigou Dirceu Lopes a parar por mais de 13 meses. Voltou, aos 30 anos, jogou mais um ano e, ao reformar seu contrato, ganhou passe livre. Jogou ainda no Fluminense e no Uberlândia, encerrando em outubro de 1978 a sua brilhante carreira para dedicar-se exclusivamente a sua família e a sua fábrica de camisas em Pedro Leopoldo.

Time campeão da Libertadores da América de 1976

90 anos: E nasceu o Cruzeiro forte

Ainda em comemoração aos 90 anos do Cruzeiro, a seguir o artigo sobre a história do Cruzeiro na ótica da mesma revista Placar até 1979. Para quem ainda não conhece, se divirta! Para quem já conhece, sempre há algo novo e nunca é demais relembrar a nossa história.

Já estou separando os textos para lhes contar a história do Niginho, o “Menino Metralha”; e Abelardo, o original “Flecha Azul”.

E nasceu o Cruzeiro forte

Aos 22 anos, Belo Horizonte era uma cidade que buscava meios de reunir suas colônias através de clubes. Os passeios dominicais sob as árvores da Avenida Afonso Pena não satisfaziam. Os portugueses tinham seus grupos e se reuniam no Lusitano Athletic Club. Os estudantes universitários, gente fina da sociedade, faziam parte do América Futebol Clube, o melhor time de futebol da capital. O povo, gente que se misturava sem preconceitos ou crenças, ricos e pobres, vibrava com o Atlético Mineiro.

Os italianos eram os únicos estrangeiros que se misturavam – e não gostavam. Parte deles – e eram muitos – pertencia a um clube de estrutura frágil e que inspirava pouca amizade de seus membros. Era o Yale Athletic Club, que tinha sua sede esportiva no Barro Preto e fazia suas reuniões noturnas na fábrica de calçados Ranieri & Filhos, na rua Caetés. Ali eram tratados os assuntos de futebol e tomadas as providências rotineiras. E o grupo mais assíduo já estava aborrecido com a pouca expressão do Yale, que não tinha uma filosofia própria. Esse grupo era formado por imigrantes italianos e seus filhos.

Uma grave crise, finalmente, abalou o Yale. Sócios e atletas em grande número se demitiram. Os italianos decidiram seguir o caminho o caminho aberto pelo Palestra Paulista, que em 1914 foi fundado para reunir, exclusivamente, a colônia italiana de São Paulo. A idéia de se fundar o clube dos italianos em Belo Horizonte foi liderada pelo grupo que mantinha constante aquelas reuniões na fábrica de calçados: Nulo Savini, Júlio Lazzarotti, Domingos Spagnulo, Amleto Magnavacca, Sílvio Pirani, Arduino Pirani, Henriqueto Pirani e João Ranieri – o dono da fábrica.

Eles preparam tudo e marcaram um encontro da colônia para o dia 20 de dezembro de 1920, na sede da Società Italiana Dante Alighieri – no prédio onde já foi a Assembléia Legislativa e, atualmente, á a Câmara Municipal. Compareceram 92 pessoas, que discutiram todos os detalhes e marcaram nova reunião para o dia 2 de janeiro de 1921.

Palestra nos anos 30: o primeiro à direita é Orlando Fantôni, o quarto é Niginho

No dia 2 de janeiro decidiram todos os detalhes importantes para a criação do novo clube e, finalmente, estava fundada a Società Sportiva Palestra Italia, com a seguinte diretoria: Aurelio Noce, presidente; Giuseppe Perona, vice-presidente; Bruno Piancastelli, secretário; Aristótelis Lodi, tesoureiro; João Ranieri, Domingos Spagnulo e Antônio Pace, comissão de esportes. Foi tomada uma decisão que muito limitou o crescimento e simpatia do clube: somente eram aceitos no quadro social ou esportivo os italianos natos ou seus descendentes diretos.

Definitivamente extinto, o Yale cedeu todos os seus atletas – italianos, claro – ao Palestra. Outros jogadores da mesma origem que jogavam no Atlético Mineiro, Guarani, Ipanema e América transferiram-se para o Barro Preto: estava, assim, formado o quadro de futebol do Palestra Itália. Restava tratar da sua filiação à Liga Mineira de Desportos Terrestres (LMDT). Na época já havia a primeira e a segunda divisão. Os clubes menores, que viviam sem estrutura formada, pertenciam à segunda. O Palestra queria entrar, de cara, para a primeira divisão.

Por imposição da LMDT, o novo clube teve de submeter-se a um exame de admissão: enfrentar o último colocado da primeira divisão e o campeão da segunda. Se perdesse uma partida seria reprovado. Primeiro, o Palestra enfrentou o mais forte, o Ipanema, último classificado da primeira divisão. Venceu brilhantemente por 2 a 1. Depois, provocou delírio entre os italianos ao derrotar o Palmeiras, campeão da segunda, por 3 a 2.

Niginho, (aqui, ao lado de Domingos da Guia) era de driblar toda a defesa contrária

Nulo, Henriqueto e Polenta; Grande, Galo e Quinino; Pederzolli, Parisi, Nani, Atílio e Armandinho. Com este time o Palestra iniciou sua campanha oficial na LMDT, derrotando o Atlético Mineiro por 2 a 0 e o Morro Velho – time dos ingleses da mina de ouro de Nova Lima – por 2 a 0. Depois perdeu para o Morro Velho, em Belo Horizonte, por 2 a 1 e 1 a 0. Logo após, o governo estadual desapropriou o terreno herdado do Yale e o Palestra comprou o quarteirão ao lado, que pertencia à Prefeitura, por 50 mil réis, para construir o seu estádio. Teve de indenizar com 12 mil réis um plantador de couve que cultivava uma imensa hosrta no local. Construído o campo, o Palestra convidou para um jogo o Flamengo, do Rio, com quem empatou em 3 a 3. Na preliminar o América derrotou o Atlético por 2 a 0, jogando com time reserva.

Em 1926, a diretoria resolveu suspender a antipática cláusula estatuária que só permitia a filiação ao Palestra de sócios ou atletas italianos. O clube tomou, então, um grande impulso. Resultado: foi tricampeão da LMDT, revelando um dos maiores craques de Minas em todos os tempos – Niginho, o grande ídolo que logo seria levado para o Lázio, da Itália. O nome do clube deixou de ser escrito em italiano. Passou a ser Sociedade Esportiva Palestra Itália. Entretanto, o início da Guerra Mundial forçou, em 1941, nova modificação no nome do Palestra, que passou a ser Mineiro.

No ano seguinte, o Brasil cortou relações que mantinha com os países do eixo – Alemanha, Itália e Japão. Por determinação do governo federal, o Palestra trocou seu nome novamente.

Sem consultar o Conselho, arbitrariamente, o presidente Enes Ciro Poni decidiu rebatizar o clube com o nome Ypiranga. A idéia foi rejeitada e, semanas depois, em Assembléia Geral, decidiu-se que o clube passaria a se chamar Cruzeiro Esporte Clube.

Daí para a frente,, fortificou-se um novo clube em Belo Horizonte. Não era mais, simplesmente, o clube dos italianos. Era uma sociedade eclética, que logo implantou os esportes amadores e foi construindo o patrimônio do clube. As cores novas – azul e branco (o vermelho e o verde foram eliminados) – já eram vistas em bandeiras e flâmulas que se espalhavam pelo Barro Preto, um bairro que crescia e adotava o Cruzeiro como seu símbolo.

Em 1945 foi novamente tricampeão de futebol, enquanto que, nos outros esportes, o Cruzeiro brilhava. Foi se formando a tradição até que, com o terceiro tricampeonato, levantado em 1960, o clube entrou definitivamente para a fantástica história do esporte brasileiro. Um novo e dinâmico torcedor, que soltava rojões e agitava bandeira em treinos, foi eleito presidente: o italiano Felício Brandi. A partir do dia da sua posse, Brandi começou a reconstruir o Cruzeiro com o seu espírito corajoso. Primeiro, um frande time de futebol. Depois, o resto. E assim fez.

O grande time (Raul, Pedro Paulo, William, Procópio e Neco; Piazza e Dirceu Lopes; Natal, Evaldo, Tostão e Hilton Oliveira) começou ganhando a Taça Brasil de 1966 e, aí, o clube já era dono de um invejável patrimônio. […]

 

90 anos: o que nos representou 2010?


Chega ao fim a temporada número 90 do Cruzeiro Esporte Clube.

No dia 2 de janeiro completaremos 90 anos de glórias por essas terras de Minas, um clube ítalo-brasileiro que conquistou em poucos anos o Brasil e a América. Privilégio único nessa terra das alterosas.

Começo aqui uma singela homenagem a essa agremiação que começou com um pequeno grupo de italianos e hoje move com a emoção de 8 milhões de torcedores.

Nem sempre serão textos de nossa autoria, poderá ser reportagem, crônica (como a que foi transcrita semana passada na Squadra sobre a final de 66), imagem… por isso peço a ajuda e que entrem em contato quem tiver material que exalte a nossa história.

E hoje, gostaria de exaltar a nossa página mais recente: a temporada de 2010, onde conhecemos um verdadeiro espírito de guerreiros em campo.

O que nos representou 2010?

Após o baque da derrota na final da Libertadores da América de 2009, a moldura de um time campeão vinha ao campo no segundo turno do campeonato brasileiro do mesmo ano. Após uma arrancada histórica, o Cruzeiro conquista a última vaga para a Libertadores do ano seguinte, caindo na etapa classificada como “pré-libertadores”.

A sua primeira vitória do ano foi conquistada sobre o Uberlândia com uma sonora goleada por 6×0, sinal de que seria um ano diferente. Mas as atenções estavam voltadas para a Pré-Libertadores e, após conseguir um empate em condições adversas na Bolívia, conquistou a incrível vitória por 7×0 sobre o time Real Potosí, recorde de diferença de gols celeste no campeonato continental.

Com o objetivo na conquista do Tri na Libertadores da América, o campeonato mineiro foi preterido diante da competição internacional e a equipe foi eliminada na semi-final do campeonato regional diante do Ipatinga e uma crise – plantada – foi estabelecida, onde o estopim seria a eliminação na LA, caso houvesse.

Tantos torceram, que conseguiram! A equipe celeste foi eliminada diante do São Paulo – que, incrivelmente, decidiu jogar bola apenas contra o Cruzeiro em 2010 – e depois de tanto pressionar, conseguiram derrubar o técnico Adilson Batista, para a euforia geral da imprensa.

Cuca, criticado e rotulado como “derrotado” por parte da torcida, veio no lugar do AB. Pegou o time em 12º lugar no Campeonato Brasileiro, época em que o líder tinha como vantagem 12 pontos sobre nós. E então apareceu o time de guerreiros…

A diretoria investiu na qualidade em suas contratações. Trouxe reforços para a contestada zaga e, finalmente, investiu em um extraordinário “camisa 10”, o argentino Montillo.

Com a parada para a Copa do Mundo, Cuca teve um tempo suficiente para conhecer o grupo, planejar os próximos meses e enfrentar uma maratona de jogos que vinha a diante, onde a equipe celeste conquistou a maioria dos pontos e figurou entre os primeiros colocados.

Neste período se encontra o jogo contra o Palmeiras, uma conquista de 3 pontos que foi o retrato fiel do que representou todo o ano do Cruzeiro.

Chegando à reta final, o Cruzeiro via as suas chances de título aumentarem. Lutou bravamente em vários jogos na conquista de 3 pontos e, como poderia acontecer em qualquer grande time, houveram tropeços. Mas continuou bravo na busca do almejado título – superando a falta do Mineirão, os grandes desfalques e os erros bizarros da arbitragem –  e chegou na rodada final com 4% de chances de título, dependendo dos resultados de seus adversários para ser campeão.

O time que não era visto como candidato ao título após o “vexame” no campeonato mineiro, ao final foi visto com grande espírito, que honrou o segundo lugar conquistado. Foi reconhecido, temido e respeitado.

Neste ano de 2010, podemos até não ter uma taça para expor nas vitrines, mas na memória de todo cruzeirense ficará a história de um time, que contra tudo e contra todos, enalteceu um vice-campeonato de muito suor.

Para 2011, espero que continue com o mesmo time base, que vem sendo formado desde 2008 e agora se encontra em seu melhor momento, analisando o entrosamento e o amadurecimento do grupo. Espero que a renovação no elenco não atinja as suas peças principais, pois certamente estaremos na luta pelo Tri – tanto no Brasileiro quanto da Libertadores.


Fotos: Vipcomm

Luciana