90 anos: Foi mais uma noite infernal

Havia quem não acreditava que era verdade. O Cruzeiro, um quase desconhecido time de garotos, golear o Santos por 6 a 2 numa decisão da Taça Brasil? Não podia ser normal. Muitos acreditavam que o Santos deixou para o Pacaembu o seu grande futebol. Que em São Paulo, a zebra ia virar vingança. Na verdade, os próprios torcedores cruzeirenses não acreditavam que seu time de garotos pudesse vencer no Pacaembu.

 

O capitão Piazza, entre Hilton e Tostão, levanta a Taça Brasil ganha, com toda a justiça, no campo do inimigo. Era a consagração.

Chovia muito. Estava fazendo uma noite que não animava ninguém a sair de casa. Poucos cruzeirenses foram ver de perto o esclarecimento daqueles 6 a 2 no Mineirão. Realmente era difícil acreditar que um time brasileiro pudesse mostrar tanto poder ofensivo chegando a enfiar seis gols no Santos de Gilmar, de Mauro, de Lima, etc. Logo no ano em que o Brasil apresentou na Copa da Inglaterra uma incrível debilidade ofensiva, por falta de talentos.

Debaixo da chuva, lá entraram os dois times. O Cruzeiro com suas camisas brancas, o Santos de listras pretas e brancas. De cima, o gramado refletia a luz dos postes de iluminação, tanta era a água empoçada. Armando Marques achou que dava para jogar. E dava mesmo. Tanto que, com cinco minutos de jogo, o Santos estava fazendo o maior carnaval na defesa mineira. Tabelas, jogadas em profundidade, passes bem feitos. E os beques do Cruzeiro chutando para qualquer lado, lutando bravamente.

Esperou-se que, de um momento para o outro, Dirceu Lopes estourasse com uma de suas jogadas que já estavam ficando famosas e que facilitaram a marcação de três dos seis gols do Mineirão. Mas nada fazia Dirceu aproximar-se da área. Talvez a grama encharcada, pesada, que não o deixava dominar e partir para o ataque. Quando não era Zito a tomar-lhe a bola, era Oberdan.

E o Santos continuava pressionando. Pelé e Toninho envolviam a todo instante a William e Procópio. Raul fazia o que podia. Até com o pé fez defesas. Mas aos 23` não teve jeito. Pelé passou por William, entrou na área sozinho e chutou no canto: 1 a 0.

O Cruzeiro deu a saída, atacou com Natal mas ninguém aproveitou na área. Foi a repetição de lances anteriores. O Santos voltou a insistir e, aos 25`, foi Toninho quem, rapidamente, tabelou com Pelé, entrou na área e chutou fora do alcance de Raul: 2 a 0. Estava, enfim, definido o Santos que perdeu de 6 a 2: no Mineirão, estava em péssima noite. Mas, e o Cruzeiro, que não repetia a atuação anterior? O que acontecera? O certo era que os mineiros pareciam nervosos, inibidos no Pacaembu. E o Santos aproveitou.

Até o final do primeiro tempo, teve chances de descontar a goleada do primeiro jogo. Aos 40`, Pelé passou por Piazza e lançou Toninho entre Procópio e William. Raul saiu do gol e defendeu nos pés de Toninho. Aos 41`, Toninho acertou a trave direita, livre na área. Aos 43`, Pelé entrou sozinho, podia colocar mas chutou forte e Raul defendeu firme. Dorval substituiu a Amauri, fazendo imaginar que, no segundo tempo, o Santos seria mais forte no ataque.

Tostão caído na área entre a defesa santista

No intervalo, o vestiário do Cruzeiro parecia uma igreja. O silêncio era preocupante, enervante. Aírton Moreira, humildemente entregou os pontos:

– Eu não sei o que dizer. Façam o que vocês acharem que devem fazer. As coisas estão muito ruins.

Todos concordaram: estavam mesmo. Mas havia quem acreditasse na difícil virada. Quando subiam o túnel, Piazza começou a trocar idéias com Tostão, Procópio deu palpite, William concordou, Raul passou direto e o Cruzeiro entrou em campo de camisas secas, brancas, disposto a começar tudo de novo. A torcida do Santos – umas 20 mil pessoas que desafiaram a chuva – cantava alegre. Voltou o Santos, Pelé conversando com Zito e Toninho.

Com cinco minutos deu pra sentir a modificação: o Cruzeiro se arrumou no meio-campo, só Piazza ficou a vigiar Pelé. Dirceu soltou-se pela esquerda, Tostão caiu para a direita. Lima e Zé Carlos não podiam mais subir, Zito começou a correr de lado a lado, Mengálvio não pode subir. Então, o Cruzeiro armou-se e começou a atacar.

Aos 12`, depois de receber de Hílton Oliveira, Evaldo foi derrubado na área por Oberdan. Pênalti que Armando Marques marcou em cima. Era um alívio para Aírton Moreita lá no banco. O time melhorou mesmo e já podia marcar o primeiro gol. Tostão ajeitou a bola e, surpreendentemente, chutou fraco, perto das mãos de Cláudio, que fez a defesa. O lance acabou de desanimar quem ainda tinha esperanças. O Cruzeiro estava mesmo infeliz.

E o primeiro veio na cobrança de falta por Tostão. Oberdan faz cera, Evaldo quer a bola.

Mas o jogo continuou o mesmo. O Santos já não corria como no início. Zino dava sinal de estafa. Mengálvio não aguentava sozinho. Dorval não deu aquele ritmo esperado ao ataque. Pelé voltou e Toninho ficou a brigar com William e Procópio. Aos 19`, Natal recebeu curtinho de Tostão, ia passar por Lima e levou o sarrafo, perto da linha de fundo. Tostão preparou-se, três jogadores formaram a barreira. Por cobertura, Tostão mandou a bola no ângulo, quase sem visão do gol, enganando totalmente a Cláudio, que esperava um cruzamento: 2 a 1.

O gol despertou Dirceu Lopes. O baixinho começou a correr em frente à área, de um lado para o outro, procurando as tabelas com Evaldo, deixando o meio-campo inteiro para o excelente Piazza. E foi Dirceu que fez arrepiar a alegre torcida santista. Aos 28`, com uma ginga de corpo, tirou Joel da sua frente e chutou no canto direito. Era o empate impossível: 2 a 2.

Aí o Santos apavorou. E já não tinha mais forças para reagir diante de um time de garotos. O que Tostão, Dirceu, Lopes, Natal e Evaldo começaram a fazer foi exatamente o que Procópio queria: “Vamos cansá-los, vamos tocar que eles não aguentam o resto”. O técnico Lula não tinha o que fazer. Poderia reforçar a defesa, mas dispensara Carlos Alberto pouco antes da partida, escalando Lima na esquerda e Zé Carlos na direita.

Pelé e Toninho – sempre os dois – continuavam tentando, agora na base do desespero. Até de longe Pelé queria chutar, para tentar pegar Raul desprevenido, sem firmeza para segurar a bola molhada. A chuva havia parado e o campo virou um parque de lama. O jogo transformou-se num desafio de equilíbrio e emoção. O Cruzeiro, bem vivo, procurava ainda avançar com a velocidade de Natal e Hílton, e, chegando ao fim da partida, começou a insistir no desempate.

 

Natal entra pelo meio e faz o impossível, o terceiro gol, o da vitória, deixando Cláudio no chão, humilhado.

E, afinal, aconteceu a jogada que enterrou a vingança esperada do Santos. No puro heroísmo, sabendo que o minuto era o último da partida, Tostão passou por Lima e Zé Carlos, lá na esquerda, e da linha de fundo cruzou para Natal que se deslocara, também, para o meio. Na corrida, o ponta tocou firme, certeiro, para o fundo das redes: 3 a 2. O “ímpossível” aconteceu.

Ficou claro que o Cruzeiro é que soube vencer o Santos nas duas partidas. Que seu time era melhor, não só por ser mais jovem. Tinha o toque de bola completo, craques que poucos ainda conheciam mas que já faziam emocionar a torcida em Minas. A vitória realizou o sonho de ver a Taça Brasil – a última a ser disputada – parar em Belo Horizonte.

A festa durou uma semana. Os jogadores foram carregados no dia seguinte no aeroporto, desfilaram em carro aberto e começaram a conquistar todo o país. O futebol brasileiro não estava morto.

O Cruzeiro era o novo herói e a motivação nasceu de novo com aqueles craques que devolveram a emoção e a genealidade ao futebol brasileiro.

Crônica incrível da revista Placar de abril de 1979. Autor desconhecido.

Só para lembrar que, quando se trata do manto celeste, TUDO é possível.

Luciana