90 anos: Na hora H, valeu a molecagem

Continuando os posts comemorativos pelos 90 anos do Cruzeiro Esporte Clube, venho apresentar-lhes mais uma página heróica imortal, a decisão da Libertadores da América de 1976. Onde o caçula Joãozinho entra pra história devido à malandragem e a boa pontaria.

Mais uma vez, é de um artigo tirado da revista Placar de 1976 e fotos assinadas por Célio Apolinário. Boa leitura!

(Confira aqui os outros posts sobre os 90 anos do Cruzeiro)

Na hora H, valeu a molecagem

Era a decisão da Libertadores contra o temível River Plate. Para vencê-la, o Cruzeiro precisou de categoria, garra e malandragem.

Cruzeir: Raul, Nelinho, Morais, darci Menezes, Vanderlei, Piazza, Zé Carlos, Eduardo, Palhinha, Ronaldo e Joãozinho; River: Landaburu, Comelles, Artico, Lonardi, Urquiza, Sabella, Merlo, Alonso, González, Luque e Más.

Aqui estão eles, em Santiago. Frios, alegres, falantes, preocupados com umas comprinhas. E é um dia muito importante para o Cruzeiro – o da decisão da Taça Libertadores da América. Aqui estão os experientes, os garotos. E o comando de Zezé Moreira. Raul, Piazza, Nelinho, Zé Carlos, Vanderlei, Palhinha, Jairzinho, Joãozinho… Jairzinho está completando seis meses de clube. Sua contratação teve um objetivo: dar a malícia, a maldade até, que faltava ao Cruzeiro para ganhar a Libertadores. E Jair, neste dia importante para o Cruzeiro, está de fora. Expulso no jogo anterior, em Buenos Aires, juntamente com Perfumo, ele cumpre a suspensão automática. Mas não perdeu a confiança.

“Vamos ganhar deles. Vamos ganhar porque somos melhores. E, aqui em Santiago, não precisamos jogar mais que jogamos lá em Buenos Aires.”

Em Belo Horizonte, no primeiro jogo, o Cruzeiro goleou: 4 a 1. No segundo, em Buenos Aires, dois erros, dois erros do juiz deram a vitória ao River: 2 a 1. A decisão, em campo neutro, é no Chile, no Estádio Nacional de Santiago. A torcida tende mais para os brasileiros – é um modo de opor-se à excessiva gritaria, ao excesso de autoconfiança dos quase 10 mil argentinos que invadiram a cidade. Envolveram-se em bandeiras argentinas ou do River, espalham-se pelas ruas, espantam o frio com sucessivos tragos de vinho. E cantam incansáveis:

Ou marcavam Nelinho ou aguentavam a bomba.

“Vamos, vamos, Argentina
Vamos, vamos a ganar
Esta barra quilombera
No te deja,
No te deja de alentar”

Os poucos cruzeirenses que conseguiram chegar a Santiago rodam pelas ruas, metem-se a conhecer a cidade, reconhecíveis apenas pelas roupas coloridas. À noite, vão para o estádio, mas poucos levam bandeiras.

Começa o jogo, descobre-se a ajuda da torcida chilena, os cruzeirenses se multiplicam. Logo, vão sofrer, vão descobrir que Jairzinho faz muita falta ao ataque.

“Não tem nada, não. O Palha vai dar um jeito nesses caras.”

É Jairzinho quem fala, colocado ao alambrado. Em seu rosto, se pode ler cada jogada, cada tentativa, cada drama de Palhinha em sua luta contra um beque de quase dois metros de altura, que o derruba em cada disputa de bola. A solução se começar a deslocar-se para as pontas, na tentativa de abrir espaços para Zé Carlos e Ronaldo, que estão vindo de trás.

O River, com uma defesa nervosa, joga no contra-ataque. Mas encontra um Cruzeiro firme, cada jogador guarda sua posição – bem do jeito que Zezé Moreira quer. Então, vai ser questão de tempo, de espera pela chance. Ela vai aparecer, ninguém tem dúvida.

Joãozinho estava infernal: deixou seu marcador sentado e fez um gol de moleque

Os argentinos vêem mais uma vez que o perigo se chama Joãozinho, que faz o que quer com Comelles, e ainda atrai mais um ou dois marcadores. E a torcida chilena, que há muito não via um ponta tão bom de bola, tão rápido, tão esperto, vai gostando do jogo, está percebendo que, pelo caminho da simpatia, está, ao mesmo tempo, apoiando o melhor time, um time cuja categoria até o River aprendera a respeitar.

Mas é só categoria? Nada disso. Agora- e isso o River ainda não conhecia – está valendo tudo: quando não é na classe, é na raça.

Vai sair o primeiro gol. Um gol que é bem brasileiro, que é bem argentino. Eduardo mostra a Urquiza o que é um rabo-de-vaca – e cruza para Palhinha que espera na marca de pênalti. No puro reflexo, Urquiza corta o cruzamento com a mão, dentro da área.

Pênalti – e entra o estilo portenho. Aos gritos, Merlo e Oscar Más reclamam. Transfiguram-se, fazem o ar da honestidade ofendida, dão peitadas no juiz. Mas não tem nada. Nelinho já vai ajeitando a bola, já corre para ela e manda a sua bomba, no canto direito.

Cruzeiro 1 a 0, aos 24 do primeiro tempo. Agora, se o River for a sério em busca do empate, deixará mais livres o endiabrado Joãozinho, o oportunista Palhinha, o raçudo Ronaldo.

Palhinha é outro jogador. Neste jogo, ele se completa, chega à perfeição. A raça, a presença de sempre – mas uma novidade: a paciência, a espera. Passa por Lonardi, o grandalhão, e é derrubado. O joelho está vermelho das pancadas, o uniforme sujo de tantas quedas. Mas não perde a cabeça, como já aconteceu tantas vezes, em tantas decisões.

Mas não é só Palhinha. É o Cruzeiro inteiro que dá uma lição de como jogar uma decisão.

A alegria de Joãozinho, Raul e todo mundo.

Com 1 a 0 e um ambiente cada vez mais tenso, começa o segundo tempo. Tudo como antes. No meio, o revezamento, as constantes deslocações de Eduardo, as avançadas de Zé Carlos. Na área do River, Palhinha, sozinho, lutando com os gigantes Lonardi e Ártico. E o River desesperado, buscando o empate. E não há dúvida: se os argentinos chegarem a marcar, vai começar o grande festival da catimba.

Seu Zezé, no banco, é a personificação de um contraste: o corpo imóvel, as rugas imobilizando aquela máscara de sofrida paciência, mas os olhos vivos, inquietos. Ele havia dado, menos que uma ordem, um conselho a Ronaldo (“Não se prenda tanto à ponta, tente chegar um pouquinho mais para o meio”). Agora, em silêncio, ele vê que Ronaldo, ele vê que Ronaldo se chega mais a Palhinha – e, aos 10 minutos, avança pela meia-esquerda, tira Comelles da posição e, ao chegar perto da área, marcando por Ártico e combatido pelas costas por Merlo, rola para Eduardo, que se infiltra pela direita.

O chute sai certeiro, forte, de primeira. Landaburu voa para a direita, mas a bola passa longe de seu alcance, fica balançando a rede lá no alto. E o time todo do Cruzeiro se junta num abraço, festejando o desespero argentino.

Parece que o River está liquidado. Mas não. A correria, a gana, a busca do gol não cessa. O Cruzeiro acalmasse, o River vem com raiva. E é com raiva que Luque entra pela área, tentando limpar a barra no peito. À sua frente, Morais – e Luque é derrubado. Pênalti, aos 13 do segundo. O baixinho Oscar Pinino Más, pouco fôlego, bastante classe, notável malícia, coloca a bola, mandando Raul para um canto e chutando em outro. Marca e corre para buscar a bola, com pressa, na gana. Mas é logo substituído. Sai desgostoso, os companheiros dão toda a impressão de abatimento.

Mas essa impressão dura pouco. Lá está, novamente, o ataque do River, forçando, confrontando sua fúria com a calma, que começa a ser enervante, do Cruzeiro. Do lado brasileiro, é fora do campo que as coisas começam a se modificar. Do alambrado, vêm os gritos de Jairzinho:

“Vamos, gente. Pau neles!”

Piazza, Zezé e Palhinha no vestiário

Do banco, vêm os gritos de um Zezé que se transforma, que agora não aconselha, ordena:

“Cuidado com as pontas.”

O Cruzeiro começa a desconfiar do juiz chileno. Alberto Martínez chama a atenção dos brasileiros, com vigor, e não fala nada com os argentinos. A cada falta, se percebe a diferença. E aos 17 ele marca mais uma, na ponta direita, a uns 10 metros da área. Ao mesmo tempo, mostra cartão amarelo a Darci Menezes. E, enquanto faz a anotação em seu caderninho, Comelles cobra forte para a área, a defesa do Cruzeiro está parada, Urquiza, o outro lateral, entra e manda para a rede.

É o empate. De nada adiantam as reclamações de Piazza, de Raul, dos outros – o juiz não havia autorizado a cobrança.

“Cuidado com as pontas.” Seu Zezé, ainda uma vez, tinha razão. E o gol que confirma sua intuição vai ficar como um nó na garganta de todos os brasileiros que estavam no estádio.

No River, desperta a alegria. No Cruzeiro, se adensa o drama. No meio, come a guerra. Briga-se pela bola, o Cruzeiro, esquecido do toque e da classe, sobe, assume a raiva. A bola só vai sobrar para um argentino depois que um argentino ficar caído. Ninguém quer deixar para depois, para a prorrogação. Quem pega a bola, tenta jogar de primeira. A cada apito do juiz, um berro de Zezé – e o Cruzeiro novamente crescendo, novamente dominando.

Nelinho, por duas vezes, tenta – e quase consegue -, de fora da área, surpreender Landaburu. Aos 39, cobra para fora uma falta de Merlo em Ronaldo.

Fim de todos os receios, de todos os motivos de tensão. O jogo acabou e o Cruzeiro é o novo campeão da Libertadores da América. Na distante Santiago do Chile, os jogadores se ajoelham e comemoram a grande conquista.

Mas é aos 42 que virá a sequência de lances capaz de resumir uma partida, de marcar uma diferença, de consagrar um estilo, de fazer da vitória do Cruzeiro uma vitória brasileira.

Batido, sem ninguém na cobertura, Ártico chuta Palhinha por trás. Alberto Martínez apita, anota o nome do argentino – enquanto Nelinho ajeita. É a última chance, o esforço definitivo. Lonardi comanda a barreira, olhando para Landaburu – e nenhum dos argentinos vê quando o moleque Joãozinho, passando à frente de Nelinho, entra na corrida e chuta para as redes.

Os argentinos nem se mexeram, o time todo do Cruzeiro começou a correr atrás de seu ponta, vendo que Martínez já apontava o meio do campo.

Era o gol salvador, o gol da molecagem, “o gol da irresponsabilidade”, como dizia Zezé Moreira.

Sujos, bêbados de alegria, os jogadores se abraçam à Taça Libertadores. No vestiário, Ronaldo, expulso no último minuto de jogo, grita com Jair:

“Ganhamos. Eu sou pé quente.”

Todo ferido, Palhinha desabafava:

“Valeu a pena agüentar aquele grandão me sarrafando o tempo todo”.

Joãozinho, segurando a camisa 5 de Merlo, explica o seu gol:

“Eu vi que o goleiro estava fora da jogada. Se o juiz não mandou cobrar a falta no gol do River, não ia eu esperar que ele mandasse cobrar a nossa. Achei que ninguém esperava que eu cobrasse. E não esperava mesmo.”

E então, na malandragem final, na categoria bem brasileira, finalmente o Cruzeiro ganhou o tão sonhado título: campeão da Taça Libertadores da América. Uma festa só, que Belo Horizonte comemorou até o sol nascer. Uma festa que, além do Santos de Pelé, só o Cruzeiro conseguiu fazer no País do Futebol.

 

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90 anos: As primeiras estrelas do manto celeste


Vamos falar aqui sobre excelentes figuras. Quatro homens que souberam honrar a camisa que vestiram. Um deles vestiu a camisa tricolor (branco, vermelho e verde) do ex-Palestra Itália de Minas Gerais: era Niginho, que jogou durante cinco anos pelo Lázio de Roma e, na sua volta para o Brasil, ajudou seu clube do coração a ser campeão pela última vez com o velho uniforme e o velho nome. Outros três honraram a camisa azul: Abelardo, Tostão e Dirceu.

Leonídio Fantôni não era um nome conhecido em Belo Horizonte. Mas Niginho… Niginho era um gênio e todos os torcedores na sua época tinham uma jogada dele para contar. Leonídio Fantôni, o Niginho, membro de uma família onde quase todos os homens viveram e vivem pelo futebol (Ninão, Nininho, Orlando, Fernando, Benito, etc.), começou jogando no Palestra, a convite do seu irmão Ninão, foi para o Lázio, da Itália, em 1930. Ficou lá até 1935.

Durante sua permanência na Itália, Niginho foi um ídolo em Roma, talvez mais do que era em Belo Horizonte, que deixou com 20 anos apenas. Identificava-se com o povo de seu país, mas não aceitou o chamado de Mussolini para a guerra na Abissínia. Lutou contra a exigência do ditador e, quando o primo Nininho morreu – em conseqüência de uma grave contusão sofrida no jogo Lázio x Torino – resolveu deixar a Itália.

Segundo o cronista e escritor Plínio Barreto em seu livro “Futebol no Embalo da Nostalgia”, Niginho provocou verdadeiro delírio entre os torcedores pela sua volta ao Palestra. Desde que foi para a Itália, ninguém deixou de acompanhar sua carreira e torcia pela sua volta. Quando novamente vestiu a camisa verde e vermelha do Palestra, o Clube começou a reerguer-se, pois, desde que Niginho viajara para a Itália, não foi possível ganhar mais nenhum título. Em 40, novamente, o Palestra foi campeão – último antes da troca de nome.

Niginho era um jogador de invejável categoria, centro-avante artilheiro, tipo oportunista, que não deixava o goleiro picar a bola no chão sem tentar mandá-la para as redes. Segundo Plínio Barreto, Niginho decidiu uma partida entre Mineiros e Cariocas, em Álvaro Chaves, no Rio, assim: “Estava 3 a 3 e ele pegou uma bola na sua intermediária e saiu driblando. Passou por um, veio o segundo, o terceiro, foi embalando, chegou na área, passou por outro, deixou o goleiro caído e só parou quando esbarrou nas redes”. Assim era Niginho, o “Menino Metralha”.

Quando o rapaz Abelardo Dutra Meirelles entrava em campo, parecia que ia para alguma festa. Chuteiras engraxadinhas, cadarço com pontas aparadas, calção com vinco, bem passado, camisa sem dobras e o cabelo amparado na mais fina brilhantina. “Olha, a camisa dele é mais azul”, diziam as meninas, que o adoravam.

Abelardo não era só elegante e boa pinta. Na sua primeira partida pelo Cruzeiro, em 1947, ganhou o amor de sua torcida com o novo estilo de jogar futebol, uma nova maneira de marcar gols: de estilo, de placa, bonitos e frios. Abelardo era veloz, franzino e hábil. Sua colocação em campo era perfeita, ele sabia exatamente onde a bola ia cair. E, se ele subisse para uma cabeçada, quase sempre era gol. Era o “Flecha Azul”.

Dizem que, de tanto ler notícias sobre Heleno de Freitas, acompanhar pelos jornais e revistas da época a vida do grande ídolo botafoguense, Abelardo acabou assimilando seu estilo de jogar. É lógico que era uma simples coincidência, mas quem sofria com isso era o Atlético, pois Abelardo melhorava sempre.

Certa vez, após um clássico entre os dois rivais, no Estádio Antônio Carlos (campo do Atlético), Abelardo teve de ser escondido pelos próprios jogadores atleticanos, em seu vestiário, para evitar que a torcida linchasse à saída do estádio. Abelardo havia decidido mais um Atlético x Cruzeiro. Sua fama já ia longe. Seu conselheiro e técnico foi Niginho – que só parou de jogar quando Niginho apareceu e mostrou que a camisa de Niginho tinha um herdeiro competente.

Apesar de craque, Abelardo tinha um gênio difícil e as coisas que não agradavam ele não fazia. Se discordava de alguma coisa, era briga. Quando o Cruzeiro vendeu seu passe ao Palmeiras, em 1950, por 150 contos, ele logo conquistou o Parque Antarctica, mas brigou em seguida. Foi emprestado para o Santos, mas isso acabou favorecendo sua decisão de voltar a Belo Horizonte e ao Cruzeiro. Encerrou sua carreira em 1959, como campeão mineiro.

Eduardo Gonçalves Andrade era tão pequenininho quando começou a jogar futebol entre gente grande, a marcar gols e fazer jogadas incríveis, que logo ganhou o apelido de “Tostão”. Fora de casa, ninguém mais o chamava de Eduardo. “Olha lá o ‘Tostão’ com a bola. Veja o que ele vai fazer…”. Onde quer que aparecesse o menino chamava a atenção. Crescendo, foi levado para jogar futebol de salão no Cruzeiro, de onde foi para o juvenil do América.

Em 1963, ao projetar para o Cruzeiro um grande time, compatível com o novo estádio que estava sendo construído em Belo Horizonte – o Mineirão –, o presidente Felício Brandi usou toda a sua sabedoria de dirigente para levar Tostão para o Cruzeiro. Conseguiu e o entregou ao técnico Mário Celso de Abreu. Logo, logo, Tostão tornou-se titular. E começou a surgir um dos maiores jogadores do futebol brasileiro em todos os tempos.

Amadurecendo, Tostão foi conquistando seu público, deixando os adversários admirados, levando o Cruzeiro a históricas vitórias. Na inauguração do Mineirão, ele já era o comandante da equipe que conquistou o novo estádio e que exportou a fama de um novo estádio e que exportou a fama de um novo futebol que estava nascendo, o de Minas. Tornou-se o primeiro jogador de clube mineiro a disputar uma Copa do Mundo pela Seleção Brasileira – em 66, na Inglaterra. Depois, nunca mais deixou de ser convocado. A partir de 68, foi titular absoluto, ao lado de Pelé.

Formou com Dirceu Lopes uma das maiores alas de atacantes do futebol brasileiro, atraindo milionárias propostas de mais de dez clubes do país e do exterior. Sério, calado, inteligente, interessado pela cultura científica, preocupado com a sua formação intelectual, caseiro, amante da vida em família, Tostão não chegou a ser popular como Dirceu, mas conquistou todos os torcedores do futebol brasileiro com seus gols sensacionais – pelo Cruzeiro e pela Seleção – e seu talento genial de um dos mais completos craques do futebol brasileiro.

Viveu um intenso drama em 1969, quando a retina de seu olho esquerdo descolou-se e ele teve de ser operado nos Estados Unidos. Muitos – inclusive o novo técnico da seleção, Zagalo, e o médico Lídio Toledo – não acreditavam na sua recuperação para o futebol. O tratamento foi eficiente e, um ano depois, comandou o ataque do Brasil que conquistou o tricampeonato mundial no México.

Em 1972, quando Iustrich foi contratado para técnico, começou o desligamento de Tostão no Cruzeiro. Afinal, ao encerrar-se uma discussão de quase 30 dias seguidos, o presidente Felício Brandi concordou em vender seu passe ao Vasco da Gama pelo preço recorde (até aquela época) de Cr$ 2,5 milhões. Um ano mais tarde, ao ser novamente examinado nos Estados Unidos, descobriu-se que sua retina estava fragilmente adaptada e a continuidade da sua função como jogador poderia precipitar sua deformação, com risco para sua vista.

Aos 27 anos, ao lado de sua mulher em Houston, no Texas, Tostão decidiu parar de jogar futebol. Frustrando os vascaínos, encerrando uma das carreiras que mais alegrias deu à torcida cruzeirense. Em 1979 ele se formou em medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais.

Depois de tantos anos sem ter um verdadeiro ídolo, sem ver o time chegar a gloriosas conquistas, finalmente surgiu o suvessor de Abelardo “Flecha Azul” no Barro Preto. Dirceu Lopes Mendes, de Pedro Leopoldo, que gostava de brincar com a garotada, que não sabia dizer um “não”, que nunca deixava de sorrir ou de dar uma resposta elegante. Um comportamento tão elevado quanto o futebol que, nos gramados da cidade, ele começou a exibir em 1964, recém-saído do time juvenil campeão.

Dirceu Lopes transformou-se logo no grande ídolo cruzeirense. Um gênio, ainda que chegasse a dividir com outros jogadores as glórias de um talentoso e genial futebol, ele alcançou uma posição que só Niginho e Abelardo atingiram: a identificação com o povo. Ainda que fosse um pouco tímido, sempre teve a coragem de enfrentar as situações impróprias, de atender a todos, de viver abertamente. Consciente de suas obrigações profissionais, nunca teve de ouvir críticas ou broncas. Foi o modelo ideal do jogador.

Formou com Tostão e Piazza o trio mais eficiente que o Cruzeiro já teve no meio-campo, em todos os tempos. Sua visão de gol, sua rapidez e os dribles curtos e surpreendentes deram centenas de vitórias e vários títulos para o Cruzeiro. No time profissional, foi nove vezes campeão mineiro, campeão da Taça Brasil e campeão da Taça Libertadores da América. De 1967 a 1973 fez parte da Seleção Brasileira, convocado todas as vezes que se armava a equipe. Dispensado na véspera da Copa de 1970, deixou de realizar seu grande sonho: ir a um Mundial.

Titular absoluto de todas as seleções mineiras, eleito 12 vezes o melhor meia-armador de Minas Gerais, três vezes escolhido como o melhor da posição no campeonato brasileiro (“Bola de Prata” da Placar), Dirceu Lopes teve de construir uma vitrine na sala de sua casa para que coubessem todos os troféus de sua carreira.

Em 1975 sofreu uma grave contusão no calcanhar, rompendo o tendão de Aquiles, que obrigou Dirceu Lopes a parar por mais de 13 meses. Voltou, aos 30 anos, jogou mais um ano e, ao reformar seu contrato, ganhou passe livre. Jogou ainda no Fluminense e no Uberlândia, encerrando em outubro de 1978 a sua brilhante carreira para dedicar-se exclusivamente a sua família e a sua fábrica de camisas em Pedro Leopoldo.

Time campeão da Libertadores da América de 1976

90 anos: E nasceu o Cruzeiro forte

Ainda em comemoração aos 90 anos do Cruzeiro, a seguir o artigo sobre a história do Cruzeiro na ótica da mesma revista Placar até 1979. Para quem ainda não conhece, se divirta! Para quem já conhece, sempre há algo novo e nunca é demais relembrar a nossa história.

Já estou separando os textos para lhes contar a história do Niginho, o “Menino Metralha”; e Abelardo, o original “Flecha Azul”.

E nasceu o Cruzeiro forte

Aos 22 anos, Belo Horizonte era uma cidade que buscava meios de reunir suas colônias através de clubes. Os passeios dominicais sob as árvores da Avenida Afonso Pena não satisfaziam. Os portugueses tinham seus grupos e se reuniam no Lusitano Athletic Club. Os estudantes universitários, gente fina da sociedade, faziam parte do América Futebol Clube, o melhor time de futebol da capital. O povo, gente que se misturava sem preconceitos ou crenças, ricos e pobres, vibrava com o Atlético Mineiro.

Os italianos eram os únicos estrangeiros que se misturavam – e não gostavam. Parte deles – e eram muitos – pertencia a um clube de estrutura frágil e que inspirava pouca amizade de seus membros. Era o Yale Athletic Club, que tinha sua sede esportiva no Barro Preto e fazia suas reuniões noturnas na fábrica de calçados Ranieri & Filhos, na rua Caetés. Ali eram tratados os assuntos de futebol e tomadas as providências rotineiras. E o grupo mais assíduo já estava aborrecido com a pouca expressão do Yale, que não tinha uma filosofia própria. Esse grupo era formado por imigrantes italianos e seus filhos.

Uma grave crise, finalmente, abalou o Yale. Sócios e atletas em grande número se demitiram. Os italianos decidiram seguir o caminho o caminho aberto pelo Palestra Paulista, que em 1914 foi fundado para reunir, exclusivamente, a colônia italiana de São Paulo. A idéia de se fundar o clube dos italianos em Belo Horizonte foi liderada pelo grupo que mantinha constante aquelas reuniões na fábrica de calçados: Nulo Savini, Júlio Lazzarotti, Domingos Spagnulo, Amleto Magnavacca, Sílvio Pirani, Arduino Pirani, Henriqueto Pirani e João Ranieri – o dono da fábrica.

Eles preparam tudo e marcaram um encontro da colônia para o dia 20 de dezembro de 1920, na sede da Società Italiana Dante Alighieri – no prédio onde já foi a Assembléia Legislativa e, atualmente, á a Câmara Municipal. Compareceram 92 pessoas, que discutiram todos os detalhes e marcaram nova reunião para o dia 2 de janeiro de 1921.

Palestra nos anos 30: o primeiro à direita é Orlando Fantôni, o quarto é Niginho

No dia 2 de janeiro decidiram todos os detalhes importantes para a criação do novo clube e, finalmente, estava fundada a Società Sportiva Palestra Italia, com a seguinte diretoria: Aurelio Noce, presidente; Giuseppe Perona, vice-presidente; Bruno Piancastelli, secretário; Aristótelis Lodi, tesoureiro; João Ranieri, Domingos Spagnulo e Antônio Pace, comissão de esportes. Foi tomada uma decisão que muito limitou o crescimento e simpatia do clube: somente eram aceitos no quadro social ou esportivo os italianos natos ou seus descendentes diretos.

Definitivamente extinto, o Yale cedeu todos os seus atletas – italianos, claro – ao Palestra. Outros jogadores da mesma origem que jogavam no Atlético Mineiro, Guarani, Ipanema e América transferiram-se para o Barro Preto: estava, assim, formado o quadro de futebol do Palestra Itália. Restava tratar da sua filiação à Liga Mineira de Desportos Terrestres (LMDT). Na época já havia a primeira e a segunda divisão. Os clubes menores, que viviam sem estrutura formada, pertenciam à segunda. O Palestra queria entrar, de cara, para a primeira divisão.

Por imposição da LMDT, o novo clube teve de submeter-se a um exame de admissão: enfrentar o último colocado da primeira divisão e o campeão da segunda. Se perdesse uma partida seria reprovado. Primeiro, o Palestra enfrentou o mais forte, o Ipanema, último classificado da primeira divisão. Venceu brilhantemente por 2 a 1. Depois, provocou delírio entre os italianos ao derrotar o Palmeiras, campeão da segunda, por 3 a 2.

Niginho, (aqui, ao lado de Domingos da Guia) era de driblar toda a defesa contrária

Nulo, Henriqueto e Polenta; Grande, Galo e Quinino; Pederzolli, Parisi, Nani, Atílio e Armandinho. Com este time o Palestra iniciou sua campanha oficial na LMDT, derrotando o Atlético Mineiro por 2 a 0 e o Morro Velho – time dos ingleses da mina de ouro de Nova Lima – por 2 a 0. Depois perdeu para o Morro Velho, em Belo Horizonte, por 2 a 1 e 1 a 0. Logo após, o governo estadual desapropriou o terreno herdado do Yale e o Palestra comprou o quarteirão ao lado, que pertencia à Prefeitura, por 50 mil réis, para construir o seu estádio. Teve de indenizar com 12 mil réis um plantador de couve que cultivava uma imensa hosrta no local. Construído o campo, o Palestra convidou para um jogo o Flamengo, do Rio, com quem empatou em 3 a 3. Na preliminar o América derrotou o Atlético por 2 a 0, jogando com time reserva.

Em 1926, a diretoria resolveu suspender a antipática cláusula estatuária que só permitia a filiação ao Palestra de sócios ou atletas italianos. O clube tomou, então, um grande impulso. Resultado: foi tricampeão da LMDT, revelando um dos maiores craques de Minas em todos os tempos – Niginho, o grande ídolo que logo seria levado para o Lázio, da Itália. O nome do clube deixou de ser escrito em italiano. Passou a ser Sociedade Esportiva Palestra Itália. Entretanto, o início da Guerra Mundial forçou, em 1941, nova modificação no nome do Palestra, que passou a ser Mineiro.

No ano seguinte, o Brasil cortou relações que mantinha com os países do eixo – Alemanha, Itália e Japão. Por determinação do governo federal, o Palestra trocou seu nome novamente.

Sem consultar o Conselho, arbitrariamente, o presidente Enes Ciro Poni decidiu rebatizar o clube com o nome Ypiranga. A idéia foi rejeitada e, semanas depois, em Assembléia Geral, decidiu-se que o clube passaria a se chamar Cruzeiro Esporte Clube.

Daí para a frente,, fortificou-se um novo clube em Belo Horizonte. Não era mais, simplesmente, o clube dos italianos. Era uma sociedade eclética, que logo implantou os esportes amadores e foi construindo o patrimônio do clube. As cores novas – azul e branco (o vermelho e o verde foram eliminados) – já eram vistas em bandeiras e flâmulas que se espalhavam pelo Barro Preto, um bairro que crescia e adotava o Cruzeiro como seu símbolo.

Em 1945 foi novamente tricampeão de futebol, enquanto que, nos outros esportes, o Cruzeiro brilhava. Foi se formando a tradição até que, com o terceiro tricampeonato, levantado em 1960, o clube entrou definitivamente para a fantástica história do esporte brasileiro. Um novo e dinâmico torcedor, que soltava rojões e agitava bandeira em treinos, foi eleito presidente: o italiano Felício Brandi. A partir do dia da sua posse, Brandi começou a reconstruir o Cruzeiro com o seu espírito corajoso. Primeiro, um frande time de futebol. Depois, o resto. E assim fez.

O grande time (Raul, Pedro Paulo, William, Procópio e Neco; Piazza e Dirceu Lopes; Natal, Evaldo, Tostão e Hilton Oliveira) começou ganhando a Taça Brasil de 1966 e, aí, o clube já era dono de um invejável patrimônio. […]

 

90 anos: o que nos representou 2010?


Chega ao fim a temporada número 90 do Cruzeiro Esporte Clube.

No dia 2 de janeiro completaremos 90 anos de glórias por essas terras de Minas, um clube ítalo-brasileiro que conquistou em poucos anos o Brasil e a América. Privilégio único nessa terra das alterosas.

Começo aqui uma singela homenagem a essa agremiação que começou com um pequeno grupo de italianos e hoje move com a emoção de 8 milhões de torcedores.

Nem sempre serão textos de nossa autoria, poderá ser reportagem, crônica (como a que foi transcrita semana passada na Squadra sobre a final de 66), imagem… por isso peço a ajuda e que entrem em contato quem tiver material que exalte a nossa história.

E hoje, gostaria de exaltar a nossa página mais recente: a temporada de 2010, onde conhecemos um verdadeiro espírito de guerreiros em campo.

O que nos representou 2010?

Após o baque da derrota na final da Libertadores da América de 2009, a moldura de um time campeão vinha ao campo no segundo turno do campeonato brasileiro do mesmo ano. Após uma arrancada histórica, o Cruzeiro conquista a última vaga para a Libertadores do ano seguinte, caindo na etapa classificada como “pré-libertadores”.

A sua primeira vitória do ano foi conquistada sobre o Uberlândia com uma sonora goleada por 6×0, sinal de que seria um ano diferente. Mas as atenções estavam voltadas para a Pré-Libertadores e, após conseguir um empate em condições adversas na Bolívia, conquistou a incrível vitória por 7×0 sobre o time Real Potosí, recorde de diferença de gols celeste no campeonato continental.

Com o objetivo na conquista do Tri na Libertadores da América, o campeonato mineiro foi preterido diante da competição internacional e a equipe foi eliminada na semi-final do campeonato regional diante do Ipatinga e uma crise – plantada – foi estabelecida, onde o estopim seria a eliminação na LA, caso houvesse.

Tantos torceram, que conseguiram! A equipe celeste foi eliminada diante do São Paulo – que, incrivelmente, decidiu jogar bola apenas contra o Cruzeiro em 2010 – e depois de tanto pressionar, conseguiram derrubar o técnico Adilson Batista, para a euforia geral da imprensa.

Cuca, criticado e rotulado como “derrotado” por parte da torcida, veio no lugar do AB. Pegou o time em 12º lugar no Campeonato Brasileiro, época em que o líder tinha como vantagem 12 pontos sobre nós. E então apareceu o time de guerreiros…

A diretoria investiu na qualidade em suas contratações. Trouxe reforços para a contestada zaga e, finalmente, investiu em um extraordinário “camisa 10”, o argentino Montillo.

Com a parada para a Copa do Mundo, Cuca teve um tempo suficiente para conhecer o grupo, planejar os próximos meses e enfrentar uma maratona de jogos que vinha a diante, onde a equipe celeste conquistou a maioria dos pontos e figurou entre os primeiros colocados.

Neste período se encontra o jogo contra o Palmeiras, uma conquista de 3 pontos que foi o retrato fiel do que representou todo o ano do Cruzeiro.

Chegando à reta final, o Cruzeiro via as suas chances de título aumentarem. Lutou bravamente em vários jogos na conquista de 3 pontos e, como poderia acontecer em qualquer grande time, houveram tropeços. Mas continuou bravo na busca do almejado título – superando a falta do Mineirão, os grandes desfalques e os erros bizarros da arbitragem –  e chegou na rodada final com 4% de chances de título, dependendo dos resultados de seus adversários para ser campeão.

O time que não era visto como candidato ao título após o “vexame” no campeonato mineiro, ao final foi visto com grande espírito, que honrou o segundo lugar conquistado. Foi reconhecido, temido e respeitado.

Neste ano de 2010, podemos até não ter uma taça para expor nas vitrines, mas na memória de todo cruzeirense ficará a história de um time, que contra tudo e contra todos, enalteceu um vice-campeonato de muito suor.

Para 2011, espero que continue com o mesmo time base, que vem sendo formado desde 2008 e agora se encontra em seu melhor momento, analisando o entrosamento e o amadurecimento do grupo. Espero que a renovação no elenco não atinja as suas peças principais, pois certamente estaremos na luta pelo Tri – tanto no Brasileiro quanto da Libertadores.


Fotos: Vipcomm

Luciana

90 anos: Foi mais uma noite infernal

Havia quem não acreditava que era verdade. O Cruzeiro, um quase desconhecido time de garotos, golear o Santos por 6 a 2 numa decisão da Taça Brasil? Não podia ser normal. Muitos acreditavam que o Santos deixou para o Pacaembu o seu grande futebol. Que em São Paulo, a zebra ia virar vingança. Na verdade, os próprios torcedores cruzeirenses não acreditavam que seu time de garotos pudesse vencer no Pacaembu.

 

O capitão Piazza, entre Hilton e Tostão, levanta a Taça Brasil ganha, com toda a justiça, no campo do inimigo. Era a consagração.

Chovia muito. Estava fazendo uma noite que não animava ninguém a sair de casa. Poucos cruzeirenses foram ver de perto o esclarecimento daqueles 6 a 2 no Mineirão. Realmente era difícil acreditar que um time brasileiro pudesse mostrar tanto poder ofensivo chegando a enfiar seis gols no Santos de Gilmar, de Mauro, de Lima, etc. Logo no ano em que o Brasil apresentou na Copa da Inglaterra uma incrível debilidade ofensiva, por falta de talentos.

Debaixo da chuva, lá entraram os dois times. O Cruzeiro com suas camisas brancas, o Santos de listras pretas e brancas. De cima, o gramado refletia a luz dos postes de iluminação, tanta era a água empoçada. Armando Marques achou que dava para jogar. E dava mesmo. Tanto que, com cinco minutos de jogo, o Santos estava fazendo o maior carnaval na defesa mineira. Tabelas, jogadas em profundidade, passes bem feitos. E os beques do Cruzeiro chutando para qualquer lado, lutando bravamente.

Esperou-se que, de um momento para o outro, Dirceu Lopes estourasse com uma de suas jogadas que já estavam ficando famosas e que facilitaram a marcação de três dos seis gols do Mineirão. Mas nada fazia Dirceu aproximar-se da área. Talvez a grama encharcada, pesada, que não o deixava dominar e partir para o ataque. Quando não era Zito a tomar-lhe a bola, era Oberdan.

E o Santos continuava pressionando. Pelé e Toninho envolviam a todo instante a William e Procópio. Raul fazia o que podia. Até com o pé fez defesas. Mas aos 23` não teve jeito. Pelé passou por William, entrou na área sozinho e chutou no canto: 1 a 0.

O Cruzeiro deu a saída, atacou com Natal mas ninguém aproveitou na área. Foi a repetição de lances anteriores. O Santos voltou a insistir e, aos 25`, foi Toninho quem, rapidamente, tabelou com Pelé, entrou na área e chutou fora do alcance de Raul: 2 a 0. Estava, enfim, definido o Santos que perdeu de 6 a 2: no Mineirão, estava em péssima noite. Mas, e o Cruzeiro, que não repetia a atuação anterior? O que acontecera? O certo era que os mineiros pareciam nervosos, inibidos no Pacaembu. E o Santos aproveitou.

Até o final do primeiro tempo, teve chances de descontar a goleada do primeiro jogo. Aos 40`, Pelé passou por Piazza e lançou Toninho entre Procópio e William. Raul saiu do gol e defendeu nos pés de Toninho. Aos 41`, Toninho acertou a trave direita, livre na área. Aos 43`, Pelé entrou sozinho, podia colocar mas chutou forte e Raul defendeu firme. Dorval substituiu a Amauri, fazendo imaginar que, no segundo tempo, o Santos seria mais forte no ataque.

Tostão caído na área entre a defesa santista

No intervalo, o vestiário do Cruzeiro parecia uma igreja. O silêncio era preocupante, enervante. Aírton Moreira, humildemente entregou os pontos:

– Eu não sei o que dizer. Façam o que vocês acharem que devem fazer. As coisas estão muito ruins.

Todos concordaram: estavam mesmo. Mas havia quem acreditasse na difícil virada. Quando subiam o túnel, Piazza começou a trocar idéias com Tostão, Procópio deu palpite, William concordou, Raul passou direto e o Cruzeiro entrou em campo de camisas secas, brancas, disposto a começar tudo de novo. A torcida do Santos – umas 20 mil pessoas que desafiaram a chuva – cantava alegre. Voltou o Santos, Pelé conversando com Zito e Toninho.

Com cinco minutos deu pra sentir a modificação: o Cruzeiro se arrumou no meio-campo, só Piazza ficou a vigiar Pelé. Dirceu soltou-se pela esquerda, Tostão caiu para a direita. Lima e Zé Carlos não podiam mais subir, Zito começou a correr de lado a lado, Mengálvio não pode subir. Então, o Cruzeiro armou-se e começou a atacar.

Aos 12`, depois de receber de Hílton Oliveira, Evaldo foi derrubado na área por Oberdan. Pênalti que Armando Marques marcou em cima. Era um alívio para Aírton Moreita lá no banco. O time melhorou mesmo e já podia marcar o primeiro gol. Tostão ajeitou a bola e, surpreendentemente, chutou fraco, perto das mãos de Cláudio, que fez a defesa. O lance acabou de desanimar quem ainda tinha esperanças. O Cruzeiro estava mesmo infeliz.

E o primeiro veio na cobrança de falta por Tostão. Oberdan faz cera, Evaldo quer a bola.

Mas o jogo continuou o mesmo. O Santos já não corria como no início. Zino dava sinal de estafa. Mengálvio não aguentava sozinho. Dorval não deu aquele ritmo esperado ao ataque. Pelé voltou e Toninho ficou a brigar com William e Procópio. Aos 19`, Natal recebeu curtinho de Tostão, ia passar por Lima e levou o sarrafo, perto da linha de fundo. Tostão preparou-se, três jogadores formaram a barreira. Por cobertura, Tostão mandou a bola no ângulo, quase sem visão do gol, enganando totalmente a Cláudio, que esperava um cruzamento: 2 a 1.

O gol despertou Dirceu Lopes. O baixinho começou a correr em frente à área, de um lado para o outro, procurando as tabelas com Evaldo, deixando o meio-campo inteiro para o excelente Piazza. E foi Dirceu que fez arrepiar a alegre torcida santista. Aos 28`, com uma ginga de corpo, tirou Joel da sua frente e chutou no canto direito. Era o empate impossível: 2 a 2.

Aí o Santos apavorou. E já não tinha mais forças para reagir diante de um time de garotos. O que Tostão, Dirceu, Lopes, Natal e Evaldo começaram a fazer foi exatamente o que Procópio queria: “Vamos cansá-los, vamos tocar que eles não aguentam o resto”. O técnico Lula não tinha o que fazer. Poderia reforçar a defesa, mas dispensara Carlos Alberto pouco antes da partida, escalando Lima na esquerda e Zé Carlos na direita.

Pelé e Toninho – sempre os dois – continuavam tentando, agora na base do desespero. Até de longe Pelé queria chutar, para tentar pegar Raul desprevenido, sem firmeza para segurar a bola molhada. A chuva havia parado e o campo virou um parque de lama. O jogo transformou-se num desafio de equilíbrio e emoção. O Cruzeiro, bem vivo, procurava ainda avançar com a velocidade de Natal e Hílton, e, chegando ao fim da partida, começou a insistir no desempate.

 

Natal entra pelo meio e faz o impossível, o terceiro gol, o da vitória, deixando Cláudio no chão, humilhado.

E, afinal, aconteceu a jogada que enterrou a vingança esperada do Santos. No puro heroísmo, sabendo que o minuto era o último da partida, Tostão passou por Lima e Zé Carlos, lá na esquerda, e da linha de fundo cruzou para Natal que se deslocara, também, para o meio. Na corrida, o ponta tocou firme, certeiro, para o fundo das redes: 3 a 2. O “ímpossível” aconteceu.

Ficou claro que o Cruzeiro é que soube vencer o Santos nas duas partidas. Que seu time era melhor, não só por ser mais jovem. Tinha o toque de bola completo, craques que poucos ainda conheciam mas que já faziam emocionar a torcida em Minas. A vitória realizou o sonho de ver a Taça Brasil – a última a ser disputada – parar em Belo Horizonte.

A festa durou uma semana. Os jogadores foram carregados no dia seguinte no aeroporto, desfilaram em carro aberto e começaram a conquistar todo o país. O futebol brasileiro não estava morto.

O Cruzeiro era o novo herói e a motivação nasceu de novo com aqueles craques que devolveram a emoção e a genealidade ao futebol brasileiro.

Crônica incrível da revista Placar de abril de 1979. Autor desconhecido.

Só para lembrar que, quando se trata do manto celeste, TUDO é possível.

Luciana