Complexos

Já que tem muito tempo que nem atualizo o Squadra Azzurra, quis passar por aqui pra deixar uma nota sobre um livro que estou lendo do Marcos Guterman (ed. Contexto), chamado “O futebol explica o Brasil”.

Como diz o título, o esporte explica sim o país e nos apresenta a profissionalização e o amor que existe no esporte. Em vários momentos enquadrei diversas situações do Cruzeiro na trajetória da Seleção Brasileira enquanto lia e gostaria de compartilhar um pouco sobre o “complexo de vira-latas” e algo que nunca podemos desprezar a esperança, ainda que seja um pouco iludida.

Após o Maracanazzo em 1950, o brasileiro ficou receoso com o futebol de sua Seleção. Na Copa seguinte de 54, havia resquícios e medo do que havia acontecido em 50 e acabou sendo vergonhosa a participação da Seleção Brasileira naquele ano, sendo eliminada pela Hungria nas quartas de final

Para 58, o Brasil apostaria em um garoto de 17 anos cujo apelido intrigante era Pelé. Apesar de ser uma trio admirável do garoto com Vavá e Garrincha, a confiança do brasileiro ainda era pouca, já que, como diria José Lins do Rego em 1950 “O brasileiro é um adorador de vitórias, o homem que não admite fracasso”, a população ainda não queria confiar naquela Seleção, receosa de uma nova desilusão.

A crônica a seguir explica de onde vem a expressão “Complexo de Vira-Latas”, escrita por Nelson Rodrigues em 1958

Hoje vou fazer do escrete o meu numeroso personagem da semana. Os jogadores já partiram e o Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética. Nas esquinas, nos botecos, por toda parte, há quem esbraveje: – “O Brasil não vai nem se classificar!”. E, aqui,eu pergunto: – não será esta atitude negativa o disfarce de um otimismo inconfesso e envergonhado?

Eis a verdade, amigos: – desde 50 que o nosso futebol tem pudor de acreditar em si mesmo. A derrota frente aos uruguaios, na última batalha, ainda faz sofrer, na cara e na alma, qualquer brasileiro. Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente nada, pode curar. Dizem que tudo passa, mas eu vos digo: menos a dor-de-cotovelo que nos ficou dos 2 x 1. E custa crer que um escore tão pequeno possa causar uma dor tão grande. O tempo em vão sobre a derrota. Dir-se-ia que foi ontem, e não há oito anos, que, aos berros, Obdulio arrancou, de nós, o título. Eu disse “arrancou” como poderia dizer: – “extraiu” de nós o título como se fosse um dente.

E, hoje, se negamos o escrete de 58, não tenhamos dúvidas: é ainda a frustração de 50 que funciona. Gostaríamos talvez de acreditar na seleção. Mas o que nos trava é o seguinte: o pânico de uma nova e irremediável desilusão. E guardamos, para nós mesmos, qualquer esperança. Só imagino uma coisa: – se o Brasil vence na Suécia, e volta campeão do mundo! Ah, a fé que escondemos, a fé que negamos, rebentaria todas as comportas e 60 milhões de brasileiros iam acabar no hospício.

Mas vejamos: o escrete brasileiro tem, realmente, possibilidades concretas? Eu poderia responder, simplesmente, “não”. Mas eis a verdade: eu acredito no brasileiro, e pior do que isso: sou de um patriotismo inatual e agressivo, digno de um granadeiro bigodudo. Tenho visto jogadores de outros países, inclusive os ex-fabulosos húngaros, que apanharam, aqui, do aspirante-enxertado Flamengo. Pois bem: não vi ninguém que se comparasse aos nossos. Fala-se num Puskas. Eu contra-argumento com um Ademir, um Didi, um Leônidas, um Jair, um Zizinho.

A pura, a santa verdade é a seguinte: qualquer jogador brasileiro, quando se desamarra de suas inibições e se põe em estado de graça, é algo de único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção. Em suma: temos dons em excesso. E só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas qualidades. Quero aludir ao que eu poderia chamar de “complexo de vira-latas”. Estou a imaginar o espanto do leitor: “O que vem a ser isso?”. Eu explico.

Por “complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos “os maiores” é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Porque, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo. Na já citada vergonha de 50, éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a vantagem do empate. Pois bem: – e perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: – porque Obdulio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos.

Eu vos digo: o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender, lá na Suécia. Uma vez que se convença disso, ponham-no para correr em campo e ele precisará de dez para segurar, como o chinês da anedota. Insisto: para o escrete, ser ou não ser vira-latas, eis a questão.”

Acho que a primeira pessoa que tinha que tirar lição disso sou eu. =P

Anúncios

90 anos: Na hora H, valeu a molecagem

Continuando os posts comemorativos pelos 90 anos do Cruzeiro Esporte Clube, venho apresentar-lhes mais uma página heróica imortal, a decisão da Libertadores da América de 1976. Onde o caçula Joãozinho entra pra história devido à malandragem e a boa pontaria.

Mais uma vez, é de um artigo tirado da revista Placar de 1976 e fotos assinadas por Célio Apolinário. Boa leitura!

(Confira aqui os outros posts sobre os 90 anos do Cruzeiro)

Na hora H, valeu a molecagem

Era a decisão da Libertadores contra o temível River Plate. Para vencê-la, o Cruzeiro precisou de categoria, garra e malandragem.

Cruzeir: Raul, Nelinho, Morais, darci Menezes, Vanderlei, Piazza, Zé Carlos, Eduardo, Palhinha, Ronaldo e Joãozinho; River: Landaburu, Comelles, Artico, Lonardi, Urquiza, Sabella, Merlo, Alonso, González, Luque e Más.

Aqui estão eles, em Santiago. Frios, alegres, falantes, preocupados com umas comprinhas. E é um dia muito importante para o Cruzeiro – o da decisão da Taça Libertadores da América. Aqui estão os experientes, os garotos. E o comando de Zezé Moreira. Raul, Piazza, Nelinho, Zé Carlos, Vanderlei, Palhinha, Jairzinho, Joãozinho… Jairzinho está completando seis meses de clube. Sua contratação teve um objetivo: dar a malícia, a maldade até, que faltava ao Cruzeiro para ganhar a Libertadores. E Jair, neste dia importante para o Cruzeiro, está de fora. Expulso no jogo anterior, em Buenos Aires, juntamente com Perfumo, ele cumpre a suspensão automática. Mas não perdeu a confiança.

“Vamos ganhar deles. Vamos ganhar porque somos melhores. E, aqui em Santiago, não precisamos jogar mais que jogamos lá em Buenos Aires.”

Em Belo Horizonte, no primeiro jogo, o Cruzeiro goleou: 4 a 1. No segundo, em Buenos Aires, dois erros, dois erros do juiz deram a vitória ao River: 2 a 1. A decisão, em campo neutro, é no Chile, no Estádio Nacional de Santiago. A torcida tende mais para os brasileiros – é um modo de opor-se à excessiva gritaria, ao excesso de autoconfiança dos quase 10 mil argentinos que invadiram a cidade. Envolveram-se em bandeiras argentinas ou do River, espalham-se pelas ruas, espantam o frio com sucessivos tragos de vinho. E cantam incansáveis:

Ou marcavam Nelinho ou aguentavam a bomba.

“Vamos, vamos, Argentina
Vamos, vamos a ganar
Esta barra quilombera
No te deja,
No te deja de alentar”

Os poucos cruzeirenses que conseguiram chegar a Santiago rodam pelas ruas, metem-se a conhecer a cidade, reconhecíveis apenas pelas roupas coloridas. À noite, vão para o estádio, mas poucos levam bandeiras.

Começa o jogo, descobre-se a ajuda da torcida chilena, os cruzeirenses se multiplicam. Logo, vão sofrer, vão descobrir que Jairzinho faz muita falta ao ataque.

“Não tem nada, não. O Palha vai dar um jeito nesses caras.”

É Jairzinho quem fala, colocado ao alambrado. Em seu rosto, se pode ler cada jogada, cada tentativa, cada drama de Palhinha em sua luta contra um beque de quase dois metros de altura, que o derruba em cada disputa de bola. A solução se começar a deslocar-se para as pontas, na tentativa de abrir espaços para Zé Carlos e Ronaldo, que estão vindo de trás.

O River, com uma defesa nervosa, joga no contra-ataque. Mas encontra um Cruzeiro firme, cada jogador guarda sua posição – bem do jeito que Zezé Moreira quer. Então, vai ser questão de tempo, de espera pela chance. Ela vai aparecer, ninguém tem dúvida.

Joãozinho estava infernal: deixou seu marcador sentado e fez um gol de moleque

Os argentinos vêem mais uma vez que o perigo se chama Joãozinho, que faz o que quer com Comelles, e ainda atrai mais um ou dois marcadores. E a torcida chilena, que há muito não via um ponta tão bom de bola, tão rápido, tão esperto, vai gostando do jogo, está percebendo que, pelo caminho da simpatia, está, ao mesmo tempo, apoiando o melhor time, um time cuja categoria até o River aprendera a respeitar.

Mas é só categoria? Nada disso. Agora- e isso o River ainda não conhecia – está valendo tudo: quando não é na classe, é na raça.

Vai sair o primeiro gol. Um gol que é bem brasileiro, que é bem argentino. Eduardo mostra a Urquiza o que é um rabo-de-vaca – e cruza para Palhinha que espera na marca de pênalti. No puro reflexo, Urquiza corta o cruzamento com a mão, dentro da área.

Pênalti – e entra o estilo portenho. Aos gritos, Merlo e Oscar Más reclamam. Transfiguram-se, fazem o ar da honestidade ofendida, dão peitadas no juiz. Mas não tem nada. Nelinho já vai ajeitando a bola, já corre para ela e manda a sua bomba, no canto direito.

Cruzeiro 1 a 0, aos 24 do primeiro tempo. Agora, se o River for a sério em busca do empate, deixará mais livres o endiabrado Joãozinho, o oportunista Palhinha, o raçudo Ronaldo.

Palhinha é outro jogador. Neste jogo, ele se completa, chega à perfeição. A raça, a presença de sempre – mas uma novidade: a paciência, a espera. Passa por Lonardi, o grandalhão, e é derrubado. O joelho está vermelho das pancadas, o uniforme sujo de tantas quedas. Mas não perde a cabeça, como já aconteceu tantas vezes, em tantas decisões.

Mas não é só Palhinha. É o Cruzeiro inteiro que dá uma lição de como jogar uma decisão.

A alegria de Joãozinho, Raul e todo mundo.

Com 1 a 0 e um ambiente cada vez mais tenso, começa o segundo tempo. Tudo como antes. No meio, o revezamento, as constantes deslocações de Eduardo, as avançadas de Zé Carlos. Na área do River, Palhinha, sozinho, lutando com os gigantes Lonardi e Ártico. E o River desesperado, buscando o empate. E não há dúvida: se os argentinos chegarem a marcar, vai começar o grande festival da catimba.

Seu Zezé, no banco, é a personificação de um contraste: o corpo imóvel, as rugas imobilizando aquela máscara de sofrida paciência, mas os olhos vivos, inquietos. Ele havia dado, menos que uma ordem, um conselho a Ronaldo (“Não se prenda tanto à ponta, tente chegar um pouquinho mais para o meio”). Agora, em silêncio, ele vê que Ronaldo, ele vê que Ronaldo se chega mais a Palhinha – e, aos 10 minutos, avança pela meia-esquerda, tira Comelles da posição e, ao chegar perto da área, marcando por Ártico e combatido pelas costas por Merlo, rola para Eduardo, que se infiltra pela direita.

O chute sai certeiro, forte, de primeira. Landaburu voa para a direita, mas a bola passa longe de seu alcance, fica balançando a rede lá no alto. E o time todo do Cruzeiro se junta num abraço, festejando o desespero argentino.

Parece que o River está liquidado. Mas não. A correria, a gana, a busca do gol não cessa. O Cruzeiro acalmasse, o River vem com raiva. E é com raiva que Luque entra pela área, tentando limpar a barra no peito. À sua frente, Morais – e Luque é derrubado. Pênalti, aos 13 do segundo. O baixinho Oscar Pinino Más, pouco fôlego, bastante classe, notável malícia, coloca a bola, mandando Raul para um canto e chutando em outro. Marca e corre para buscar a bola, com pressa, na gana. Mas é logo substituído. Sai desgostoso, os companheiros dão toda a impressão de abatimento.

Mas essa impressão dura pouco. Lá está, novamente, o ataque do River, forçando, confrontando sua fúria com a calma, que começa a ser enervante, do Cruzeiro. Do lado brasileiro, é fora do campo que as coisas começam a se modificar. Do alambrado, vêm os gritos de Jairzinho:

“Vamos, gente. Pau neles!”

Piazza, Zezé e Palhinha no vestiário

Do banco, vêm os gritos de um Zezé que se transforma, que agora não aconselha, ordena:

“Cuidado com as pontas.”

O Cruzeiro começa a desconfiar do juiz chileno. Alberto Martínez chama a atenção dos brasileiros, com vigor, e não fala nada com os argentinos. A cada falta, se percebe a diferença. E aos 17 ele marca mais uma, na ponta direita, a uns 10 metros da área. Ao mesmo tempo, mostra cartão amarelo a Darci Menezes. E, enquanto faz a anotação em seu caderninho, Comelles cobra forte para a área, a defesa do Cruzeiro está parada, Urquiza, o outro lateral, entra e manda para a rede.

É o empate. De nada adiantam as reclamações de Piazza, de Raul, dos outros – o juiz não havia autorizado a cobrança.

“Cuidado com as pontas.” Seu Zezé, ainda uma vez, tinha razão. E o gol que confirma sua intuição vai ficar como um nó na garganta de todos os brasileiros que estavam no estádio.

No River, desperta a alegria. No Cruzeiro, se adensa o drama. No meio, come a guerra. Briga-se pela bola, o Cruzeiro, esquecido do toque e da classe, sobe, assume a raiva. A bola só vai sobrar para um argentino depois que um argentino ficar caído. Ninguém quer deixar para depois, para a prorrogação. Quem pega a bola, tenta jogar de primeira. A cada apito do juiz, um berro de Zezé – e o Cruzeiro novamente crescendo, novamente dominando.

Nelinho, por duas vezes, tenta – e quase consegue -, de fora da área, surpreender Landaburu. Aos 39, cobra para fora uma falta de Merlo em Ronaldo.

Fim de todos os receios, de todos os motivos de tensão. O jogo acabou e o Cruzeiro é o novo campeão da Libertadores da América. Na distante Santiago do Chile, os jogadores se ajoelham e comemoram a grande conquista.

Mas é aos 42 que virá a sequência de lances capaz de resumir uma partida, de marcar uma diferença, de consagrar um estilo, de fazer da vitória do Cruzeiro uma vitória brasileira.

Batido, sem ninguém na cobertura, Ártico chuta Palhinha por trás. Alberto Martínez apita, anota o nome do argentino – enquanto Nelinho ajeita. É a última chance, o esforço definitivo. Lonardi comanda a barreira, olhando para Landaburu – e nenhum dos argentinos vê quando o moleque Joãozinho, passando à frente de Nelinho, entra na corrida e chuta para as redes.

Os argentinos nem se mexeram, o time todo do Cruzeiro começou a correr atrás de seu ponta, vendo que Martínez já apontava o meio do campo.

Era o gol salvador, o gol da molecagem, “o gol da irresponsabilidade”, como dizia Zezé Moreira.

Sujos, bêbados de alegria, os jogadores se abraçam à Taça Libertadores. No vestiário, Ronaldo, expulso no último minuto de jogo, grita com Jair:

“Ganhamos. Eu sou pé quente.”

Todo ferido, Palhinha desabafava:

“Valeu a pena agüentar aquele grandão me sarrafando o tempo todo”.

Joãozinho, segurando a camisa 5 de Merlo, explica o seu gol:

“Eu vi que o goleiro estava fora da jogada. Se o juiz não mandou cobrar a falta no gol do River, não ia eu esperar que ele mandasse cobrar a nossa. Achei que ninguém esperava que eu cobrasse. E não esperava mesmo.”

E então, na malandragem final, na categoria bem brasileira, finalmente o Cruzeiro ganhou o tão sonhado título: campeão da Taça Libertadores da América. Uma festa só, que Belo Horizonte comemorou até o sol nascer. Uma festa que, além do Santos de Pelé, só o Cruzeiro conseguiu fazer no País do Futebol.