O Goleiro

RaulTambém chamado de porteiro, guarda-metas, arqueiro, guardião, golquíper ou guarda-valas, mas poderia muito bem ser chamado de mártir, vítima, saco de pancadas, eterno penitente ou favorito das bofetadas. Dizem que onde ele pisa, nunca mais cresce a grama.

É um só. Está condenado a olhar a partida de longe. Sem se mover da meta aguarda sozinho, entre as três traves, o fuzilamento. Antigamente usava uniforme preto, como o árbitro. Agora o árbitro já não está disfarçado de urubu e o arqueiro consola sua solidão com fantasias coloridas.

Não faz gols. Está ali para impedir que façam. O gol, festa do futebol: o goleador faz alegrias e o goleiro, o desmancha-prazeres, as desfaz.

Carrega nas costas o número um. Primeiro a receber? Primeiro a pagar. O goleiro sempre tem a culpa. E, se não tem, paga do mesmo jeito. Quando qualquer jogador comete um pênalti, quem acaba sendo castigado é ele: fica ali, abandonado na frente do carrasco, na imensidão da meta vazia. E quando o time tem um dia ruim, quem paga o pato é ele, debaixo de uma chuva de bolas chutadas, expiando os pecados alheios.

Os outros jogadores podem errar feio uma vez, muitas vezes, mas se redimem com um drible espetacular, um passe magistral, um tiro certeiro. Ele, não. A multidão não perdoa o goleiro. Saiu em falso? Catando borboleta? Deixou a bola escapar? Os dedos de aço se fizeram de seda? Com uma só falha, o goleiro arruína uma partida ou perde um campeonato, e então o público esquece subitamente todas as suas façanhas e o condena à desgraça eterna. Até o fim de seus dias, será perseguido pela maldição.

Eduardo Galeano

(Futebol ao sol e à sombra)

Marcelo Oliveira: bom senso no comando.

Futebol é engraçado, né? Quando não tem elenco é complicado e quando se tem um bom elenco também é complicado.

Muitos reforços para 2013 - Foto: Washington Alves | Vipcomm

Muitos reforços para 2013 – Foto: Washington Alves | Vipcomm

Não é só esse começo do ano, mas todo o elenco do Cruzeiro tem um histórico de contusões bem grande… inclusive bons jogadores: Martinuccio, Borges, Dagoberto, Henrique (nos dois últimos anos), Victorino, Leo… e por ai vai. Os chinelinhos também.. (melhor não citar).

E ainda há os que gostam de cartão, como o Guerreiro, o Anselmo Ramon e por ai vai…

O Marcelo tem cara de ser um técnico que não dá regalias por causa de nome. Desde já, a escolha do Marcelo Oliveira se baseia em “quem está melhor e tem condições que vai a campo”.

Foto: Washington Alvez | Vipcomm

Foto: Washington Alvez | Vipcomm

Pelo andar da carruagem no futebol, será fácil todos terem oportunidade. E isso é bom até pra aumentar o rendimento dos próprios jogadores. Por exemplo: a zaga não teve reforço de peso, mas nos coletivos eles não enfrentam um WP, mas Borges, Luan, Vinicius Araújo – que vão querer mostrar serviço… Já nos treinos, eles (nessa situação: a zaga e os atacantes) são obrigados a melhorar bem a qualidade!

Neste sábado, o garoto Vinicius Araújo nem sabia se seria relacionado e muito menos se entraria em campo. Soube aproveitar a oportunidade que teve ao substituir o Anselmo Ramon, que havia machucado logo no primeiro tempo. Marcou gol, deu assistência e foi fundamental. Um jogo oficial bastou pra aumentar a dúvida pro Marcelo Oliveira.

No inicio do ano, entrei em um debate sobre o aproveitamento dos garotos da base. Defendia que não precisava de regalias para que pudessem ser aproveitados e deveriam ser observados de igual para igual, assim como todo o elenco. A oportunidade iria aparecer e bastava para eles saber como aproveitar.

Como foi para Vinicius Araújo e para Élber, que entrou pra desafogar o lado direito e tirar a falta de ritmo do medalhão Diego Souza de campo, grandes jogadores conseguiram as oportunidades em jogos assim contra uma Tombense da vida.

Vinicius Araújo e Élber - Foto: Alexandre Guzanche | EM

Vinicius Araújo e Élber – Foto: Alexandre Guzanche | EM

Em entrevista*, Tostão relata:

“O Cruzeiro tinha contratado Hilton Chaves, Brandãozinho e Fiapo, para montar o meio-de-campo para a temporada de 64. Eu e o Piazza éramos reservas e tínhamos poucas chances. Cheguei a estrear num jogo à noite no Barro Preto, mas ficou nisso. Sem uma sequência de jogos não dava para ganhar uma sequência no time. Mas os titulares foram sofrendo contusões, e eu e o Piazza entramos […].”

Com o Cruzeiro dos últimos anos não deveria ser diferente e o técnico Marcelo Oliveira deu seu recado em suas primeiras entrevistas deste ano: “entra quem estiver melhor”. De fato, é o que vem acontecendo, tanto para medalhões quanto para os oriundos da base.

Borges não tinha condições plenas pra jogo. Pra quê colocar o moço se ele ainda está 80%? Pra diminuir para os 60% e demorar um pouco mais pra se recuperar?

Estamos no campeonato mineiro… tempo para descobrir, entrosar e arrumar o time para campeonatos melhores e fases mais decisivas. É bom ver que o Anselmo Ramon, apesar dos “2” gols marcados em três jogos, sente medo de perder seu lugar no time. Fato que relata o contrário de quando havíamos o Wellington Paulista como camisa 9.

Outro caso relevante para esse início de temporada é a falsa sensação que goleadas trazem. Prefiro ganhar apertado jogando bisonhamente agora para corrigir os erros do que golear mascarando o que tem de errado e perder bisonhamente depois, assim como o Marcelo Oliveira disse em entrevista.

As entrevistas do Marcelo Oliveira estão sempre sensatas e de acordo com o que se espera do “professor”. Se mantiver a postura no que diz e no que faz, ele saberá conduzir esse bom elenco para o resto da temporada, e o que hoje é visto como “problema” terá uma boa solução.

*Entrevista retirada do livro “Página Heroicas – Onde a Imagem do Cruzeiro Resplandece”, 2003, DE Jorge Santana.

Luciana Bois

Conto de Natal e de Futebol

Futebol de Várzea - Foto: Gilson Camargo

Futebol de Várzea – Foto: Gilson Camargo

Tostão – Folha de São Paulo
26/12/2001

Era véspera de Natal. Pedro acordou cedo. Olhou-se no espelho e percebeu que estava muito mais velho, com os cabelos escassos, brancos, a barriga proeminente, a pele mais enrugada e com outras marcas da idade.

Pensou na juventude, em tudo o que sonhara fazer e não fez. Lembrou-se que escutara, em algum lugar, que deveria haver duas vidas: uma para ensaiar e outra para viver. Culpou-se por desejar tanto, já que se sentia feliz. Pedro é um operário da construção civil. Durante o trajeto de ônibus para o trabalho conheceu Maria, sua doce, alegre e bela companheira.

Apaixonaram-se. Tiveram um filho, João. Ela trabalha numa fábrica de tecidos. Pedro completara somente o curso primário, numa escola pública. É sensível, inteligente e muito bem informado. Ele e Maria adoram ler. Participam dos sindicatos de suas classes. Lutam por uma existência mais digna para eles e seus companheiros. Como são os mais esclarecidos, tornaram-se líderes comunitários. Nas horas de folga, trabalham na Rádio Favela, dão aulas de cidadania e orientam as pessoas a evitarem doenças sexualmente transmissíveis e o uso de drogas.

Pedro e Maria são pessoas diferentes. Ele mais realista e agnóstico. Ela, sonhadora e mística. Ambos sonham em salvar o mundo.

Pedro adora futebol. Juntamente com Maria e João, assiste a todos os noticiários e mesas redondas na TV comprada em 24 prestações e com juros exorbitantes. No sábado à noite, Pedro e Maria se divertem na mesa de um bar. Tomam cerveja e falam sobre futebol, filosofia, política.

João tem dez anos. Assim como o pai, se apaixonara pelo futebol. Assistiu à decisão do Campeonato Brasileiro pela TV e ficou empolgado. Para ele, venceu o melhor. O Atlético-PR é o melhor time do Brasil. A equipe marca muito em todas as partes do campo e é bastante ofensiva. Lembrou-se que o Alex Mineiro, jogador mais decisivo do campeonato, começou no América-MG, seu time do coração.

Alegria de criança - Foto: Jader Silva - fotografodigital.com.br

Alegria de criança – Foto: Jader Silva – fotografodigital.com.br

Assim como os pais, João é muito curioso. Antes de ir para a escola pública, aprendeu um pouco da história do Brasil e do mundo. Os sonhos do garoto não têm limites. Um dia, perguntou ao diretor de sua escola por que eles também não ensinavam coisas diferentes, sobre a vida e as pessoas. O diretor não entendeu.

Aos poucos, João descobriu que melhor ainda do que ir ao estádio e assistir aos noticiários da TV era se divertir com a bola.

Ele e outros garotos brincam num campo de terra, próximo da favela. Disputam campeonatos de embaixadas, dribles e chutes para o gol. Depois formam duas equipes, com oito para cada lado, sem posição.

Um dia, anunciaram que iriam abrir uma escolinha particular de futebol no bairro.

João correu para casa e pediu ao pai que o inscrevesse. Pedro colocou o menino no colo e lhe disse: “Filho, na escolinha há muitos meninos e todos aprendem as mesmas coisas. Você terá de fazer somente o que o professor mandar. Na sua idade, o mais importante e gostoso é brincar com a bola, sem regras e compromissos. É a melhor maneira de desenvolver a habilidade e a criatividade. Quando crescer e se houver jeito, poderá ir para as categorias de base dos clubes profissionais. Aí, vai aprimorar a técnica, escolher sua posição, conhecer a tática e fazer muitos exercícios físicos. No momento, seu corpo e sua mente ainda não estão preparados para assimilar essas coisas. Tudo tem a sua hora certa”.

Pedro completou: “Os grandes craques do futebol mundial aprenderam a jogar nas peladas de rua. Tudo o que fizeram de maravilhoso nos grandes estádios do mundo foram repetições do que aconteceu na infância”. João compreendeu. Eram pobres para pagar uma escolinha.

Era noite de Natal.

Pedro e Maria sentiam-se divididos. Gostavam de ver os sorrisos das crianças, a figura do Papai Noel, o brilho das luzes, mas não toleravam a generosidade transitória das pessoas. Era como se existisse uma data para celebrar a justiça social.

João dormiu e sonhou com uma partida de futebol. Já era adulto. O estádio estava lotado. Ele pegou uma bola na intermediária, driblou dois zagueiros e o goleiro e tocou para as redes. Era o gol do título. Idêntico ao que fazia na infância. Seu pai tinha razão.

João acordou e, ao lado da cama, viu uma bola de presente. Era de couro, novinha, igual à do sonho. Seus olhos brilharam.

Era feliz e sabia.

Natal SA

No fundo da alma

A memória é diferente da lembrança. Esquecemos muitas coisas, geralmente as que não queremos lembrar, mas elas continuam guardadas em nossa memória. De vez em quando reaparecem no sonho, nos atos falhos ou disfarçadas e encobertas em nosso cotidiano.

Há passagens em nossas vidas que não são boas nem ruins, porém marcantes e inesquecíveis. Lembro-me de uma quando era professor de medicina, orientador dos alunos do último ano e dos jovens médicos residentes, futuros especialistas em clínica médica.

No Hospital Universitário, havia um doente portador de asma brônquica. Ele não melhorava. O médico residente estava em pânico. Discutimos várias vezes o problema do paciente, trocamos os medicamentos, fizemos reuniões clínicas, estudamos a literatura recente, consultamos os especialistas -sem resultado.

Havia algo errado que fugia à nossa compreensão.

Uma noite, fui para o hospital conversar com o paciente. Queria conhecer melhor o doente, e não apenas a doença.

Aproveitei o silêncio e o sono de outros pacientes da enfermaria, sentei-me ao seu lado e batemos um papo. No final da conversa, após idas e vindas, confissões e recuos, ele me disse: “Doutor, o jovem médico que cuida de mim não tem culpa. Nem ele, nem você, nem ninguém vai resolver o meu problema. Não melhoro porque no fundo da alma não quero melhorar”.

Aí ficou claro. Ele precisava tratar não somente do corpo, mas também da alma.

O leitor deve estar curioso por que conto essa história. Em parte, porque estou sem assunto. Também me lembrei dela após ver o Oscar tornar-se o maior cestinha do mundo de todos os tempos e chorar de emoção.

Para ser craque, um fenômeno como o Oscar, não basta ter talento e a mão santa. É preciso desejar não somente com palavras, mas também no fundo da alma.

Oscar é um atleta entusiasmado, ambicioso e perfeccionista. Quer sempre jogar melhor. Ele simboliza a união da técnica e da garra.

Nesse momento, o pensamento voa, e retorno ao futebol. Além dos problemas técnicos, o que falta às equipes como Flamengo e Cruzeiro é desejar a vitória no fundo da alma. Ninguém entra em campo para não vencer, mas é preciso algo mais, como o Oscar. Há desejos e desejos.

As equipes do Flamengo e do Cruzeiro estão doentes. Como o paciente, elas precisam tratar também da alma. Antes que seja tarde.

Mudanças no futebol
Na semana passada, escrevi que as seis primeiras equipes do Brasileiro estavam quase classificadas.

Hoje, não tenho tanta certeza se o Palmeiras e o Fluminense vão passar para a próxima fase. Estão em queda e enfrentarão adversários difíceis.

Foto: Ramon Bitencourt | VIPCOMM

Celso Roth não aguentou a pressão. Um time que tem poucos excelentes jogadores e permanece durante todo o campeonato entre os oito primeiros merece mais elogios do que críticas.

O treinador não é excepcional nem burro. Está no nível dos principais técnicos do futebol brasileiro, o que não é lá grande coisa, já que a média é baixa.

Internacional e Vitória ocupam a sétima e a oitava colocação. A Ponte Preta tem o mesmo número de pontos, mas perde no saldo de gols. Essas e muitas outras equipes têm boas chances de se classificar.

O Internacional dirigido pelo Parreira é um time modesto individualmente, mas faz uma ótima campanha. A equipe sabe o que quer e o que pode. É essencial.

Um leitor conta-me, endossado pelo Parreira, que o jovem presidente do Internacional, Fernando Antônio Miranda, faz um belíssimo trabalho.

Assim como acontece com os técnicos, estão sendo formados novos dirigentes que serão importantes na reestruturação do futebol brasileiro.

Há outros. A cúpula do Atlético-MG, comandada pelo presidente Ricardo Guimarães e pelos diretores Alexandre Kalil e Bebeto de Freitas, melhorou as finanças do clube. Isso reflete nos gramados.

Estou otimista quanto ao futuro do futebol brasileiro.

Brevemente teremos grandes mudanças em todas as áreas, dentro e fora de campo.

Para isso, será preciso colocar pessoas com idéias novas na direção das federações, dos clubes, das ligas e da CBF -e que não queiram se aproveitar do futebol para dar outros saltos.

Coluna mais que atual escrita pelo Tostão no dia 21/10/2001 para a Folha de São Paulo.

Complexos

Já que tem muito tempo que nem atualizo o Squadra Azzurra, quis passar por aqui pra deixar uma nota sobre um livro que estou lendo do Marcos Guterman (ed. Contexto), chamado “O futebol explica o Brasil”.

Como diz o título, o esporte explica sim o país e nos apresenta a profissionalização e o amor que existe no esporte. Em vários momentos enquadrei diversas situações do Cruzeiro na trajetória da Seleção Brasileira enquanto lia e gostaria de compartilhar um pouco sobre o “complexo de vira-latas” e algo que nunca podemos desprezar a esperança, ainda que seja um pouco iludida.

Após o Maracanazzo em 1950, o brasileiro ficou receoso com o futebol de sua Seleção. Na Copa seguinte de 54, havia resquícios e medo do que havia acontecido em 50 e acabou sendo vergonhosa a participação da Seleção Brasileira naquele ano, sendo eliminada pela Hungria nas quartas de final

Para 58, o Brasil apostaria em um garoto de 17 anos cujo apelido intrigante era Pelé. Apesar de ser uma trio admirável do garoto com Vavá e Garrincha, a confiança do brasileiro ainda era pouca, já que, como diria José Lins do Rego em 1950 “O brasileiro é um adorador de vitórias, o homem que não admite fracasso”, a população ainda não queria confiar naquela Seleção, receosa de uma nova desilusão.

A crônica a seguir explica de onde vem a expressão “Complexo de Vira-Latas”, escrita por Nelson Rodrigues em 1958

Hoje vou fazer do escrete o meu numeroso personagem da semana. Os jogadores já partiram e o Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética. Nas esquinas, nos botecos, por toda parte, há quem esbraveje: – “O Brasil não vai nem se classificar!”. E, aqui,eu pergunto: – não será esta atitude negativa o disfarce de um otimismo inconfesso e envergonhado?

Eis a verdade, amigos: – desde 50 que o nosso futebol tem pudor de acreditar em si mesmo. A derrota frente aos uruguaios, na última batalha, ainda faz sofrer, na cara e na alma, qualquer brasileiro. Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente nada, pode curar. Dizem que tudo passa, mas eu vos digo: menos a dor-de-cotovelo que nos ficou dos 2 x 1. E custa crer que um escore tão pequeno possa causar uma dor tão grande. O tempo em vão sobre a derrota. Dir-se-ia que foi ontem, e não há oito anos, que, aos berros, Obdulio arrancou, de nós, o título. Eu disse “arrancou” como poderia dizer: – “extraiu” de nós o título como se fosse um dente.

E, hoje, se negamos o escrete de 58, não tenhamos dúvidas: é ainda a frustração de 50 que funciona. Gostaríamos talvez de acreditar na seleção. Mas o que nos trava é o seguinte: o pânico de uma nova e irremediável desilusão. E guardamos, para nós mesmos, qualquer esperança. Só imagino uma coisa: – se o Brasil vence na Suécia, e volta campeão do mundo! Ah, a fé que escondemos, a fé que negamos, rebentaria todas as comportas e 60 milhões de brasileiros iam acabar no hospício.

Mas vejamos: o escrete brasileiro tem, realmente, possibilidades concretas? Eu poderia responder, simplesmente, “não”. Mas eis a verdade: eu acredito no brasileiro, e pior do que isso: sou de um patriotismo inatual e agressivo, digno de um granadeiro bigodudo. Tenho visto jogadores de outros países, inclusive os ex-fabulosos húngaros, que apanharam, aqui, do aspirante-enxertado Flamengo. Pois bem: não vi ninguém que se comparasse aos nossos. Fala-se num Puskas. Eu contra-argumento com um Ademir, um Didi, um Leônidas, um Jair, um Zizinho.

A pura, a santa verdade é a seguinte: qualquer jogador brasileiro, quando se desamarra de suas inibições e se põe em estado de graça, é algo de único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção. Em suma: temos dons em excesso. E só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas qualidades. Quero aludir ao que eu poderia chamar de “complexo de vira-latas”. Estou a imaginar o espanto do leitor: “O que vem a ser isso?”. Eu explico.

Por “complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos “os maiores” é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Porque, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo. Na já citada vergonha de 50, éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a vantagem do empate. Pois bem: – e perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: – porque Obdulio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos.

Eu vos digo: o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender, lá na Suécia. Uma vez que se convença disso, ponham-no para correr em campo e ele precisará de dez para segurar, como o chinês da anedota. Insisto: para o escrete, ser ou não ser vira-latas, eis a questão.”

Acho que a primeira pessoa que tinha que tirar lição disso sou eu. =P

A emoção que faz falta

Reparei que em meus últimos textos aqui no Bloguerreiro adotei um tom melancólico e triste pela situação do Cruzeiro.

Pois bem… vou me explicar melhor.

Tenho 20 anos e sou totalmente apaixonada por futebol desde pequenininha. Assisto a qualquer jogo que seja quando posso, principalmente quando estou em casa em Belo Horizonte, e já até me arrisquei a jogar o esporte.

Eu paro pra assistir a campeonatos juniores, séries A, B, C… jogos do XV de Piracicaba e uns campeonatos da Ásia sem problema nenhum. Sou totalmente viciada em futebol.

Em toda minha vida presenciei a família Perrella na presidência, onde desde 1991 o Cruzeiro cresceu mais ainda com títulos importantes. Lembro da minha primeira camisa que tinha algo do Cruzeiro: tinha 6 anos, o Cruzeiro havia sido campeão da Libertadores de 1997 e meu pai me deu uma camisa do piu-piu (amava ele!) com a camisa celeste.

Lembro quando o Cruzeiro foi campeão da Copa do Brasil em 2000e todas as brincadeiras que desencadearam em minha escola e aos 10 anos; chorei com a despedida do Sorín contra o Atlético-PR em uma reportagem que o Globo Esporte fez lendo trechos da carta dele e mostrando a imagem do argentino subindo a escada rolante do aeroporto. Chorei como criança e eu era ainda criança.

Em 2003, aos 12 anos, foi a primeira vez que meu pai teve coragem de me levar ao Mineirão. Pra quê né? Olha o ano que foi! Lembro exatamente de tudo e mais um pouco. Em 2004, fiquei muito chateada com a saída do Alex do time e colei em minha porta do armário uma reportagem que dizia algo como “Um adeus ou até logo” de um jornal sobre o último dia do Talento Azul na Toca e uma foto dele com uma jaqueta jeans, mandando um “tchau”, na esperança que um dia ele voltasse (Fui tirar essa matéria da minha porta apenas 3 anos depois…).

Minha mãe diz que não entende toda essa minha paixão, mas eu sempre respondo: “Mãe, você ia a pé ao Mineirão só pra assistir o Cruzeiro quando era solteira e meu pai que, como cruzeirense, teve coragem de ir à final do campeonato brasileiro de 1971 no Maracanã só pra assistir à um bom futebol?!”.

Gosto de futebol não é pra ser maria chuteira ou pra me exibir tendo assuntos para falar em mesas de trabalho. Gosto de futebol porque gosto, simples assim.

Sou eternamente e extremamente apaixonada pelo Cruzeiro, sou daquelas que vou a Toca só pra ver um treino e ignorar os jogadores para pedir autografo. Gosto de ver futebol e participar de toda sua essência: ser torcedora, gritar, comemorar, passar noites em claro, cornetar e organizar minha agenda de finais de semana para que fique vago o horário do jogo.

Sou daquelas que assiste a qualquer jogo que seja em busca de um bom futebol e não cansa de assistir aos VT das finais da Copa do Brasil de 1996, 2000, 2003, Libertadores de 97 e por aí vai.

Quando tive que mudar de cidade para estudar, não escondi de ninguém que uma das minhas maiores tristezas era não poder mais acompanhar de perto o Cruzeiro. Mas ainda assim, quando vou pra BH dou um jeitinho de ir à Arena.

Quando peço raça e falo coisas pedindo a melhora do time, não é da boca pra fora. É de uma torcedora que não liga se tal jogador é bonito, tem dinheiro pra comprar uma Mercedes, tira onda com mulheres, ganha salários extraordinários, é casado com uma atriz famosa, foi craque de um campeonato passado ou se um presidente liga mais pra carreira política do que com o clube… mas é de uma torcedora que pede para que apenas honrem um sentimento que é inexplicável para muita gente com o futebol.

Não é mais esporte, é guerra. Não se batem duas equipes, mas dois povos, duas nações, duas raças inimigas. Durante todo o tempo da luta, de quarenta a cinqüenta mil pessoas deliram em transe, extáticas, na ponta dos pés, coração aos pulos e nervos tensos como cordas de viola. Conforme corre o jogo, há pausas de silêncio absoluto na multidão suspensa, ou deflagrações violentíssimas de entusiasmo, que só a palavra delírio classifica. E gente pacífica, bondosa, incapaz de sentimentos exaltados, sai fora de si, torna-se capaz de cometer os mais horrorosos desatinos.

A luta de vinte e duas feras no campo transforma em feras os cinqüenta mil espectadores, possibilitando um enfraquecimento mútuo, num conflito horrendo, caso um incidente qualquer funda em corisco as eletricidades psíquicas acumuladas em cada indivíduo.

Monteiro Lobato, Os 22 de marajó, 1921.

É jogo de sorte ou de futebol?

Sou “cruzeirocentrista”.

Não gostei de ver o Santos campeão da Libertadores, assim como não gosto de ver qualquer outro time campeão a não ser o que eu torço.

Como estou com saudade de ver meu time campeão com um título de verdade, sentir aquele aperitivo da melhor felicidade do mundo, de poder acordar de manhã e querer até falar mal do chefe porque nada tira aquela felicidade!

Mas por que não vem dado certo? Por que não fomos campeões em tantas oportunidades desde 2003? Por que somos tão iludidos por bons elencos no papel?

É óbvio que falta ser melhor que os melhores. Mas como?

Falta dinheiro pra contratar e/ou falta jogadores bons para contratar? Falta entrosamento? Falta técnico e/ou falta técnica? Estrutura? Menos juízes filhos da mãe? Afinal, falta o quê? Sorte?!

Aliás, essa tal de sorte (ou a ausência dela) esta sendo a camisa 10 do Cruzeiro. Tá danado!

Até quando ela será a culpada?

Se perde, foi culpa dela que não compareceu pro jogo, se ganha, foi ela também que colocou a bola na rede.

E a competência, quando vai substituir a sorte ou ao menos está jogando junto?

O Cruzeiro ganhou do Coxa e do Vasco, mas não me convenceu.

Quero mais! Ter ambição pela vitória e ser cruzeirense são sinônimos. É difícil assistir a um jogo torcendo mais pelo apito final do que tendo esperança por mais um gol. Eu gosto da vitória e também do bom futebol.

Você diria que saiu convencido que o Cruzeiro vá fazer um bom jogo contra o Grêmio quarta que vem? Eu não. Precisa melhorar, muito!

O Cruzeiro teve dois chutes contra o Vasco e fez 3 gols, sendo que um foi de pênalti.

Montillo fez gol em uma (belíssima) jogada individual, mas no resto dos 90 minutos estava muito bem marcado e ficava difícil a conexão com o ataque, além de ficar sem opção para jogadas ofensivas, o time se prendia lá atrás e investia apenas em contra ataque. Sim… Sei que esses esquemas fazem parte do futebol, mas não me convence que assim um time grande jogue e ganhe um campeonato.

Da mesma maneira que alguns pontos vêm, outros podem ir embora. Pode ser uma afirmação óbvia, mas espero que o Cruzeiro jogue mais para que não seja.

Precisamos manter os pés no chão, trabalhar dia por dia, jogo por jogo. Tostão diz que “os campeões são ambiciosos, perfeccionistas e lutam, obstinadamente, pela vitória.” Eu acrescentaria que “trabalham” pela vitória, não se contentam apenas com a sorte.

Não quero ficar satisfeita ao fim do ano apenas por ficar na frente do rival do outro lado da lagoa.

Só peço mais porque confio que podem bem mais.

 

Luciana Bois está feliz com a vitória, mas ainda deseja confiar mais nesse time.