O futebol que a gente ama…

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…também chora.

Futebol que nos deixa fanáticos, que nos deixa loucos e nos faz chorar.

Sei que sou um pouco emotiva, mas nesses dias estou um pouco mais.

Daquele grande jogo do Real Madrid x Atlético de Madrid, do gol aos acréscimos, do choro na arquibancada pelo “quase” do pequeno, do jogo do Cruzeiro contra o Flamengo com a magnífica atuação do Cruzeiro que eu não queria que terminasse… Essa tal de essência do futebol que faz a gente pensar: futebol é do c******.

Mas o futebol ainda é humano.

O Fernandão foi um ídolo do Inter e hoje se foi. Não foi só do Inter, foi de todos que um dia também sentiram ao menos uma pontinha de inveja quando ele, como capitão colorado, carregou as taças da Libertadores e do Mundial com uma postura que qualquer torcedor quer ver defendendo sua camisa.

A gente não santifica depois de morto. Eu realmente o admirava, assim como admiro o D’Alessandro do próprio Inter e tantos outros grandes jogadores de outros times.

Futebol nos deixa abobados… fingimos que somos eternos rivais e adversários, mas na verdade a inveja aguça esse sentimento e gostamos dos outros principalmente pela postura (mesmo que nunca confessemos o contrário). E defendemos os nossos jogadores com unhas e dentes, porque só nós mesmos podemos falar mal dos nossos próprios jogadores, né? Até do Leandro Guerreiro ficamos gratos e gritamos seu nome quando foi nosso adversário.

E sentimos suas faltas.

O futebol nos deixa apegados a caras que vivem outra realidade, andam de carrões, não chegam a trabalhar 8 horas por dia batendo ponto, não possuem – grande parte – uma escolaridade que aos 20 anos nós temos. Mas nos apegamos a eles. É que muitos deles também ficam putos com derrotas como a gente, comemoram loucamente os gols, choram em eliminações, dão um sorriso largo e cantam qualquer coisa na hora que erguem a taça.

Desde lá da base, acompanhando os moleques crescendo a gente se sente como da família. Foi com o Élber essa semana também. Como não sentir saudade ao ler aquela mensagem que ele escreveu pra torcida e relembrar do gol que ele tirou a camisa, estendeu-a no chão e a beijou? A gente queria sim que ele fosse um grande jogador aqui no Cruzeiro. Mas a saída era melhor pra ele.

Nós somos loucos e bobos. Esquecemos que eles são humanos. Que erram, que acertam, que querem o melhor para eles, que se despedem e, infelizmente, que morrem. Alex Alves, o da capoeira, que tantos meninos imitavam na escola… era humano também. Fernandão, aquele louco no meio do campo cantando no microfone com a torcida do Inter, também era humano. O Roberto Batata do Cruzeiro, que vibrou do céu uma Libertadores pra ele dedicada…

Assim como uma mãe entra na igreja com o seu filho para levá-lo à futura esposa e percebe que ele cresceu, assim nós, torcedores, percebemos – quase sempre de forma trágica – que os jogadores também são de carne e osso.

O futebol ainda é feito de ídolos, de craques, de pernas de pau e, ainda assim, humanos.

Ahh… o futebol.

Luciana Bois

Pode dar m****

Ontem achei o Cruzeiro surpreendente. Não me lembro – em anos – de ter visto o Cruzeiro jogar daquele jeito. Bem. Muito bem.

Crédito: Bruno Alencastro/Agencia RBS

Crédito: Bruno Alencastro/Agencia RBS

A organização em campo, postura pra defender e atacar, a intensa troca de passes (boas), mesmo sendo visitante fez apagar aquele jogo feio contra o Santos no domingo. Mas o Cruzeiro perdeu. Pois é!

Queria ser, mas tenho medo de acreditar que seremos campeões. Sei que é cedo pra falar essas coisas e tal, mas é complicado apostar nesse time. Aposto sim, mas não alto. Entende? Sabemos do potencial e vemos sempre grandes exibições, mas tem aquele medo: ainda não posso elogiar.

Destaco 3 jogos desse ano:

– Galinho 3×0 Cruzeiro: Nosso melhor zagueiro é expulso num lance infantil, quando ainda estava 0x0. É verdade que, diferentemente dos outros jogos, o Cruzeiro vinha nervoso, sem acreditar que podia ganhar aquele jogo. E podia, mas ué? Dos 4 clássicos: vencemos 3 – sendo dois contra o time titular do adversário – e perdemos um, que é este o qual falei.

– Cruzeiro 2×2 Internacional: Empatamos dentro de casa, foi merecido até, mas o Cruzeiro lutou. Agora me expliquem a expulsão do Ricardo Goulart? Até hoje não tem explicação. E ainda dois dos nossos jogadores machucaram ainda no primeiro tempo.

Crédito: Diego Vara/Agencia RBS

Crédito: Diego Vara/Agencia RBS

– Grêmio 3×1 Cruzeiro: Além das considerações iniciais, vale lembrar a expulsão do Souza. Sei que ainda há a discussão sobre a justiça no cartão ou não. Pra mim, foi justa. Talvez em outros países não se aplique cartão naquela jogada, mas aqui no Brasil… Conhecemos o PC Oliveira (lá com seus 30 anos de profissão) e sabemos o que ele faz. Seria muita ingenuidade pensar que uma falta daquelas passaria em branco, ainda mais para o time visitante.

O Cruzeiro de 2013 é muito bom mesmo, talvez o melhor elenco que temos desde 2003. Mas falta um Q a mais. Aquele Q que não deixa a pulga atrás da orelha pra fazer elogios, aquele a mais que não pense “pode dar merda” ou “quem não faz, toma”. É a questão do pênalti: quando a marcação é a nosso favor, temos 80% de chances de errar, mas contra… já era.

O time titular de ontem tinha apenas 2 jogadores que estavam no time titular do ano passado. Não sei ao certo o que dizer, mas seria pretensão pensar que um time totalmente reformulado bata o Corinthians, Inter, Galinho, Flu… que já conta com, no mínimo, uma temporada com uma base montada?

Não, não seria. Porém: seria.

O Cruzeiro é mais time que esses todos, quando joga bola, joga mais que esses todos (na atual temporada), não é a toa que se encontra no topo da tabela. Porém, ahhhh o porém, pode dar m****.

Falta um pouco de amadurecimento – eis a palavra. Ou a malandragem, o cacoete(né Douglas?) pra ser campeão! Talvez a vontade de provar que pode, faça mostrar que “ow… vi que você pode, mas pare por aqui”. Aquela vontade de chegar lá na frente e driblar todo mundo antes de concluir a gol mostre que o jogador é demais e pode ser o destaque do campeonato, mas seria mais fácil concluir logo ao gol. Ou aquela vontade de mostrar “mais raça”, e passar do limite da falta. Sabemos fazer o feijão com arroz perfeito, mas querem ir pra sobremesa antes de ficar bem alimentado, entende?

O Cruzeiro pode e quer mostrar que pode, mas ainda não vejo o que quer. Talvez a disputa pela titularidade, talvez a falta de acreditar em si mesmo, mas é que ainda, infelizmente (e na espera que mude), “pode dar merda”.

Luciana Bois

Ps: Com certeza leram meu texto.

Sonho (não só) de criança.

Tenho que confessar que tenho um carinho a mais pela base celeste.

A partir dos meus 12 anos, eu comecei a jogar em equipes de esporte coletivo das escolas que estudei. Passei por futebol e por handebol, além de ter feito escolinha de vôlei,  isso tudo durante 7 anos. Certamente se eu fosse realmente boa (a gente tenta, né! =P), eu tentaria me profissionalizar em algum deles o que evitaria as minhas lágrimas quando fui obrigada a parar de jogar ao ter que ir pra faculdade e trabalhar ao mesmo tempo.

Surgiu uma oportunidade de um grande clube patrocinar meu time de handebol, mas não deu certo. O meu sonho era fazer o que eu gostava profissionalmente. Mas a vida acaba impondo outros caminhos.

A categoria de base para um clube é fundamental para a sua grandeza. “Cria” talentos a baixo custo e também uma renda relativa na venda dos mesmos, mesmo quando não podem ser aproveitados pela equipe profissional.

Mas quando não trabalhada corretamente, pode gerar desperdício de dinheiro com a perda do capital investido, exposição da marca do clube negativamente e descuido também na formação de seres humanos.

Os meninos que estão na base esperam reconhecimento e alcançar um sonho deles também: ser jogador de futebol profissional. Mas de tantos que passam em muitas categorias de base, pouquíssimos são realmente aproveitados em grandes clubes.

Revista do Cruzeiro – Edição 76 – 2004

Fazendo as contas, um jogador profissional tem “vida útil profissional” (tipo um tempo médio que penso que um bom jogador seria aproveitado em grandes clubes) por mais ou menos 12 anos e na base temos milhares de crianças que entram para os clubes a cada ano. Como se pegássemos o Fábio, que completa cerca de 5 anos no gol cruzeirense e ver que, durante esse tempo, muitos bons goleiros cruzeirenses passaram pela base: Rafael, Douglas Silva, Douglas Borges, Gabriel… São muitos jogadores pra poucas vagas.

Mas, conversando com um dos garotos da base celeste, percebi que uma das maiores insatisfações não é só a falta de aproveitamento no time profissional, mas a falta de oportunidade concreta para que sejam observados pela comissão técnica do profissional, e acabam preferindo seguir carreira em outros lugares.

Diziam que este ano iria melhorar esse processo de transição no Cruzeiro, mas, por enquanto, a novidade foi o maior número de jogos treino contra o time reserva do Cruzeiro. Mas como diz os meninos, a qualidade técnica do time reserva do Cruzeiro é maior do que o time júnior, quando se trata do grupo em geral. Mesmo tendo talentos bons individuais, em um esporte coletivo, dependem também dos outros para mostrar o que realmente sabem. Já que jogando contra uma equipe superior não conseguem manter a bola no chão ou ficar com ela mais tempo, não podem mostrar o que sabem. Então seria melhor treinar com eles, não apenas jogar contra eles.

Eu penso que os jogos-treino poderiam continuar com todo o grupo, mas os talentos individuais escolhidos diretamente pela diretoria da base deveriam ser escolhidos para treinar até duas semanas com o profissional tendo duas consequências finais: ou é integrado ao time profissional ou não, sendo que voltaria para a base sabendo aonde deveria se empenhar melhor. Será que seria possível?

Revista do Cruzeiro – nº 21 – Dez/97 | Quem diria qual gol ele faria em 2000?

Conversando com o Alexandre Mattos, entendi também alguns pontos de quem administra isso tudo.

Não podemos generalizar o pensamento dos garotos, mas há garotos que possuem diferentes motivações e influências. Alguns reclamam da falta de oportunidade e outros, quando ganham destaque, acabam achando que será um novo “Neymar” e acabam complicando muito. Não me referindo apenas ao valor contratual, mas são também influenciados pela vontade de jogar fora daqui, como o “sonho europeu de consumo” que a maioria dos jogadores brasileiros possui.

A nova diretoria herdou um fardo pesado ao assumir o Cruzeiro depois da passagem do Dimas Fonseca. Ainda não deu tempo para julgá-los em relação à base: houve troca de técnico, o Cruzeiro foi mal nos campeonatos e os próprios meninos fizeram uma excursão pela Europa enquanto o novo técnico chegava.

Mas, como o Alexandre afirmou quando o questionei, as projeções para o futuro são melhores que as atuais, que as coisas estão mudando e muito, mas que leva tempo e que precisamos que o profissional se equilibre para subirmos os garotos que realmente possuem qualidade. Temos que dar tempo ao tempo e não passar o carro na frente dos bois, lembrando também de não dormir no ponto.

Quando a torcida julga a agilidade da diretoria ou o caráter dos meninos da base, temos que entender que ambos possuem o mesmo objetivo: revelar talentos. Vamos procurar entender os dois lados da situação para não pressionar negativamente nenhum lado.

Não se precipitem querendo a cabeça de alguém do clube ou “fechar a Toca I”. Tentar entender a situação por todos os lados seria uma boa, né? Como eu já disse: paciência, novos ventos soprarão na(s) Toca(s).

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90 anos: Na hora H, valeu a molecagem

Continuando os posts comemorativos pelos 90 anos do Cruzeiro Esporte Clube, venho apresentar-lhes mais uma página heróica imortal, a decisão da Libertadores da América de 1976. Onde o caçula Joãozinho entra pra história devido à malandragem e a boa pontaria.

Mais uma vez, é de um artigo tirado da revista Placar de 1976 e fotos assinadas por Célio Apolinário. Boa leitura!

(Confira aqui os outros posts sobre os 90 anos do Cruzeiro)

Na hora H, valeu a molecagem

Era a decisão da Libertadores contra o temível River Plate. Para vencê-la, o Cruzeiro precisou de categoria, garra e malandragem.

Cruzeir: Raul, Nelinho, Morais, darci Menezes, Vanderlei, Piazza, Zé Carlos, Eduardo, Palhinha, Ronaldo e Joãozinho; River: Landaburu, Comelles, Artico, Lonardi, Urquiza, Sabella, Merlo, Alonso, González, Luque e Más.

Aqui estão eles, em Santiago. Frios, alegres, falantes, preocupados com umas comprinhas. E é um dia muito importante para o Cruzeiro – o da decisão da Taça Libertadores da América. Aqui estão os experientes, os garotos. E o comando de Zezé Moreira. Raul, Piazza, Nelinho, Zé Carlos, Vanderlei, Palhinha, Jairzinho, Joãozinho… Jairzinho está completando seis meses de clube. Sua contratação teve um objetivo: dar a malícia, a maldade até, que faltava ao Cruzeiro para ganhar a Libertadores. E Jair, neste dia importante para o Cruzeiro, está de fora. Expulso no jogo anterior, em Buenos Aires, juntamente com Perfumo, ele cumpre a suspensão automática. Mas não perdeu a confiança.

“Vamos ganhar deles. Vamos ganhar porque somos melhores. E, aqui em Santiago, não precisamos jogar mais que jogamos lá em Buenos Aires.”

Em Belo Horizonte, no primeiro jogo, o Cruzeiro goleou: 4 a 1. No segundo, em Buenos Aires, dois erros, dois erros do juiz deram a vitória ao River: 2 a 1. A decisão, em campo neutro, é no Chile, no Estádio Nacional de Santiago. A torcida tende mais para os brasileiros – é um modo de opor-se à excessiva gritaria, ao excesso de autoconfiança dos quase 10 mil argentinos que invadiram a cidade. Envolveram-se em bandeiras argentinas ou do River, espalham-se pelas ruas, espantam o frio com sucessivos tragos de vinho. E cantam incansáveis:

Ou marcavam Nelinho ou aguentavam a bomba.

“Vamos, vamos, Argentina
Vamos, vamos a ganar
Esta barra quilombera
No te deja,
No te deja de alentar”

Os poucos cruzeirenses que conseguiram chegar a Santiago rodam pelas ruas, metem-se a conhecer a cidade, reconhecíveis apenas pelas roupas coloridas. À noite, vão para o estádio, mas poucos levam bandeiras.

Começa o jogo, descobre-se a ajuda da torcida chilena, os cruzeirenses se multiplicam. Logo, vão sofrer, vão descobrir que Jairzinho faz muita falta ao ataque.

“Não tem nada, não. O Palha vai dar um jeito nesses caras.”

É Jairzinho quem fala, colocado ao alambrado. Em seu rosto, se pode ler cada jogada, cada tentativa, cada drama de Palhinha em sua luta contra um beque de quase dois metros de altura, que o derruba em cada disputa de bola. A solução se começar a deslocar-se para as pontas, na tentativa de abrir espaços para Zé Carlos e Ronaldo, que estão vindo de trás.

O River, com uma defesa nervosa, joga no contra-ataque. Mas encontra um Cruzeiro firme, cada jogador guarda sua posição – bem do jeito que Zezé Moreira quer. Então, vai ser questão de tempo, de espera pela chance. Ela vai aparecer, ninguém tem dúvida.

Joãozinho estava infernal: deixou seu marcador sentado e fez um gol de moleque

Os argentinos vêem mais uma vez que o perigo se chama Joãozinho, que faz o que quer com Comelles, e ainda atrai mais um ou dois marcadores. E a torcida chilena, que há muito não via um ponta tão bom de bola, tão rápido, tão esperto, vai gostando do jogo, está percebendo que, pelo caminho da simpatia, está, ao mesmo tempo, apoiando o melhor time, um time cuja categoria até o River aprendera a respeitar.

Mas é só categoria? Nada disso. Agora- e isso o River ainda não conhecia – está valendo tudo: quando não é na classe, é na raça.

Vai sair o primeiro gol. Um gol que é bem brasileiro, que é bem argentino. Eduardo mostra a Urquiza o que é um rabo-de-vaca – e cruza para Palhinha que espera na marca de pênalti. No puro reflexo, Urquiza corta o cruzamento com a mão, dentro da área.

Pênalti – e entra o estilo portenho. Aos gritos, Merlo e Oscar Más reclamam. Transfiguram-se, fazem o ar da honestidade ofendida, dão peitadas no juiz. Mas não tem nada. Nelinho já vai ajeitando a bola, já corre para ela e manda a sua bomba, no canto direito.

Cruzeiro 1 a 0, aos 24 do primeiro tempo. Agora, se o River for a sério em busca do empate, deixará mais livres o endiabrado Joãozinho, o oportunista Palhinha, o raçudo Ronaldo.

Palhinha é outro jogador. Neste jogo, ele se completa, chega à perfeição. A raça, a presença de sempre – mas uma novidade: a paciência, a espera. Passa por Lonardi, o grandalhão, e é derrubado. O joelho está vermelho das pancadas, o uniforme sujo de tantas quedas. Mas não perde a cabeça, como já aconteceu tantas vezes, em tantas decisões.

Mas não é só Palhinha. É o Cruzeiro inteiro que dá uma lição de como jogar uma decisão.

A alegria de Joãozinho, Raul e todo mundo.

Com 1 a 0 e um ambiente cada vez mais tenso, começa o segundo tempo. Tudo como antes. No meio, o revezamento, as constantes deslocações de Eduardo, as avançadas de Zé Carlos. Na área do River, Palhinha, sozinho, lutando com os gigantes Lonardi e Ártico. E o River desesperado, buscando o empate. E não há dúvida: se os argentinos chegarem a marcar, vai começar o grande festival da catimba.

Seu Zezé, no banco, é a personificação de um contraste: o corpo imóvel, as rugas imobilizando aquela máscara de sofrida paciência, mas os olhos vivos, inquietos. Ele havia dado, menos que uma ordem, um conselho a Ronaldo (“Não se prenda tanto à ponta, tente chegar um pouquinho mais para o meio”). Agora, em silêncio, ele vê que Ronaldo, ele vê que Ronaldo se chega mais a Palhinha – e, aos 10 minutos, avança pela meia-esquerda, tira Comelles da posição e, ao chegar perto da área, marcando por Ártico e combatido pelas costas por Merlo, rola para Eduardo, que se infiltra pela direita.

O chute sai certeiro, forte, de primeira. Landaburu voa para a direita, mas a bola passa longe de seu alcance, fica balançando a rede lá no alto. E o time todo do Cruzeiro se junta num abraço, festejando o desespero argentino.

Parece que o River está liquidado. Mas não. A correria, a gana, a busca do gol não cessa. O Cruzeiro acalmasse, o River vem com raiva. E é com raiva que Luque entra pela área, tentando limpar a barra no peito. À sua frente, Morais – e Luque é derrubado. Pênalti, aos 13 do segundo. O baixinho Oscar Pinino Más, pouco fôlego, bastante classe, notável malícia, coloca a bola, mandando Raul para um canto e chutando em outro. Marca e corre para buscar a bola, com pressa, na gana. Mas é logo substituído. Sai desgostoso, os companheiros dão toda a impressão de abatimento.

Mas essa impressão dura pouco. Lá está, novamente, o ataque do River, forçando, confrontando sua fúria com a calma, que começa a ser enervante, do Cruzeiro. Do lado brasileiro, é fora do campo que as coisas começam a se modificar. Do alambrado, vêm os gritos de Jairzinho:

“Vamos, gente. Pau neles!”

Piazza, Zezé e Palhinha no vestiário

Do banco, vêm os gritos de um Zezé que se transforma, que agora não aconselha, ordena:

“Cuidado com as pontas.”

O Cruzeiro começa a desconfiar do juiz chileno. Alberto Martínez chama a atenção dos brasileiros, com vigor, e não fala nada com os argentinos. A cada falta, se percebe a diferença. E aos 17 ele marca mais uma, na ponta direita, a uns 10 metros da área. Ao mesmo tempo, mostra cartão amarelo a Darci Menezes. E, enquanto faz a anotação em seu caderninho, Comelles cobra forte para a área, a defesa do Cruzeiro está parada, Urquiza, o outro lateral, entra e manda para a rede.

É o empate. De nada adiantam as reclamações de Piazza, de Raul, dos outros – o juiz não havia autorizado a cobrança.

“Cuidado com as pontas.” Seu Zezé, ainda uma vez, tinha razão. E o gol que confirma sua intuição vai ficar como um nó na garganta de todos os brasileiros que estavam no estádio.

No River, desperta a alegria. No Cruzeiro, se adensa o drama. No meio, come a guerra. Briga-se pela bola, o Cruzeiro, esquecido do toque e da classe, sobe, assume a raiva. A bola só vai sobrar para um argentino depois que um argentino ficar caído. Ninguém quer deixar para depois, para a prorrogação. Quem pega a bola, tenta jogar de primeira. A cada apito do juiz, um berro de Zezé – e o Cruzeiro novamente crescendo, novamente dominando.

Nelinho, por duas vezes, tenta – e quase consegue -, de fora da área, surpreender Landaburu. Aos 39, cobra para fora uma falta de Merlo em Ronaldo.

Fim de todos os receios, de todos os motivos de tensão. O jogo acabou e o Cruzeiro é o novo campeão da Libertadores da América. Na distante Santiago do Chile, os jogadores se ajoelham e comemoram a grande conquista.

Mas é aos 42 que virá a sequência de lances capaz de resumir uma partida, de marcar uma diferença, de consagrar um estilo, de fazer da vitória do Cruzeiro uma vitória brasileira.

Batido, sem ninguém na cobertura, Ártico chuta Palhinha por trás. Alberto Martínez apita, anota o nome do argentino – enquanto Nelinho ajeita. É a última chance, o esforço definitivo. Lonardi comanda a barreira, olhando para Landaburu – e nenhum dos argentinos vê quando o moleque Joãozinho, passando à frente de Nelinho, entra na corrida e chuta para as redes.

Os argentinos nem se mexeram, o time todo do Cruzeiro começou a correr atrás de seu ponta, vendo que Martínez já apontava o meio do campo.

Era o gol salvador, o gol da molecagem, “o gol da irresponsabilidade”, como dizia Zezé Moreira.

Sujos, bêbados de alegria, os jogadores se abraçam à Taça Libertadores. No vestiário, Ronaldo, expulso no último minuto de jogo, grita com Jair:

“Ganhamos. Eu sou pé quente.”

Todo ferido, Palhinha desabafava:

“Valeu a pena agüentar aquele grandão me sarrafando o tempo todo”.

Joãozinho, segurando a camisa 5 de Merlo, explica o seu gol:

“Eu vi que o goleiro estava fora da jogada. Se o juiz não mandou cobrar a falta no gol do River, não ia eu esperar que ele mandasse cobrar a nossa. Achei que ninguém esperava que eu cobrasse. E não esperava mesmo.”

E então, na malandragem final, na categoria bem brasileira, finalmente o Cruzeiro ganhou o tão sonhado título: campeão da Taça Libertadores da América. Uma festa só, que Belo Horizonte comemorou até o sol nascer. Uma festa que, além do Santos de Pelé, só o Cruzeiro conseguiu fazer no País do Futebol.

 

90 anos: As primeiras estrelas do manto celeste


Vamos falar aqui sobre excelentes figuras. Quatro homens que souberam honrar a camisa que vestiram. Um deles vestiu a camisa tricolor (branco, vermelho e verde) do ex-Palestra Itália de Minas Gerais: era Niginho, que jogou durante cinco anos pelo Lázio de Roma e, na sua volta para o Brasil, ajudou seu clube do coração a ser campeão pela última vez com o velho uniforme e o velho nome. Outros três honraram a camisa azul: Abelardo, Tostão e Dirceu.

Leonídio Fantôni não era um nome conhecido em Belo Horizonte. Mas Niginho… Niginho era um gênio e todos os torcedores na sua época tinham uma jogada dele para contar. Leonídio Fantôni, o Niginho, membro de uma família onde quase todos os homens viveram e vivem pelo futebol (Ninão, Nininho, Orlando, Fernando, Benito, etc.), começou jogando no Palestra, a convite do seu irmão Ninão, foi para o Lázio, da Itália, em 1930. Ficou lá até 1935.

Durante sua permanência na Itália, Niginho foi um ídolo em Roma, talvez mais do que era em Belo Horizonte, que deixou com 20 anos apenas. Identificava-se com o povo de seu país, mas não aceitou o chamado de Mussolini para a guerra na Abissínia. Lutou contra a exigência do ditador e, quando o primo Nininho morreu – em conseqüência de uma grave contusão sofrida no jogo Lázio x Torino – resolveu deixar a Itália.

Segundo o cronista e escritor Plínio Barreto em seu livro “Futebol no Embalo da Nostalgia”, Niginho provocou verdadeiro delírio entre os torcedores pela sua volta ao Palestra. Desde que foi para a Itália, ninguém deixou de acompanhar sua carreira e torcia pela sua volta. Quando novamente vestiu a camisa verde e vermelha do Palestra, o Clube começou a reerguer-se, pois, desde que Niginho viajara para a Itália, não foi possível ganhar mais nenhum título. Em 40, novamente, o Palestra foi campeão – último antes da troca de nome.

Niginho era um jogador de invejável categoria, centro-avante artilheiro, tipo oportunista, que não deixava o goleiro picar a bola no chão sem tentar mandá-la para as redes. Segundo Plínio Barreto, Niginho decidiu uma partida entre Mineiros e Cariocas, em Álvaro Chaves, no Rio, assim: “Estava 3 a 3 e ele pegou uma bola na sua intermediária e saiu driblando. Passou por um, veio o segundo, o terceiro, foi embalando, chegou na área, passou por outro, deixou o goleiro caído e só parou quando esbarrou nas redes”. Assim era Niginho, o “Menino Metralha”.

Quando o rapaz Abelardo Dutra Meirelles entrava em campo, parecia que ia para alguma festa. Chuteiras engraxadinhas, cadarço com pontas aparadas, calção com vinco, bem passado, camisa sem dobras e o cabelo amparado na mais fina brilhantina. “Olha, a camisa dele é mais azul”, diziam as meninas, que o adoravam.

Abelardo não era só elegante e boa pinta. Na sua primeira partida pelo Cruzeiro, em 1947, ganhou o amor de sua torcida com o novo estilo de jogar futebol, uma nova maneira de marcar gols: de estilo, de placa, bonitos e frios. Abelardo era veloz, franzino e hábil. Sua colocação em campo era perfeita, ele sabia exatamente onde a bola ia cair. E, se ele subisse para uma cabeçada, quase sempre era gol. Era o “Flecha Azul”.

Dizem que, de tanto ler notícias sobre Heleno de Freitas, acompanhar pelos jornais e revistas da época a vida do grande ídolo botafoguense, Abelardo acabou assimilando seu estilo de jogar. É lógico que era uma simples coincidência, mas quem sofria com isso era o Atlético, pois Abelardo melhorava sempre.

Certa vez, após um clássico entre os dois rivais, no Estádio Antônio Carlos (campo do Atlético), Abelardo teve de ser escondido pelos próprios jogadores atleticanos, em seu vestiário, para evitar que a torcida linchasse à saída do estádio. Abelardo havia decidido mais um Atlético x Cruzeiro. Sua fama já ia longe. Seu conselheiro e técnico foi Niginho – que só parou de jogar quando Niginho apareceu e mostrou que a camisa de Niginho tinha um herdeiro competente.

Apesar de craque, Abelardo tinha um gênio difícil e as coisas que não agradavam ele não fazia. Se discordava de alguma coisa, era briga. Quando o Cruzeiro vendeu seu passe ao Palmeiras, em 1950, por 150 contos, ele logo conquistou o Parque Antarctica, mas brigou em seguida. Foi emprestado para o Santos, mas isso acabou favorecendo sua decisão de voltar a Belo Horizonte e ao Cruzeiro. Encerrou sua carreira em 1959, como campeão mineiro.

Eduardo Gonçalves Andrade era tão pequenininho quando começou a jogar futebol entre gente grande, a marcar gols e fazer jogadas incríveis, que logo ganhou o apelido de “Tostão”. Fora de casa, ninguém mais o chamava de Eduardo. “Olha lá o ‘Tostão’ com a bola. Veja o que ele vai fazer…”. Onde quer que aparecesse o menino chamava a atenção. Crescendo, foi levado para jogar futebol de salão no Cruzeiro, de onde foi para o juvenil do América.

Em 1963, ao projetar para o Cruzeiro um grande time, compatível com o novo estádio que estava sendo construído em Belo Horizonte – o Mineirão –, o presidente Felício Brandi usou toda a sua sabedoria de dirigente para levar Tostão para o Cruzeiro. Conseguiu e o entregou ao técnico Mário Celso de Abreu. Logo, logo, Tostão tornou-se titular. E começou a surgir um dos maiores jogadores do futebol brasileiro em todos os tempos.

Amadurecendo, Tostão foi conquistando seu público, deixando os adversários admirados, levando o Cruzeiro a históricas vitórias. Na inauguração do Mineirão, ele já era o comandante da equipe que conquistou o novo estádio e que exportou a fama de um novo estádio e que exportou a fama de um novo futebol que estava nascendo, o de Minas. Tornou-se o primeiro jogador de clube mineiro a disputar uma Copa do Mundo pela Seleção Brasileira – em 66, na Inglaterra. Depois, nunca mais deixou de ser convocado. A partir de 68, foi titular absoluto, ao lado de Pelé.

Formou com Dirceu Lopes uma das maiores alas de atacantes do futebol brasileiro, atraindo milionárias propostas de mais de dez clubes do país e do exterior. Sério, calado, inteligente, interessado pela cultura científica, preocupado com a sua formação intelectual, caseiro, amante da vida em família, Tostão não chegou a ser popular como Dirceu, mas conquistou todos os torcedores do futebol brasileiro com seus gols sensacionais – pelo Cruzeiro e pela Seleção – e seu talento genial de um dos mais completos craques do futebol brasileiro.

Viveu um intenso drama em 1969, quando a retina de seu olho esquerdo descolou-se e ele teve de ser operado nos Estados Unidos. Muitos – inclusive o novo técnico da seleção, Zagalo, e o médico Lídio Toledo – não acreditavam na sua recuperação para o futebol. O tratamento foi eficiente e, um ano depois, comandou o ataque do Brasil que conquistou o tricampeonato mundial no México.

Em 1972, quando Iustrich foi contratado para técnico, começou o desligamento de Tostão no Cruzeiro. Afinal, ao encerrar-se uma discussão de quase 30 dias seguidos, o presidente Felício Brandi concordou em vender seu passe ao Vasco da Gama pelo preço recorde (até aquela época) de Cr$ 2,5 milhões. Um ano mais tarde, ao ser novamente examinado nos Estados Unidos, descobriu-se que sua retina estava fragilmente adaptada e a continuidade da sua função como jogador poderia precipitar sua deformação, com risco para sua vista.

Aos 27 anos, ao lado de sua mulher em Houston, no Texas, Tostão decidiu parar de jogar futebol. Frustrando os vascaínos, encerrando uma das carreiras que mais alegrias deu à torcida cruzeirense. Em 1979 ele se formou em medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais.

Depois de tantos anos sem ter um verdadeiro ídolo, sem ver o time chegar a gloriosas conquistas, finalmente surgiu o suvessor de Abelardo “Flecha Azul” no Barro Preto. Dirceu Lopes Mendes, de Pedro Leopoldo, que gostava de brincar com a garotada, que não sabia dizer um “não”, que nunca deixava de sorrir ou de dar uma resposta elegante. Um comportamento tão elevado quanto o futebol que, nos gramados da cidade, ele começou a exibir em 1964, recém-saído do time juvenil campeão.

Dirceu Lopes transformou-se logo no grande ídolo cruzeirense. Um gênio, ainda que chegasse a dividir com outros jogadores as glórias de um talentoso e genial futebol, ele alcançou uma posição que só Niginho e Abelardo atingiram: a identificação com o povo. Ainda que fosse um pouco tímido, sempre teve a coragem de enfrentar as situações impróprias, de atender a todos, de viver abertamente. Consciente de suas obrigações profissionais, nunca teve de ouvir críticas ou broncas. Foi o modelo ideal do jogador.

Formou com Tostão e Piazza o trio mais eficiente que o Cruzeiro já teve no meio-campo, em todos os tempos. Sua visão de gol, sua rapidez e os dribles curtos e surpreendentes deram centenas de vitórias e vários títulos para o Cruzeiro. No time profissional, foi nove vezes campeão mineiro, campeão da Taça Brasil e campeão da Taça Libertadores da América. De 1967 a 1973 fez parte da Seleção Brasileira, convocado todas as vezes que se armava a equipe. Dispensado na véspera da Copa de 1970, deixou de realizar seu grande sonho: ir a um Mundial.

Titular absoluto de todas as seleções mineiras, eleito 12 vezes o melhor meia-armador de Minas Gerais, três vezes escolhido como o melhor da posição no campeonato brasileiro (“Bola de Prata” da Placar), Dirceu Lopes teve de construir uma vitrine na sala de sua casa para que coubessem todos os troféus de sua carreira.

Em 1975 sofreu uma grave contusão no calcanhar, rompendo o tendão de Aquiles, que obrigou Dirceu Lopes a parar por mais de 13 meses. Voltou, aos 30 anos, jogou mais um ano e, ao reformar seu contrato, ganhou passe livre. Jogou ainda no Fluminense e no Uberlândia, encerrando em outubro de 1978 a sua brilhante carreira para dedicar-se exclusivamente a sua família e a sua fábrica de camisas em Pedro Leopoldo.

Time campeão da Libertadores da América de 1976

90 anos: E nasceu o Cruzeiro forte

Ainda em comemoração aos 90 anos do Cruzeiro, a seguir o artigo sobre a história do Cruzeiro na ótica da mesma revista Placar até 1979. Para quem ainda não conhece, se divirta! Para quem já conhece, sempre há algo novo e nunca é demais relembrar a nossa história.

Já estou separando os textos para lhes contar a história do Niginho, o “Menino Metralha”; e Abelardo, o original “Flecha Azul”.

E nasceu o Cruzeiro forte

Aos 22 anos, Belo Horizonte era uma cidade que buscava meios de reunir suas colônias através de clubes. Os passeios dominicais sob as árvores da Avenida Afonso Pena não satisfaziam. Os portugueses tinham seus grupos e se reuniam no Lusitano Athletic Club. Os estudantes universitários, gente fina da sociedade, faziam parte do América Futebol Clube, o melhor time de futebol da capital. O povo, gente que se misturava sem preconceitos ou crenças, ricos e pobres, vibrava com o Atlético Mineiro.

Os italianos eram os únicos estrangeiros que se misturavam – e não gostavam. Parte deles – e eram muitos – pertencia a um clube de estrutura frágil e que inspirava pouca amizade de seus membros. Era o Yale Athletic Club, que tinha sua sede esportiva no Barro Preto e fazia suas reuniões noturnas na fábrica de calçados Ranieri & Filhos, na rua Caetés. Ali eram tratados os assuntos de futebol e tomadas as providências rotineiras. E o grupo mais assíduo já estava aborrecido com a pouca expressão do Yale, que não tinha uma filosofia própria. Esse grupo era formado por imigrantes italianos e seus filhos.

Uma grave crise, finalmente, abalou o Yale. Sócios e atletas em grande número se demitiram. Os italianos decidiram seguir o caminho o caminho aberto pelo Palestra Paulista, que em 1914 foi fundado para reunir, exclusivamente, a colônia italiana de São Paulo. A idéia de se fundar o clube dos italianos em Belo Horizonte foi liderada pelo grupo que mantinha constante aquelas reuniões na fábrica de calçados: Nulo Savini, Júlio Lazzarotti, Domingos Spagnulo, Amleto Magnavacca, Sílvio Pirani, Arduino Pirani, Henriqueto Pirani e João Ranieri – o dono da fábrica.

Eles preparam tudo e marcaram um encontro da colônia para o dia 20 de dezembro de 1920, na sede da Società Italiana Dante Alighieri – no prédio onde já foi a Assembléia Legislativa e, atualmente, á a Câmara Municipal. Compareceram 92 pessoas, que discutiram todos os detalhes e marcaram nova reunião para o dia 2 de janeiro de 1921.

Palestra nos anos 30: o primeiro à direita é Orlando Fantôni, o quarto é Niginho

No dia 2 de janeiro decidiram todos os detalhes importantes para a criação do novo clube e, finalmente, estava fundada a Società Sportiva Palestra Italia, com a seguinte diretoria: Aurelio Noce, presidente; Giuseppe Perona, vice-presidente; Bruno Piancastelli, secretário; Aristótelis Lodi, tesoureiro; João Ranieri, Domingos Spagnulo e Antônio Pace, comissão de esportes. Foi tomada uma decisão que muito limitou o crescimento e simpatia do clube: somente eram aceitos no quadro social ou esportivo os italianos natos ou seus descendentes diretos.

Definitivamente extinto, o Yale cedeu todos os seus atletas – italianos, claro – ao Palestra. Outros jogadores da mesma origem que jogavam no Atlético Mineiro, Guarani, Ipanema e América transferiram-se para o Barro Preto: estava, assim, formado o quadro de futebol do Palestra Itália. Restava tratar da sua filiação à Liga Mineira de Desportos Terrestres (LMDT). Na época já havia a primeira e a segunda divisão. Os clubes menores, que viviam sem estrutura formada, pertenciam à segunda. O Palestra queria entrar, de cara, para a primeira divisão.

Por imposição da LMDT, o novo clube teve de submeter-se a um exame de admissão: enfrentar o último colocado da primeira divisão e o campeão da segunda. Se perdesse uma partida seria reprovado. Primeiro, o Palestra enfrentou o mais forte, o Ipanema, último classificado da primeira divisão. Venceu brilhantemente por 2 a 1. Depois, provocou delírio entre os italianos ao derrotar o Palmeiras, campeão da segunda, por 3 a 2.

Niginho, (aqui, ao lado de Domingos da Guia) era de driblar toda a defesa contrária

Nulo, Henriqueto e Polenta; Grande, Galo e Quinino; Pederzolli, Parisi, Nani, Atílio e Armandinho. Com este time o Palestra iniciou sua campanha oficial na LMDT, derrotando o Atlético Mineiro por 2 a 0 e o Morro Velho – time dos ingleses da mina de ouro de Nova Lima – por 2 a 0. Depois perdeu para o Morro Velho, em Belo Horizonte, por 2 a 1 e 1 a 0. Logo após, o governo estadual desapropriou o terreno herdado do Yale e o Palestra comprou o quarteirão ao lado, que pertencia à Prefeitura, por 50 mil réis, para construir o seu estádio. Teve de indenizar com 12 mil réis um plantador de couve que cultivava uma imensa hosrta no local. Construído o campo, o Palestra convidou para um jogo o Flamengo, do Rio, com quem empatou em 3 a 3. Na preliminar o América derrotou o Atlético por 2 a 0, jogando com time reserva.

Em 1926, a diretoria resolveu suspender a antipática cláusula estatuária que só permitia a filiação ao Palestra de sócios ou atletas italianos. O clube tomou, então, um grande impulso. Resultado: foi tricampeão da LMDT, revelando um dos maiores craques de Minas em todos os tempos – Niginho, o grande ídolo que logo seria levado para o Lázio, da Itália. O nome do clube deixou de ser escrito em italiano. Passou a ser Sociedade Esportiva Palestra Itália. Entretanto, o início da Guerra Mundial forçou, em 1941, nova modificação no nome do Palestra, que passou a ser Mineiro.

No ano seguinte, o Brasil cortou relações que mantinha com os países do eixo – Alemanha, Itália e Japão. Por determinação do governo federal, o Palestra trocou seu nome novamente.

Sem consultar o Conselho, arbitrariamente, o presidente Enes Ciro Poni decidiu rebatizar o clube com o nome Ypiranga. A idéia foi rejeitada e, semanas depois, em Assembléia Geral, decidiu-se que o clube passaria a se chamar Cruzeiro Esporte Clube.

Daí para a frente,, fortificou-se um novo clube em Belo Horizonte. Não era mais, simplesmente, o clube dos italianos. Era uma sociedade eclética, que logo implantou os esportes amadores e foi construindo o patrimônio do clube. As cores novas – azul e branco (o vermelho e o verde foram eliminados) – já eram vistas em bandeiras e flâmulas que se espalhavam pelo Barro Preto, um bairro que crescia e adotava o Cruzeiro como seu símbolo.

Em 1945 foi novamente tricampeão de futebol, enquanto que, nos outros esportes, o Cruzeiro brilhava. Foi se formando a tradição até que, com o terceiro tricampeonato, levantado em 1960, o clube entrou definitivamente para a fantástica história do esporte brasileiro. Um novo e dinâmico torcedor, que soltava rojões e agitava bandeira em treinos, foi eleito presidente: o italiano Felício Brandi. A partir do dia da sua posse, Brandi começou a reconstruir o Cruzeiro com o seu espírito corajoso. Primeiro, um frande time de futebol. Depois, o resto. E assim fez.

O grande time (Raul, Pedro Paulo, William, Procópio e Neco; Piazza e Dirceu Lopes; Natal, Evaldo, Tostão e Hilton Oliveira) começou ganhando a Taça Brasil de 1966 e, aí, o clube já era dono de um invejável patrimônio. […]

 

90 anos: o que nos representou 2010?


Chega ao fim a temporada número 90 do Cruzeiro Esporte Clube.

No dia 2 de janeiro completaremos 90 anos de glórias por essas terras de Minas, um clube ítalo-brasileiro que conquistou em poucos anos o Brasil e a América. Privilégio único nessa terra das alterosas.

Começo aqui uma singela homenagem a essa agremiação que começou com um pequeno grupo de italianos e hoje move com a emoção de 8 milhões de torcedores.

Nem sempre serão textos de nossa autoria, poderá ser reportagem, crônica (como a que foi transcrita semana passada na Squadra sobre a final de 66), imagem… por isso peço a ajuda e que entrem em contato quem tiver material que exalte a nossa história.

E hoje, gostaria de exaltar a nossa página mais recente: a temporada de 2010, onde conhecemos um verdadeiro espírito de guerreiros em campo.

O que nos representou 2010?

Após o baque da derrota na final da Libertadores da América de 2009, a moldura de um time campeão vinha ao campo no segundo turno do campeonato brasileiro do mesmo ano. Após uma arrancada histórica, o Cruzeiro conquista a última vaga para a Libertadores do ano seguinte, caindo na etapa classificada como “pré-libertadores”.

A sua primeira vitória do ano foi conquistada sobre o Uberlândia com uma sonora goleada por 6×0, sinal de que seria um ano diferente. Mas as atenções estavam voltadas para a Pré-Libertadores e, após conseguir um empate em condições adversas na Bolívia, conquistou a incrível vitória por 7×0 sobre o time Real Potosí, recorde de diferença de gols celeste no campeonato continental.

Com o objetivo na conquista do Tri na Libertadores da América, o campeonato mineiro foi preterido diante da competição internacional e a equipe foi eliminada na semi-final do campeonato regional diante do Ipatinga e uma crise – plantada – foi estabelecida, onde o estopim seria a eliminação na LA, caso houvesse.

Tantos torceram, que conseguiram! A equipe celeste foi eliminada diante do São Paulo – que, incrivelmente, decidiu jogar bola apenas contra o Cruzeiro em 2010 – e depois de tanto pressionar, conseguiram derrubar o técnico Adilson Batista, para a euforia geral da imprensa.

Cuca, criticado e rotulado como “derrotado” por parte da torcida, veio no lugar do AB. Pegou o time em 12º lugar no Campeonato Brasileiro, época em que o líder tinha como vantagem 12 pontos sobre nós. E então apareceu o time de guerreiros…

A diretoria investiu na qualidade em suas contratações. Trouxe reforços para a contestada zaga e, finalmente, investiu em um extraordinário “camisa 10”, o argentino Montillo.

Com a parada para a Copa do Mundo, Cuca teve um tempo suficiente para conhecer o grupo, planejar os próximos meses e enfrentar uma maratona de jogos que vinha a diante, onde a equipe celeste conquistou a maioria dos pontos e figurou entre os primeiros colocados.

Neste período se encontra o jogo contra o Palmeiras, uma conquista de 3 pontos que foi o retrato fiel do que representou todo o ano do Cruzeiro.

Chegando à reta final, o Cruzeiro via as suas chances de título aumentarem. Lutou bravamente em vários jogos na conquista de 3 pontos e, como poderia acontecer em qualquer grande time, houveram tropeços. Mas continuou bravo na busca do almejado título – superando a falta do Mineirão, os grandes desfalques e os erros bizarros da arbitragem –  e chegou na rodada final com 4% de chances de título, dependendo dos resultados de seus adversários para ser campeão.

O time que não era visto como candidato ao título após o “vexame” no campeonato mineiro, ao final foi visto com grande espírito, que honrou o segundo lugar conquistado. Foi reconhecido, temido e respeitado.

Neste ano de 2010, podemos até não ter uma taça para expor nas vitrines, mas na memória de todo cruzeirense ficará a história de um time, que contra tudo e contra todos, enalteceu um vice-campeonato de muito suor.

Para 2011, espero que continue com o mesmo time base, que vem sendo formado desde 2008 e agora se encontra em seu melhor momento, analisando o entrosamento e o amadurecimento do grupo. Espero que a renovação no elenco não atinja as suas peças principais, pois certamente estaremos na luta pelo Tri – tanto no Brasileiro quanto da Libertadores.


Fotos: Vipcomm

Luciana