Pode dar m****

Ontem achei o Cruzeiro surpreendente. Não me lembro – em anos – de ter visto o Cruzeiro jogar daquele jeito. Bem. Muito bem.

Crédito: Bruno Alencastro/Agencia RBS

Crédito: Bruno Alencastro/Agencia RBS

A organização em campo, postura pra defender e atacar, a intensa troca de passes (boas), mesmo sendo visitante fez apagar aquele jogo feio contra o Santos no domingo. Mas o Cruzeiro perdeu. Pois é!

Queria ser, mas tenho medo de acreditar que seremos campeões. Sei que é cedo pra falar essas coisas e tal, mas é complicado apostar nesse time. Aposto sim, mas não alto. Entende? Sabemos do potencial e vemos sempre grandes exibições, mas tem aquele medo: ainda não posso elogiar.

Destaco 3 jogos desse ano:

– Galinho 3×0 Cruzeiro: Nosso melhor zagueiro é expulso num lance infantil, quando ainda estava 0x0. É verdade que, diferentemente dos outros jogos, o Cruzeiro vinha nervoso, sem acreditar que podia ganhar aquele jogo. E podia, mas ué? Dos 4 clássicos: vencemos 3 – sendo dois contra o time titular do adversário – e perdemos um, que é este o qual falei.

– Cruzeiro 2×2 Internacional: Empatamos dentro de casa, foi merecido até, mas o Cruzeiro lutou. Agora me expliquem a expulsão do Ricardo Goulart? Até hoje não tem explicação. E ainda dois dos nossos jogadores machucaram ainda no primeiro tempo.

Crédito: Diego Vara/Agencia RBS

Crédito: Diego Vara/Agencia RBS

– Grêmio 3×1 Cruzeiro: Além das considerações iniciais, vale lembrar a expulsão do Souza. Sei que ainda há a discussão sobre a justiça no cartão ou não. Pra mim, foi justa. Talvez em outros países não se aplique cartão naquela jogada, mas aqui no Brasil… Conhecemos o PC Oliveira (lá com seus 30 anos de profissão) e sabemos o que ele faz. Seria muita ingenuidade pensar que uma falta daquelas passaria em branco, ainda mais para o time visitante.

O Cruzeiro de 2013 é muito bom mesmo, talvez o melhor elenco que temos desde 2003. Mas falta um Q a mais. Aquele Q que não deixa a pulga atrás da orelha pra fazer elogios, aquele a mais que não pense “pode dar merda” ou “quem não faz, toma”. É a questão do pênalti: quando a marcação é a nosso favor, temos 80% de chances de errar, mas contra… já era.

O time titular de ontem tinha apenas 2 jogadores que estavam no time titular do ano passado. Não sei ao certo o que dizer, mas seria pretensão pensar que um time totalmente reformulado bata o Corinthians, Inter, Galinho, Flu… que já conta com, no mínimo, uma temporada com uma base montada?

Não, não seria. Porém: seria.

O Cruzeiro é mais time que esses todos, quando joga bola, joga mais que esses todos (na atual temporada), não é a toa que se encontra no topo da tabela. Porém, ahhhh o porém, pode dar m****.

Falta um pouco de amadurecimento – eis a palavra. Ou a malandragem, o cacoete(né Douglas?) pra ser campeão! Talvez a vontade de provar que pode, faça mostrar que “ow… vi que você pode, mas pare por aqui”. Aquela vontade de chegar lá na frente e driblar todo mundo antes de concluir a gol mostre que o jogador é demais e pode ser o destaque do campeonato, mas seria mais fácil concluir logo ao gol. Ou aquela vontade de mostrar “mais raça”, e passar do limite da falta. Sabemos fazer o feijão com arroz perfeito, mas querem ir pra sobremesa antes de ficar bem alimentado, entende?

O Cruzeiro pode e quer mostrar que pode, mas ainda não vejo o que quer. Talvez a disputa pela titularidade, talvez a falta de acreditar em si mesmo, mas é que ainda, infelizmente (e na espera que mude), “pode dar merda”.

Luciana Bois

Ps: Com certeza leram meu texto.

No fundo da alma

A memória é diferente da lembrança. Esquecemos muitas coisas, geralmente as que não queremos lembrar, mas elas continuam guardadas em nossa memória. De vez em quando reaparecem no sonho, nos atos falhos ou disfarçadas e encobertas em nosso cotidiano.

Há passagens em nossas vidas que não são boas nem ruins, porém marcantes e inesquecíveis. Lembro-me de uma quando era professor de medicina, orientador dos alunos do último ano e dos jovens médicos residentes, futuros especialistas em clínica médica.

No Hospital Universitário, havia um doente portador de asma brônquica. Ele não melhorava. O médico residente estava em pânico. Discutimos várias vezes o problema do paciente, trocamos os medicamentos, fizemos reuniões clínicas, estudamos a literatura recente, consultamos os especialistas -sem resultado.

Havia algo errado que fugia à nossa compreensão.

Uma noite, fui para o hospital conversar com o paciente. Queria conhecer melhor o doente, e não apenas a doença.

Aproveitei o silêncio e o sono de outros pacientes da enfermaria, sentei-me ao seu lado e batemos um papo. No final da conversa, após idas e vindas, confissões e recuos, ele me disse: “Doutor, o jovem médico que cuida de mim não tem culpa. Nem ele, nem você, nem ninguém vai resolver o meu problema. Não melhoro porque no fundo da alma não quero melhorar”.

Aí ficou claro. Ele precisava tratar não somente do corpo, mas também da alma.

O leitor deve estar curioso por que conto essa história. Em parte, porque estou sem assunto. Também me lembrei dela após ver o Oscar tornar-se o maior cestinha do mundo de todos os tempos e chorar de emoção.

Para ser craque, um fenômeno como o Oscar, não basta ter talento e a mão santa. É preciso desejar não somente com palavras, mas também no fundo da alma.

Oscar é um atleta entusiasmado, ambicioso e perfeccionista. Quer sempre jogar melhor. Ele simboliza a união da técnica e da garra.

Nesse momento, o pensamento voa, e retorno ao futebol. Além dos problemas técnicos, o que falta às equipes como Flamengo e Cruzeiro é desejar a vitória no fundo da alma. Ninguém entra em campo para não vencer, mas é preciso algo mais, como o Oscar. Há desejos e desejos.

As equipes do Flamengo e do Cruzeiro estão doentes. Como o paciente, elas precisam tratar também da alma. Antes que seja tarde.

Mudanças no futebol
Na semana passada, escrevi que as seis primeiras equipes do Brasileiro estavam quase classificadas.

Hoje, não tenho tanta certeza se o Palmeiras e o Fluminense vão passar para a próxima fase. Estão em queda e enfrentarão adversários difíceis.

Foto: Ramon Bitencourt | VIPCOMM

Celso Roth não aguentou a pressão. Um time que tem poucos excelentes jogadores e permanece durante todo o campeonato entre os oito primeiros merece mais elogios do que críticas.

O treinador não é excepcional nem burro. Está no nível dos principais técnicos do futebol brasileiro, o que não é lá grande coisa, já que a média é baixa.

Internacional e Vitória ocupam a sétima e a oitava colocação. A Ponte Preta tem o mesmo número de pontos, mas perde no saldo de gols. Essas e muitas outras equipes têm boas chances de se classificar.

O Internacional dirigido pelo Parreira é um time modesto individualmente, mas faz uma ótima campanha. A equipe sabe o que quer e o que pode. É essencial.

Um leitor conta-me, endossado pelo Parreira, que o jovem presidente do Internacional, Fernando Antônio Miranda, faz um belíssimo trabalho.

Assim como acontece com os técnicos, estão sendo formados novos dirigentes que serão importantes na reestruturação do futebol brasileiro.

Há outros. A cúpula do Atlético-MG, comandada pelo presidente Ricardo Guimarães e pelos diretores Alexandre Kalil e Bebeto de Freitas, melhorou as finanças do clube. Isso reflete nos gramados.

Estou otimista quanto ao futuro do futebol brasileiro.

Brevemente teremos grandes mudanças em todas as áreas, dentro e fora de campo.

Para isso, será preciso colocar pessoas com idéias novas na direção das federações, dos clubes, das ligas e da CBF -e que não queiram se aproveitar do futebol para dar outros saltos.

Coluna mais que atual escrita pelo Tostão no dia 21/10/2001 para a Folha de São Paulo.

Crônica de um dia de festa: voltamos à BH!

Minha expectativa pra ir à Arena era grande a semana inteira… Desde quando recebi  o meu novo cartão do sócio, não sei quantas vezes eu lia aquela papelada, entrava no site do sócio e tal. Só pra ver se a hora passava rápido e ver novamente o Cruzeiro em BH, com a torcida dele, de verdade.

Foto: Vipcomm | Eu apareço aí, ein!

Eu fui ao primeiro jogo do Cruzeiro na Arena do Jacaré após o fechamento do Mineirão e esperava que no primeiro jogo no novo Independência também fosse ao menos parecido com aquele contra o Goiás. E realmente quase foi.

Belo Horizonte é especial, a torcida daqui é especial. Essa seria a diferença com a Arena do Jacaré.

Minha carona chegou aqui em casa era 16:50, todos com a expectativa tamanha que não parávamos de falar. E uma das maiores dúvidas era de como chegar até lá. Afinal, era a primeira vez de todos em um grande jogo no Independência. Antes até havíamos ido, mas não se compara ao que é hoje, ao esquema do trânsito, o grande fluxo de pessoas e tal.

Mais ou menos as 17:30 chegamos na Silviano Brandão e fomos subindo a pé a Pitanguy. A rua fechada para o trânsito, mas com um movimento de pessoas acima do normal era motivo de festa. Muitos à porta de suas casas só pra ver o movimento ou lucrar sobre vendas de camisas e cervejas.

O novo independência estava diante de nós. E a nossa volta uma torcida que cantava a todo momento, com uma felicidade até estranha, mas tão boa… só por poder ver o seu time de volta a BH.

A fila estava gigante pra entrar no estádio. Eram dois quarteirões de fila se espremendo para entrar por um portão. Duas filas para aquele mundo de pessoas? Tem que arrumar isso ai! Mas ainda assim era festa e motivo de risos e caras de bestas felizes na fila. Até engraçado, viu!

Quando passei pelo meu cartão na catraca (ahhhh que bom ser sócia) já estava lá, na próxima segunda casa com direito a zelador vip pelos próximos 6 meses.

 O Independência é bonito, algo que não tinha visto igual antes, bem cuidado (valeu zelador!), de bom gosto. Maaas com seus pequenos probleminhas: a cadeira é pequena pra quem é grande (que não é meu caso, mas pro moço que estava ao meu lado), a inclinação não é favorável para ver o campo inteiro e no resto, eu já não sei. Não fui ao banheiro, nem aos bares (Campanha #ConsumoZero em vigor).

Aliás, a campanha do #ConsumoZero estava até engraçada. Esses vendedores de água e picolé (R$ 5,00) estavam até sofrendo, coitados. Foi muito boa a hora em que um torcedor foi comprar uma água e muitos foram encima falando que a água era suja, tinham mijado lá dentro e não era a toa que o dinheiro ia pro Kalil. O torcedor entendeu a história e ficou com sede, mas não deu dinheiro ao galinho! Hahahhaha

Nos bancos havia a instrução e o papel para o mosaico, estava tudo bem escrito e explicado. Faltando 10 minutos pro jogo começar, o Raposão apareceu no campo, mas poucos repararam que ele fazia gestos para que a torcida se encaminhasse para o lado direito para completar o “C”, mas ao menos do lugar que eu estava, parecia que estava cheia.

 Todos a minha volta (além dos conhecidos, eu não sabia o nome de ninguém, mas conversava com todo mundo) comentávamos sobre a casa nova. E chegamos à mesma conclusão: estádio de verdade é o Mineirão, mas o Independência até que quebra o galho por um tempo.

Quando o time entrou em campo, assim como estava nas instruções, se formou o mosaico. A minha frente estava o mosaico “a la cachazeiros” que ficou muito bom! Queria até tirar foto, mas eu também estava embaixo do E, e não podia sair da formação. Seeentido! Um exército na torcida que obedecia às ordens para fazer uma boa festa!

Quando começou o jogo, era só festa nas arquibancadas, era tanta festa, que fingíamos ignorar a pressão que o Figueirense fazia no Cruzeiro. A cada erro do Pablo, que estava na lateral ao nosso lado, saía um grito: “Valeu Pablo!”, e a cada erro do Amaral era… “Leaaaaandro Guerreeeeeiro”. Assim que tem que ser!

Ao final do primeiro tempo, começou a cornetaiada, mas sério que à minha volta estava até engraçado. Vale retratar o que um moço atrás de mim gritava pro Wellington Paulista enquanto o Figueirense estava no ataque e o WP estava na banheira caído pra nossa lateral: “Ô Wellington Paulista!!! Fala pro Celso Roth tirar o Amaral… manda tirar o Wallyson que esta fazendo nada também.. e aproveita e… VAI JUNTOOO!”. Todo mundo em volta só na gargalhada, que mesmo na corneta, era festa.

No intervalo continuou a campanha do Consumo Zero, ao menos de todos que estavam ao meu lado, apenas um se levantou, sendo que foi para ir ao banheiro. O melhor foram os comentários desse moço ao voltar: “Até o banheiro lá de casa é maior que o daqui, PQP!” e também o “Aqui só vou fazer xixi… não vou dar lucro não, xixi é só prejuízo mesmo” hahahahahaha

Na volta ao segundo tempo, o time voltava ao campo e todos procuravam por Amaral. Quando ninguém o achou, era quase um gol comemorado pela torcida e quando se confirmou a substituição foi um grito de gol. =P

O time melhorou bastante com a entrada de Souza logo depois e com ele saiu o gol. Quando o meia fez a jogada anterior ao gol, nenhum olhar piscava mais. E quando a bola foi parar nos pés do Wellington Paulista, todo mundo parou de respirar naqueles segundos demorados do atacante e quando a bola entrou… ahhhh! Foi um grito como o Horto nunca havia visto antes! O atacante renegado pela torcida (e por mim também) mostrava que agora estamos de volta a BH, quase perto da nossa verdadeira casa e aqui, se não tem técnica, a torcida empurra!

Lá pros 40 minutos do jogo, parecia que aquilo não teria mais fim. O quase segundo gol do Cruzeiro, o quase gol do Figueira… mas o relógio cismava em não andar. A torcida estava toda apreensiva pro careca do árbitro dar o apito final e quando deu, outro gol a ser comemorado!

O Maior de Minas reestreava em sua cidade natal sem dar vexame de ser eliminado, sem precisar ganhar de virada e diante de uma torcida fiel.

O pessoal custava a ir embora, como se era obrigado a olhar a sua volta, respirar fundo e pensar: “enfim, de volta!”. No caminho para a rua, ninguém parava de cantar, no caminho pra casa, ninguém parava de buzinar.

Eu brinco que a torcida do galinho comemora cada vitória como título, mas essa do Cruzeiro, a torcida celeste comemorou como se fosse um título. Depois de dois anos e 14 dias fora de Belo Horizonte, um quase título Nacional e um quase rebaixamento, voltamos à cidade que nasceu e vive o espírito de campeão do Maior de Minas.

Obrigada Sete Lagoas, mas o Cruzeiro felizmente pertence a Belo Horizonte.

Luciana Bois

Complexos

Já que tem muito tempo que nem atualizo o Squadra Azzurra, quis passar por aqui pra deixar uma nota sobre um livro que estou lendo do Marcos Guterman (ed. Contexto), chamado “O futebol explica o Brasil”.

Como diz o título, o esporte explica sim o país e nos apresenta a profissionalização e o amor que existe no esporte. Em vários momentos enquadrei diversas situações do Cruzeiro na trajetória da Seleção Brasileira enquanto lia e gostaria de compartilhar um pouco sobre o “complexo de vira-latas” e algo que nunca podemos desprezar a esperança, ainda que seja um pouco iludida.

Após o Maracanazzo em 1950, o brasileiro ficou receoso com o futebol de sua Seleção. Na Copa seguinte de 54, havia resquícios e medo do que havia acontecido em 50 e acabou sendo vergonhosa a participação da Seleção Brasileira naquele ano, sendo eliminada pela Hungria nas quartas de final

Para 58, o Brasil apostaria em um garoto de 17 anos cujo apelido intrigante era Pelé. Apesar de ser uma trio admirável do garoto com Vavá e Garrincha, a confiança do brasileiro ainda era pouca, já que, como diria José Lins do Rego em 1950 “O brasileiro é um adorador de vitórias, o homem que não admite fracasso”, a população ainda não queria confiar naquela Seleção, receosa de uma nova desilusão.

A crônica a seguir explica de onde vem a expressão “Complexo de Vira-Latas”, escrita por Nelson Rodrigues em 1958

Hoje vou fazer do escrete o meu numeroso personagem da semana. Os jogadores já partiram e o Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética. Nas esquinas, nos botecos, por toda parte, há quem esbraveje: – “O Brasil não vai nem se classificar!”. E, aqui,eu pergunto: – não será esta atitude negativa o disfarce de um otimismo inconfesso e envergonhado?

Eis a verdade, amigos: – desde 50 que o nosso futebol tem pudor de acreditar em si mesmo. A derrota frente aos uruguaios, na última batalha, ainda faz sofrer, na cara e na alma, qualquer brasileiro. Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente nada, pode curar. Dizem que tudo passa, mas eu vos digo: menos a dor-de-cotovelo que nos ficou dos 2 x 1. E custa crer que um escore tão pequeno possa causar uma dor tão grande. O tempo em vão sobre a derrota. Dir-se-ia que foi ontem, e não há oito anos, que, aos berros, Obdulio arrancou, de nós, o título. Eu disse “arrancou” como poderia dizer: – “extraiu” de nós o título como se fosse um dente.

E, hoje, se negamos o escrete de 58, não tenhamos dúvidas: é ainda a frustração de 50 que funciona. Gostaríamos talvez de acreditar na seleção. Mas o que nos trava é o seguinte: o pânico de uma nova e irremediável desilusão. E guardamos, para nós mesmos, qualquer esperança. Só imagino uma coisa: – se o Brasil vence na Suécia, e volta campeão do mundo! Ah, a fé que escondemos, a fé que negamos, rebentaria todas as comportas e 60 milhões de brasileiros iam acabar no hospício.

Mas vejamos: o escrete brasileiro tem, realmente, possibilidades concretas? Eu poderia responder, simplesmente, “não”. Mas eis a verdade: eu acredito no brasileiro, e pior do que isso: sou de um patriotismo inatual e agressivo, digno de um granadeiro bigodudo. Tenho visto jogadores de outros países, inclusive os ex-fabulosos húngaros, que apanharam, aqui, do aspirante-enxertado Flamengo. Pois bem: não vi ninguém que se comparasse aos nossos. Fala-se num Puskas. Eu contra-argumento com um Ademir, um Didi, um Leônidas, um Jair, um Zizinho.

A pura, a santa verdade é a seguinte: qualquer jogador brasileiro, quando se desamarra de suas inibições e se põe em estado de graça, é algo de único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção. Em suma: temos dons em excesso. E só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas qualidades. Quero aludir ao que eu poderia chamar de “complexo de vira-latas”. Estou a imaginar o espanto do leitor: “O que vem a ser isso?”. Eu explico.

Por “complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos “os maiores” é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Porque, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo. Na já citada vergonha de 50, éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a vantagem do empate. Pois bem: – e perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: – porque Obdulio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos.

Eu vos digo: o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender, lá na Suécia. Uma vez que se convença disso, ponham-no para correr em campo e ele precisará de dez para segurar, como o chinês da anedota. Insisto: para o escrete, ser ou não ser vira-latas, eis a questão.”

Acho que a primeira pessoa que tinha que tirar lição disso sou eu. =P

Depende da retranca

Em meu último texto no Bloguerreiro, fui indagada quando disse que “Sei que esses esquemas fazem parte do futebol, mas não me convence que assim um time grande jogue e ganhe um campeonato”.

Muitos disseram: “mas o São Paulo de Muricy”. Sim, há exceções que dependem muito dos jogadores.

O São Paulo de Muricy* jogava no esquema 3-5-2, sendo 3 zagueiros altos (Alex Silva 1,92 m, Miranda 1,85 e Breno 1,87 m). O Cruzeiro em 2010 possui uma zaga relativamente baixa e usa dois zagueiros no esquema 4-4-2, com Victorino (1,82 m) e Gil (1,90 m) ou Léo (1,84).

A diferença da média de altura influencia em jogadas de bola parada, principalmente. Quando um time joga atrás da linha da bola, ele esta suscetível a jogadas aéreas e pressão com “chuveirinhos”. Temos uma boa zaga, mas se olharmos os gols que levamos esse ano, os maiores perigos vieram de jogadas aéreas.

Mas os zagueiros fazem diferença em uma “retranca” também para o ataque, jogadas de bola parada são consideradas vantagens nesse esquema. Alguém se lembra quando todo mundo ía jogar contra o São Paulo de Muricy falavam: “não pode fazer falta perto da área que já é meio gol para o São Paulo”?  E era verdade mesmo.

A defesa não fica presa apenas à altura, a boa qualidade dos zagueiros ainda depende de entrosamento e da qualidade individual. Victorino ainda está superior à quem faz sua dupla. Gil está melhorando muito desde que assumiu a titularidade, porém é arriscado depender apenas dele.

Já o São Paulo de Muricy, além de ter Rogério Ceni que é um ótimo batedor de faltas (e carrasco do Cruzeiro), também tinha Hernanes, que batia muito bem de fora da área e também se arriscava em gols de falta.

Então concluindo, uma retranca pode ser campeã, mas depende de seus jogadores.

Uma das características do Cruzeiro de 2010 é a rapidez com Thiago Ribeiro e Wallyson, mas não dependendo apenas de um contra-ataque. Temos jogadores inteligentes (Montillo, Roger, Dudu, Henrique, Gilberto) que sabem trabalhar a bola no meio campo e um ataque que em seu melhor momento, o entrosamento fazia a diferença e sabe fazer gols.

Quando digo que não gosto da retranca do Cruzeiro, é que eu sei que ele pode jogar bem mais e de uma maneira bem mais inteligente que uma retranca permite. O ponto forte do São Paulo de Muricy era a defesa, já a do Cruzeiro, é o meio campo.

A retranca é muito arriscada para um encaixe do perfil cruzeirense e faz com que dependa mais da sorte do que use a competência dentro do campo. Eu sei que o Cruzeiro sabe jogar bem sem apelar pela retranca, por isso espero que joguem bem mais.

*Contando com o time campeão em 2007

Luciana

Cruzeiro, como acreditar em uma reação?

Não dá mais. Enchi a bola do time o quanto que dava, esperei, não pedi a cabeça de ninguém enquanto dava também.

Mas agora não dá mais.

Eu nunca desistirei do Cruzeiro. Sua história tem muitas paginas heróicas que nunca vão deixar que essa minha paixão acabe.

Mas têm que ser feito algo logo.

Não é questão de Zezés, Cucas ou Paranás largarem o osso mais, mas é alguém querer e saber usar bem esse osso. Pode ser José, Patrícia, Antônio, Walter, Adilson qualquer pessoas que tenha RG no mundo, mas que saiba fazer esse time ser o Cruzeiro de verdade.

Isso nem é questão de ser imediata, mas de ser “pra ontem”.

Já começo a imaginar que a Libertadores e o vice do ano passado foi tudo obra do acaso.

Foram 8 jogos desde a decadência, com uma vitória, quatro derrotas e três empates. Como vou acreditar em uma reação se a cada ponto perdido vem um discurso que precisa mudar, mas de fato, nada muda?

Isso não é questão mais de falta de sorte. Nenhuma “falta de sorte” no mundo é tanta que suporte 8 jogos ruins… Sim, a competência está em cheque há muito tempo.

Só queria que o Cruzeiro voltasse a jogar bola, fazer o que (acho que) sabiam. Se pra isso é necessário que mexam em qualquer estrutura que for, que contratem, troquem, joguem, QUEIRAM. Já não temos mais tempo – e pontos – a perder.

Mas e ai Cruzeiro, vai fazer nada? Podemos acreditar numa reação de verdade?

Luciana

A estranha “sina de ser bom”

Esse é o Cruzeiro de Cuca. Sofre de uma “sina”, que para muitos seria um alívio, mas para o time celeste é um grande peso.

Aquele time que humilhou na Libertadores foi muito bom enquanto durou, mas agora a “liga” esta defeituoso. Pode ser por fase ruim de algum jogador principal, competições diferentes, desânimo pela desclassificação na competição continental ou qualquer coisa que seja, mas a questão é que tem que mudar a postura.

Não podemos apenas acreditar que somos bons, mas jogar para mostrar que somos bons.

O Cruzeiro não se ligou que mesmo sendo bom, esses são ainda mais observados, estudados e que devem inovar. Não tem dessa que um time possui um padrão e que não precise treinar. Os bons são incansáveis e devem trabalhar para ser cada dia melhores.

Essa coisa de lamentar ter jogador na seleção, calendário corrido, falta de estádio na cidade tem que ser superada logo. Já repararam que isso continua sendo conseqüência por sermos bons?

Desde os primórdios do futebol desse planeta bola, apenas os melhores são selecionáveis para uma Seleção do seu país. Quer continuar sendo bom? Então tenha um elenco para agüentar o tranco, que os bons não são constituídos de apenas 11 em campo, mas de um elenco que agüente.

Essa outra coisa de usar o calendário como desculpa já não desce mais pela garganta. Apesar desse argumento ter sido mais característicos aos anos anteriores (por questões óbvias), saibam que só os melhores que sobrevivem para as fases seguintes em competições paralelas. Não queria jogar as duas juntas porque o jogador não agüenta? Uê… peça pra sair! Desde os primórdios também sempre foi assim, mas não evitou que a melhor equipe fosse campeã.

Ser bom ou ser o melhor?

O Cuca é marcado por conseguir montar boas equipes, mas sempre bater na trave por demissões em grandes campanhas ou por “vices”. O nosso técnico tem que saber se manter bem e vejo como erro maior ainda ele não tentar ser o melhor.

Vi por ai que ele disse que o time que iria entrar em campo contra o Fluminense não precisava de treinamento, pois já tinha um padrão. Mas depois de 5 jogos que o padrão não dava certo, a resposta era ficar sentado esperando o padrão acordar da ressaca?

Mas ainda não está tudo perdido. Se pensarmos friamente, o Cruzeiro já foi por muito tempo freguês do Fluminense, como ano passado também perdeu para o time carioca no Rio. Perdemos para o Palmeiras também em casa nos anos de 2008 e 2009, e ainda conseguimos classificação para a Libertadores nesses mesmos campeonatos. E para o Figueirense… o Cruzeiro sempre perde pra time pequeno mesmo. O ano pode ser bom ainda como nos anos anteriores.

Mas essa “sina de ser bom” deveria ser sinônimo de “querer ser o melhor”. Há uma barreira pequena, mas muito resistente que separa os dois grupos e vejo que o Cruzeiro não insiste para que ela seja superada, infelizmente.

Luciana